Um novo projeto para diminuir o conflito entre a malha urbana da região central de Canoas e a linha férrea do Trensurb está em andamento. A iniciativa, liderada pela prefeitura, prevê a elevação de cerca de 2,4 quilômetros da via percorrida pelo trem, entre a estação Matias Velho e o viaduto da rua Doutor Barcelos.
Atualmente, a Secretaria de Projetos e Captação de Recursos elabora os termos de uma parceria com o Ministério das Cidades. O documento deve ser concluído em até 30 dias e entregue para avaliação. No início de março, conforme noticiado pelo Jornal Cidades, o prefeito Airton Souza esteve em Brasília, onde se reuniu com o secretário nacional de Mobilidade Urbana, Denis Andia e com o presidente da Trensurb, Nazur Garcia, “onde apresentaram o cenário atual de Canoas e discutiram alternativas de financiamento e enquadramento do município em diferentes linhas de recursos federais”, informava a assessoria de imprensa da prefeitura.
O novo movimento marca uma mudança de direção da gestão municipal em relação a outro projeto, iniciado em 2011 com o mesmo objetivo mas que, à época, previa o rebaixamento da estrada de ferro, com a construção de túneis em diferentes pontos. Em 2023, ano em que a obra foi novamente submetida a seleção para o PAC – sem sucesso, de acordo com a atual gestão - a obra estava orçada em R$ 953 milhões.
Segundo a titular da pasta de Projetos, Daniela Fontoura, a justificativa principal é proporcionar uma integração maior entre os lados Leste e Oeste de Canoas, divididos tanto pela linha do metrô quanto pela rodovia BR-116. “Queremos superar essa barreira física que se apresenta hoje para o município”, pontua. Segundo Jerusa Mattos, secretária-adjunta, “Para fazerem essa transposição, os carros têm que fazer um deslocamento muito maior. Isso representa não só custo, mas influência na qualidade do ar”, complementa.
A adjunta também pontuou que a proposta antiga, de rebaixamento, seria “mais dispendiosa” e “exigiria mais interferências na vida cotidiana, haveria escavações em que se teria de suspender, inclusive, a operação do trem”, o que não deve ocorrer no novo modelo, que segundo Jerusa, é baseado na elevação do Trensurb em Novo Hamburgo concluída em 2014. "É a nossa referência mais próxima dentro da realidade da Região Metropolitana", cita.
Além da questão da mobilidade, a prefeitura pretende usar a área liberada pela elevação do trem para criar espaços públicos, bulevares e áreas de convivência, promovendo uma requalificação urbana da região central e do lado Oeste da cidade. “A ideia é trazer vida para o lado do Centro e do Oeste, que sofreu muito com a enchente. Nos fins de semana, diminui todo o movimento para esse lado da cidade, porque os parques são mais a leste ou mais entre os bairros. Então, isso é planejado para trazer mais desenvolvimento econômico para esse lado”, explica Daniela.
O projeto da elevação da Trensurb é tratado em conjunto com a trincheira da Rua Domingos Martins, obra histórica aguardada pela cidade, que fará a ligação sob a BR-116. A prefeitura considera as duas intervenções complementares para melhorar a mobilidade urbana e trará “um ganho de urbanização para a cidade”, complementa a secretária.
Embora o trecho não tenha sofrido alagamentos durante as enchentes de 2024, que trouxeram impacto significativo em Canoas - a troca de ideia não ocorreu em função da catástrofe, disse a secretária -, a prefeitura relaciona a proposta a um processo mais amplo de reconstrução urbana e desenvolvimento resiliente após a inundação da cidade.
Com a obtenção de recursos federais, possivelmente por meio do PAC Mobilidade, a execução de todo o projeto ficará a cargo da prefeitura de Canoas. Ainda não há prazo para o início das obras, e nem dos custos necessários. Apesar da sinalização positiva do governo federal, a concretização do projeto depende, além do termo de cooperação com o Planalto, é necessária a realização de estudos de viabilidade Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental, além da elaboração de um projeto básico e um projeto executivo, antes de que haja a licitação propriamente dita para a execução das obras.
No caso do projeto de rebaixamento da via do Trensurb, que não foi selecionado pelo PAC, desde o início do processo, com o envio da proposta pela Metroplan ao governo federal para o PAC2 Mobilidade, passando pela fase de estudos e elaboração de projetos, até a nova tentativa de viabilizar a obra, em novembro de 2023, passaram-se 12 anos.
A assessoria de comunicação da Trensurb não comentou sobre o projeto de elevação, nem sobre a proposta anterior, mas informou que “a empresa, porém, está à disposição para contribuir nessa iniciativa conforme necessário”.
O "desce-e-sobe" do Trensurb em Canoas
O projeto atual que prevê alterações no trecho de Canoas da linha do Trensurb, com a construção de uma via elevada, não é o primeiro que busca mais fluidez na circulação de veículos na região central do município metropolitano. A proposta que obteve mais avanço e recebeu mais recursos financeiros envolvia o rebaixamento da linha, na prática tornando o metrô subterrâneo, entre as ruas Ipiranga e Barão de Santo Ângelo, uma extensão de 2,1 quilômetros sob a avenida Guilherme Shell.
A trajetória relacionada ao tema tem início em abril de 2011, quando foi enviada pela Metroplan uma carta-consulta ao Ministério das Cidades, com propostas para melhorias na rede de transportes e acesso a estação de trem de pelo menos 10 municípios da Região Metropolitana de Porto Alegre, com o objetivo de inclusão no PAC 2- Mobilidade Grandes Cidades.
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Um levantamento realizado pela reportagem do Cidades nos sites da prefeitura de Canoas, governo do Estado, governo federal e Trensurb, trazem notícias de diferentes etapas relacionadas ao tema. Em 2012 houve a assinatura do contrato para a execução dos projetos básico e executivo da obra, cuja concorrência foi vencida pela empresa Bourscheid Engenharia e Meio Ambiente S/A. Essa fase custou R$ 6 milhões ao governo federal. Na época, a proposta previa que a estação Canoas/La Salle ficaria no subsolo e seria deslocada para a Praça da Bandeira; também seria feito o alargamento da Guilherme Shell e da Vitor Barreto.
O projeto executivo foi apresentado em 2014, segundo jornais da época e, em 2015, a mesma empresa fez análises do solo em Canoas para a realização de estudos inspeção, sondagem e levantamento deflectométrico. Nesta época, o site do Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional apontava que o custo de toda a obra era estimado em R$ 400 milhões.
Nas ferramentas de busca da internet, a obra de rebaixamento só volta a aparecer em 2023, quando a prefeitura de Canoas noticiou que inscreveu 30 projetos para avaliação no PAC, a linha subterrânea do metrô entre elas; desta vez, o projeto estava orçado pela prefeitura em R$ 953 milhões, valor 138% superior ao divulgado em 2014. Segundo a atual gestão, iniciada em 2025, o projeto não foi selecionado, sem justificativa apresentada. O procedimento é considerado comum.
Por considerar que a obra original seria “dispendiosa” e traria mais transtornos à mobilidade local, a prefeitura optou por iniciar uma nova proposta, desta vez com a elevação da linha férrea.