A situação hídrica em Bagé, que motivou, nesta segunda-feira (8), uma
ampliação no racionamento de água na cidade,
não deve se normalizar antes de setembro na região da Campanha. A avaliação é do meteorologista Júlio Marques, professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que acompanha o comportamento climático da região e explica que a
circulação atmosférica responsável pelas chuvas fracas dos últimos meses
deve se manter ao longo de todo o inverno.
Segundo Marques, a Campanha é uma região naturalmente mais seca, com alta evaporação, o que agrava qualquer déficit de precipitação. "Existe muita perda de água líquida para a própria natureza. Se entra menos e continua sempre saindo de forma regular, chega um ponto que começa a diminuir as fontes", explicou. Este ano, praticamente todos os meses registraram chuvas abaixo da média histórica, acumulando um déficit que as barragens não conseguiram recuperar.
O professor alerta que as chuvas devem continuar ocorrendo, mas sem a intensidade necessária para reverter o quadro. "Vai ter chuva, com certeza, mas na mesma balada dos últimos meses. Pode até dar um pouco mais em algum momento, mas os volumes devem continuar abaixo do normal pelo menos até setembro", afirmou. O que está ausente, segundo ele, são as chamadas frentes estacionárias, sistemas que ficam parados sobre a região por vários dias, alimentados por umidade da Amazônia, e que produzem os acúmulos de chuva capazes de recarregar reservatórios. "Esse quadro, até setembro, a gente não tem previsão de ocorrer", disse.
Marques também chama atenção para o uso excessivo do El Niño como explicação simplificada para previsões climáticas. Para o meteorologista, o fenômeno oceânico é apenas um dos ingredientes da circulação atmosférica e não garante, por si só, nem excesso nem escassez de chuvas. Como exemplo, cita a maior estiagem já registrada no Rio Grande do Sul, entre 2004 e 2005, que ocorreu justamente em um ano de El Niño. Da mesma forma, as enchentes de maio de 2024, frequentemente associadas ao fenômeno, tiveram como causa principal uma circulação específica do Atlântico. "Ter um El Niño não garante que vai chover. Tem que ter a contribuição da atmosfera e da circulação", explicou.
A virada climática esperada para a primavera também não será imediata, estima o pesquisador. Mesmo que as chuvas aumentem a partir de outubro e novembro, a normalização dos reservatórios levará tempo, salienta. "Resolver o problema de abastecimento plenamente talvez só durante a primavera. De um dia para o outro não vai resolver", disse o professor, que acredita que mais adiante será possível fazer estimativas mais precisas sobre o comportamento de setembro, mês que define a inversão climática no Sul do Brasil.