É muito comum que os garimpos sejam os principais recursos a serem lembrados quando se trata de extração de minerais concentrados no subsolo. Mas, em Soledade, há diferenças. Isso porque, o município não conta com registros de garimpos de profundidade, apenas de superfície, como esclarece o jornalista, escritor e historiador, Paulo Diógenes de Quevedo Borges. O termo usado por ele - "nossas pedras afloravam da terra" - remete ao período em que o município ainda contava com mais de 200 quilômetros de extensão territorial, antes das últimas emancipações serem concluídas, por volta dos anos 1810 e 1823.
Os primeiros portugueses, chamados de sesmeiros, não tinham a tradição de praticar a pecuária e nem explorar as pedras preciosas. O interesse se concentrava em ocupar e manter a integridade do território, explica o historiador. Devido ao cuidado necessário com a terra, a pecuária e a agricultura rudimentar, tornaram-se as duas principais fontes de subsistência desse povo, o que gerou os primeiros impulsos para a permanência dos novos habitantes no município e o surgimento das primeiras grandes fazendas.
Eram nelas que os alemães, vindos das localidades gêmeas Idar-Oberstein, do sudoeste da Alemanha, replicavam, no começo do século XX, o conhecimento para extração das Ágatas, prática que já realizavam no território alemão. O movimento tornou-se o primeiro grande impulso de projeção econômica em Soledade e na região.
O polo de mineração e beneficiamento de pedras em Soledade começou a ganhar força a partir da década de 1960. Embora a extração das ágatas tenha sido uma fonte de renda e de comercialização para viajantes desde a segunda metade do século XIX, foi na década de 1960 que a verdadeira tradição industrial e de exportação iniciou, um movimento que garantiu a expansão do comércio nos anos de 1970 a 1990, já que para além das extrações locais de ágatas, a cidade de Soledade se transformou no principal centro de processamento e exportação de pedras do Rio Grande do Sul. Além desse alcance e do título nacional de Capital das Pedras Preciosas, o município sedia todos os anos a Exposol, a maior Feira de Joias e Pedras Preciosas da América Latina, realizada no Parque de Eventos Centenário Rui Ortiz, que também abriga o Museu da Pedra e Mineralogia, Egisto Dal Santo.
Interesse pelos minerais ajudou a atrair empresários para a cidade e região
Marlusa Marques/ESPECIAL/CIDADES
“Não tem como falar da economia de Soledade sem falar das pedras. Elas estão conosco antes mesmo dos anos 1900. O interesse por elas é antigo, embora a atuação e a importância seja mais recente. Acredito que o grande fluxo de negócios tenha acontecido após o centenário da cidade (em 1975), ou então nascido como força comercial e empresarial, de uma abrangência maior, a partir desse período.”, pontua Paulo. Um dos principais motivos disso, segundo ele, é a percepção de que a maioria dos empresários da cidade escolheram Soledade como espaço de investimento, mesmo não sendo naturais do território, enquanto que dentro do mesmo contexto muitos cidadãos que chegaram ao município permaneceram investindo e morando ali, elevando a cidade como uma potência de investimentos e crescimento no ramo das gemas e das pedras preciosas.
“A maioria dos empresários que investem na cidade vieram de outras regiões, mas se erradicaram aqui e provocaram esse boom que transformou Soledade na cidade das pedras preciosas. As maiores empresas brasileiras de pedras estão aqui. Importamos de dezenas de países e exportamos para o dobro deles. Soledade é hoje o maior centro de comercialização de pedras do Brasil. O mundo todo sabe da existência das pedras de Soledade, sabe que temos empresas organizadas e que atendem aos requisitos de legislação, preservação ambiental, entre outros pontos fundamentais para o funcionamento do setor”, garante ele.
Para Paulo, existem pedras com ainda mais qualidade nas profundezas do solo de Soledade. Minerais com brilho, cor, forma e tamanho, as principais características de gemas e pedras preciosas, prontas para ocupar espaços tão importantes quanto as que já estão espalhadas pelo mundo. “As pedras de Soledade são usadas em decorações no mundo todo e estão presentes em espaços como no Museu Americano de História Natural, em Nova York; na Universidade Estatal de Moscou, na Rússia; na Calçada da Fama, de Hollywood; dentre tantos outros espaços. Eu afirmo que as nossas pedras estão nos mais destacados pontos comerciais e centros históricos do mundo. Não há exceções. A nossa pedra está em toda parte”, afirma o pesquisador.