Um fóssil de aproximadamente 230 milhões de anos foi identificado no município de Agudo, na região da Quarta Colônia, no centro do Rio Grande do Sul, por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). O estudo, publicado na terça-feira (14) no periódico Royal Society Open Science, descreve uma nova espécie de rincossauro, denominada Isodapedon varzealis, a partir de um crânio fóssil encontrado na região.
A descoberta resulta de pesquisas iniciadas a partir da coleta do material em 2020, e aprofundadas ao longo de estudos acadêmicos recentes, com análise detalhada da anatomia do fóssil. O trabalho integra o Plano de investigação da biodiversidade do período Triássico, fase em que os continentes ainda formavam o supercontinente Pangeia, e busca compreender a evolução de répteis herbívoros que habitaram a região.
O exemplar foi preparado no laboratório do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia (Cappa), onde passou por um processo minucioso de remoção da rocha que o envolvia. Segundo a pesquisadora Jeung Hee Schiefelbein, autora principal do estudo, o trabalho foi bastante delicado, porque o material é muito frágil, demandando o uso ferramentas específicas para conseguir expor as estruturas.
A região central do Estado é considerada uma das mais importantes do mundo para estudos do Triássico, devido à exposição de rochas antigas favorecida por processos de erosão ao longo de milhões de anos. “A geografia daqui permite que esses fósseis fiquem mais acessíveis, o que facilita as descobertas”, diz a pesquisadora.
Além disso, o estudo indica que os rincossauros tiveram alta diversidade no território brasileiro durante o Triássico, com diferentes espécies coexistindo em determinados períodos. Essa variedade pode estar relacionada à especialização alimentar entre os grupos, o que permitia a ocupação de diferentes nichos ecológicos e reforça o papel desses animais como importantes consumidores primários nos ecossistemas da época.
Além da relevância científica, o achado reforça o potencial da Quarta Colônia como polo de pesquisa e turismo. O fóssil está preservado no acervo do Cappa/UFSM e deverá integrar exposições abertas ao público. “Essas descobertas ajudam a dar visibilidade para a região e mostram a importância do trabalho científico que é feito aqui”, completa Jeung.
O Isodapedon varzealis pertence ao grupo dos rincossauros, répteis quadrúpedes e herbívoros caracterizados por um bico semelhante ao de papagaios e por dentes adaptados à trituração de vegetais. Com base no crânio, os pesquisadores estimam que o animal media entre 1,2 e 1,5 metro de comprimento, podendo chegar a até 3 metros em indivíduos maiores.
A nova espécie se diferencia por apresentar maior simetria nas placas dentárias, característica incomum entre rincossauros. Segundo Jeung, essa particularidade foi fundamental para identificar que se tratava de um organismo ainda não descrito pela ciência. “A gente percebeu que as estruturas da mandíbula tinham um padrão diferente do que já era conhecido, o que indicou uma nova espécie”, explicou Jeung Hee.