Porto Alegre,

Publicada em 06 de Maio de 2026 às 17:05

Uso de própolis contra o câncer é tema de estudo em São Gabriel

Pesquisa liderada por Andrés Delgado investiga compostos seu potencial para ampliar a eficácia da quimioterapia em pacientes

Pesquisa liderada por Andrés Delgado investiga compostos seu potencial para ampliar a eficácia da quimioterapia em pacientes

Nicolly Nunes/Unipampa/Divulgação/Cidades
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Lívia Araújo
Lívia Araújo Repórter
Uma demanda de apicultores e empresários do setor deu origem, há pouco mais de uma década, a uma linha de pesquisa que hoje coloca o própolis produzido no Pampa gaúcho no radar da biotecnologia aplicada à saúde. Conduzido no câmpus de São Gabriel da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), o trabalho investiga propriedades da substância e seus possíveis usos como coadjuvante em tratamentos oncológicos. O tema foi apresentado durante a realização da Fenamel, em Santiago.
Uma demanda de apicultores e empresários do setor deu origem, há pouco mais de uma década, a uma linha de pesquisa que hoje coloca o própolis produzido no Pampa gaúcho no radar da biotecnologia aplicada à saúde. Conduzido no câmpus de São Gabriel da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), o trabalho investiga propriedades da substância e seus possíveis usos como coadjuvante em tratamentos oncológicos. O tema foi apresentado durante a realização da Fenamel, em Santiago.
A iniciativa começou entre 2012 e 2013, quando produtores locais procuraram a universidade em busca de estudos que ajudassem a valorizar a apicultura. Até então, não havia pesquisas na área no campus. O professor e biólogo Andrés Delgado Cañedo, com trajetória em genética e biologia molecular aplicada à oncologia, decidiu adaptar sua linha de pesquisa à nova demanda.
Os primeiros estudos focaram na saúde das abelhas e no mel, mas foi a partir da introdução do própolis, apresentada por um empresário do setor, que o grupo passou a avançar em descobertas mais promissoras. À época, o própolis do Pampa não tinha valor comercial e era vista como inferior, principalmente por sua coloração clara e menor teor de antioxidantes em comparação com produtos de outras regiões.
Com o aprofundamento das análises, os pesquisadores identificaram que o própolis local possui características distintas, com alta concentração de terpenoides, compostos de interesse crescente na biomedicina. Testes laboratoriais com linhagens de células tumorais indicaram que o extrato tem ação antitumoral e, sobretudo, capacidade de bloquear mecanismos de resistência das células à quimioterapia. “Observamos que, além de atuar diretamente sobre as células tumorais, o própolis impede que elas desenvolvam resistência aos quimioterápicos, o que pode aumentar a eficácia do tratamento”, explica Delgado. Segundo ele, o efeito foi consistente em diferentes tipos de câncer analisados em laboratório.
Enquanto o professor lidera estudos com própolis de abelhas com ferrão, a estudante de Biotecnologia Roberta Erdmann Rodrigues desenvolve uma linha paralela voltada às abelhas nativas sem ferrão. Em seu trabalho, ela comparou extratos de própolis de jataí e tubuna, identificando diferenças importantes entre as espécies. o própolis da jataí demonstrou potencial para atuar como agente coadjuvante, ajudando a reduzir a resistência das células tumorais aos quimioterápicos. No entanto, ao contrário do própoliso própolis estudada por Delgado, não apresentou efeito de morte celular, mas sim de inibição da proliferação.
A trajetória de Roberta na pesquisa começou em 2023, ainda no início da graduação, motivada pelo interesse na área da saúde e por uma experiência pessoal. "Em 2018, a mãe enfrentou um câncer de mama. Ela tem bastante orgulho e me apoiou muito no meu interesse em ser pesquisadora". O trabalho lhe rendeu o primeiro lugar na categoria Inovação do Salão de Ensino, Pesquisa e Extensão da Unipampa, fortalecendo seu currículo e abrindo caminho para a continuidade dos estudos em nível de pós-graduação.
Apesar dos avanços, os pesquisadores destacam que os resultados ainda estão restritos ao ambiente laboratorial. O próximo passo é identificar e isolar as moléculas responsáveis pelos efeitos observados, etapa essencial para o desenvolvimento de fármacos e eventual aplicação clínica. Outro desafio imediato é a publicação dos resultados em periódicos internacionais. O grupo foi convidado a submeter um artigo à revista Molecules, mas enfrenta dificuldades para custear a taxa de publicação, estimada em R$ 13 mil.
Paralelamente ao potencial na área da saúde, a pesquisa tem impacto direto no desenvolvimento regional. Ao demonstrar o valor biológico do própolis do Pampa, o trabalho pode contribuir para aumentar o preço do produto e gerar renda para apicultores e meliponicultores. 
Hoje, enquanto o mel é comercializado como commodity de baixo valor agregado, pontua Delgado, o própolis pode alcançar preços significativamente mais altos em mercados consolidados. A inserção do produto gaúcho nesse segmento depende, em grande parte, da validação científica de suas propriedades. “A missão da universidade é justamente essa: transformar conhecimento em desenvolvimento regional”, afirma Delgado. “Estamos trabalhando a partir de uma demanda dos produtores para criar uma nova cadeia produtiva, baseada em ciência, conclui.

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