Quatro séculos após o início das reduções jesuítico-guaranis, os vestígios dessa experiência seguem presentes no cotidiano dos municípios das Missões do Rio Grande do Sul - não apenas nas ruínas, mas em práticas culturais, hábitos e na própria configuração urbana. Em cidades como Santo Ângelo, mesmo sem estruturas preservadas como em São Miguel das Missões, blocos de pedra grês das antigas construções foram reaproveitados em casas e prédios. Um exemplo está no imóvel que abriga a loja Divinalis, próxima à Catedral Angelopolitana.
Para o historiador Eduardo Neumann, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), esses elementos são parte de uma herança mais profunda, que ainda precisa ser melhor compreendida. Ele destaca que a base da experiência missioneira está no protagonismo indígena, um aspecto que vem sendo reavaliado pela historiografia.
Neumann afirma que a interpretação tradicional, centrada nos jesuítas, vem sendo revista. “As missões são guaranis. Não há como construir uma estrutura daquelas sem uma mão de obra qualificada indígena. O diferencial foi a adesão dos indígenas, que se apropriaram do projeto”, diz.
Segundo ele, a riqueza das reduções não estava em recursos minerais, mas na capacidade produtiva organizada. Agricultura, pecuária, produção de erva-mate, algodão e até manufaturas, como ferramentas e arte sacra, formavam uma economia dinâmica. “O que produzia riqueza era o trabalho indígena”, resume.
Arquitetura das Missões Jesuíticas é característica da organização urbana da Espanha do século XVII
LIVIA ARAUJO/ESPECIAL/CIDADES
Essa autossuficiência produtiva também gerou tensões com a coroa espanhola. O guia Douglas Barbosa aponta que a capacidade de produzir internamente reduzia a dependência de centros coloniais. “Aqui se produzia de tudo. Isso levantou questionamentos das coroas sobre aquele território que não dependia mais delas tanto assim”, afirma.
As reduções funcionavam de forma integrada, com divisão de especializações e apoio mútuo. Apesar da distância geográfica, havia comunicação e articulação entre os povoados, organizados em uma lógica de defesa e produção.
Para Neumann, compreender o passado missioneiro exige romper com visões simplificadas. “A história foi contada por muito tempo como uma obra civilizatória dos jesuítas. Hoje, sabemos que houve protagonismo indígena, capacidade de autogoverno e produção complexa”, reitera.
Ele também destaca que as reduções não podem ser entendidas como isoladas ou desvinculadas do contexto regional. Ele explica que elas faziam parte do mundo espanhol e eram fundamentais na defesa de fronteiras. "O Rio Grande do Sul começa como território indígena, depois espanhol, e só posteriormente português”, explica.
Um dos contrastes apontados por Neumann está na capacidade de articulação das reduções em comparação com a realidade atual da região. Mesmo com limitações tecnológicas, havia integração econômica e social entre os povoados. Hoje, segundo ele, a falta de cooperação entre municípios é um entrave ao desenvolvimento.
Nesse sentido, a valorização das Missões passa tanto por políticas públicas quanto por uma mudança de percepção. “É preciso que a população se aproprie desse patrimônio não só como memória, mas como possibilidade de desenvolvimento”, pontua.
A necessidade de mudança nessa postura começa a ser percebida pelas lideranças locais e pelo poder público, o que proporcionou iniciativas como o Festival Viva o RS, que reuniu empreendimentos produtivos da região. O secretário de Desenvolvimento de Santo Ângelo, Vinícius Makvitz, afirma que as Missões têm de se apresentar como um produto único. “Precisamos nos conectar e oferecer um roteiro integrado ao turista”, exemplifica. Na hotelaria, a avaliação segue a mesma linha. O gerente do Parque Hotel Tenondé, Guntfried Schwarz, aponta a falta de divulgação como entrave. “Muitas pessoas do próprio Estado não conhecem a história das Missões. É uma região única, mas ainda pouco explorada”, afirma. Quatro séculos depois, o “espírito” missioneiro permanece, agora como um campo em disputa entre memória, identidade e potencial econômico.
Construção coletiva pode elevar papel do turismo na região
Os 400 anos das Missões são vistos como uma oportunidade para reposicionar a região. “A gente trata esse momento como uma virada de chave”, afirma Makvitz. Hoje, o turismo ainda representa uma parcela pequena da economia local, fortemente centrada no agronegócio, apesar do potencial histórico e cultural.
Iniciativas como o festival Viva o RS buscam estimular o consumo regional e valorizar a produção local. Para Matheus Vogel, da Wine Locals, o desafio também passa pelo público interno. “Mais pessoas de fora do Estado vêm para as Missões do que o próprio gaúcho. A ideia é fazer o gaúcho viver mais o seu Estado”, diz.
Além disso, há um esforço para qualificar a recepção ao visitante. “A cidade precisa incorporar o turismo, saber contar sua própria história. Gramado é exemplo disso”, afirma Makvitz.