Em boa parte das cidades brasileiras, placas de “vende-se” e “aluga-se” fazem parte da paisagem urbana e funcionam como um dos principais instrumentos de captação de clientes no mercado imobiliário. Em dois municípios do Litoral Norte gaúcho, porém, a lógica é diferente. Em Xangri-Lá e Capão da Canoa, a ausência quase total dessas placas nas fachadas dos imóveis se consolidou como característica do mercado local, mesmo em meio a volumes bilionários de vendas.
Segundo o consultor imobiliário Fabiano Braga, a prática surgiu a partir de um entendimento entre imobiliárias de Xangri-Lá, um “acordo de cavalheiros” para evitar que o excesso de anúncios físicos transmitisse a impressão de que a cidade estaria “abandonada” ou com imóveis sobrando. “Foi se percebendo que, em determinados períodos, entrava muito imóvel à venda em uma localidade e, quando se colocava a placa, dava a sensação de que toda a cidade estaria à venda, o que não era verdade”, explica. “Então, foi feito um acordo entre os proprietários das imobiliárias para parar de utilizar placa de venda.”
O delegado regional do Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci-RS) no Litoral Norte, Atilar Júnior, afirma que a prática começou originalmente em Capão da Canoa, ainda antes da emancipação de Xangri-Lá, por iniciativa da associação local de corretores. “Chegava aqui e cada imóvel tinha seis, sete, oito placas. Aquela poluição visual foi entendida como algo não saudável para o mercado, porque causava a impressão de que a praia estava toda à venda”, relembra.
Em Capão da Canoa, a prática acabou incorporada à legislação municipal. O Código de Posturas do município, desde 1993 proíbe placas imobiliárias em fachadas de imóveis na área urbana, permitindo apenas uma placa única com os dizeres “vende-se ou aluga-se, tratar nas imobiliárias locais". Já em Xangri-Lá não existe legislação específica sobre o tema. O município possui apenas regras gerais sobre meios de publicidade, e a prática é mantida por convenção entre imobiliárias e associações do setor, que, segundo Atilar, começam a se movimentar para oficializar o entendimento.
Mesmo sem anúncios físicos, os dois municípios registram cifras expressivas no mercado imobiliário. Dados citados por Fabiano Braga apontam que Xangri-Lá encerrou 2025 com cerca de R$ 1,5 bilhão em Valor Geral de Vendas (VGV) apenas em revendas de imóveis. Considerando lançamentos imobiliários, o volume ultrapassaria R$ 2 bilhões.
Segundo Braga, o estoque atual de imóveis à venda no município supera R$ 5 bilhões em VGV, sem incluir lançamentos. “Se contabilizar tudo, o potencial passa de R$ 7,5 bilhões”, afirma.
Em Capão da Canoa, o volume é ainda maior. Conforme Atilar Júnior, o município movimentou aproximadamente R$ 5,7 bilhões em VGV em 2025, entre revendas e lançamentos. “Hoje, o segundo maior mercado imobiliário do Rio Grande do Sul é Capão da Canoa. Só perde para Porto Alegre”, pontua.
A expansão imobiliária em Xangri-Lá acompanha o
crescimento dos condomínios fechados. Dados da prefeitura apontam que cerca de
50% da área urbana do município já é ocupada por esse tipo de empreendimento, entre projetos concluídos e em construção. O
modelo atrai moradores permanentes, veranistas e investidores, além de impulsionar a valorização imobiliária e o setor da construção civil.
A diferenciação também aparece dentro do próprio município de Capão da Canoa e em cidades vizinhas do Litoral Norte. Segundo Atilarm, enquanto a vedação às placas se concentra no perímetro urbano central de Capão da Canoa, balneários mais afastados ainda mantêm anúncios visíveis nas fachadas. “Tu pegas um balneário mais ao norte do município, como Guarani, Arco Íris, Jardim Beira-Mar, sentido Capão Novo, aí tu vais ver placa numa casa e está tudo certo”, diz.
O corretor também compara a situação com outros municípios da região, como Tramandaí, Cidreira e Pinhal, onde a presença de placas é mais comum e, segundo ele, o cenário imobiliário não é tão pujante. “A gente entende que essa poluição visual enfraqueceria o mercado. Tu entras nessas praias menores e vê cinco, seis, dez placas. Nós aqui não queremos isso”, enfatiza.
Digital substitui a “descoberta casual”
Análise é de que placas não tornam o mercado imobiliário rentável em outros locais
LUIZA PRADO/JC
A retirada das placas obrigou o mercado local a buscar outras formas de divulgação. Segundo Braga, isso acelerou a adoção de estratégias digitais e marketing imobiliário online. “O mercado digital foi a porta de saída. Hoje, praticamente 90% das negociações acontecem de forma digital, por site ou rede social”, afirma.
Ele relata que sua imobiliária investe cerca de R$ 100 mil mensais em tráfego pago e posicionamento em motores de busca como o Google. Segundo o consultor, a ausência da placa, considerada tradicionalmente um dos meios mais eficientes de captação de clientes, obrigou as empresas locais a desenvolverem estratégias mais sofisticadas. “O corretor sempre sonhou com o cliente que liga porque viu a placa. Tirando essa ferramenta, tivemos que nos reinventar”, afirma.
Para Atilar Júnior, o modelo se sustenta também pela grande presença de imobiliárias físicas nas cidades. “Hoje, em qualquer canto de Capão da Canoa, existe uma imobiliária aberta com plantão de vendas. Então, entendemos que não há necessidade de placas”, afirma.