O uso de ferramentas de inteligência artificial generativa por pacientes tem alterado a dinâmica das consultas médicas e gerado debates entre profissionais da saúde. Em Pelotas, a pediatra Renata Jaccottet Freitas, que atua em pronto-atendimento, afirma que a mudança passou a ser mais perceptível no último ano.
Segundo ela, parte dos responsáveis já chega ao consultório com hipóteses diagnósticas e solicitações de exames definidas a partir de consultas a plataformas como o ChatGPT. “Hoje, com a inteligência artificial, eles já vêm com o diagnóstico praticamente definido por eles e com a solicitação de exames que o médico tem que pedir”, relata.
Renata afirma que a situação difere do que ocorria anteriormente com buscas no Google. “Antes eram informações mais vagas. Agora vêm com algo mais estruturado.” Para a médica, isso pode interferir na autonomia profissional. “Eu me sinto desconfortável quando a mãe do paciente chega exigindo exames complementares”, diz ela.
Com 40 anos de atuação na medicina, sendo 38 na pediatria, Renata foi preceptora de residência e chefe de UTI neonatal. Atualmente mantém atividade acadêmica no Hospital São Francisco de Paula, vinculado à Universidade Católica de Pelotas. Ela afirma que, diante de situações desse tipo, reforça a importância da avaliação clínica individual. “Cada paciente é um paciente. A inteligência artificial não examina, não vê as alterações no exame físico. A conduta é baseada na anamnese, no exame físico e em artigos científicos.”
A pediatra relata que utiliza ferramentas digitais para aprimorar textos e comunicação, mas não para definir diagnósticos. Para atualização científica, recorre à plataforma UpToDate, que reúne diretrizes e estudos clínicos revisados, e não é baseada em IA.
No âmbito institucional, o Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers) publicou no ano passado uma resolução sobre o tema. O conselheiro Vinícius Lain afirma que a iniciativa buscou responder a um fenômeno social já em curso. “A população está usando essas ferramentas, e o perfil do paciente que chega ao consultório mudou”, diz.
Segundo ele, as plataformas generativas fornecem respostas gerais, que nem sempre se aplicam ao caso individual. “Ela pode dar uma opinião que, na maioria das vezes, é correta, mas não é a mais adequada para aquele paciente.” Para Lain, o médico precisa estar preparado para dialogar sobre as informações trazidas pelo paciente e esclarecer por que determinado diagnóstico é mais provável que outros sugeridos pela ferramenta.
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O conselheiro também chama atenção para o uso das plataformas por médicos, especialmente no que se refere à proteção de dados. Inserir exames ou laudos com identificação do paciente em sistemas abertos pode violar a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). “A internet não é uma terra sem lei”, reforça.
No Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), o tema também é discutido entre profissionais. O diretor Marcos André dos Santos, membro do Núcleo de Ética do sindicato, avalia que a inteligência artificial cresce em ritmo acelerado e tende a impactar diferentes especialidades. Ele distingue o uso de ferramentas estruturadas, voltadas a rotinas hospitalares, do uso de versões abertas e gratuitas de plataformas generativas. “Essas versões gratuitas têm muito erro. O paciente pode confrontar o médico com uma informação que não está correta”, afirma.
Para Santos, a tecnologia deve atuar como apoio e não substituição. “Um diagnóstico feito por inteligência artificial precisa ser revisado pelo médico. Até aqui, é um auxílio ao trabalho médico.” Ele também levanta questionamentos sobre responsabilidade em casos de falhas. “Se uma inteligência artificial atuar sozinha e houver erro, quem responde?” O médico destaca que a relação médico-paciente envolve elementos que vão além da informação técnica. “Nada substitui a empatia de um ser humano com outro ser humano”, afirma.
Apesar das preocupações, há consenso entre os profissionais de que o avanço tecnológico é irreversível. Para Renata, o caminho é manter a autonomia e o diálogo. “A decisão cabe ao médico, com base na história e no exame do paciente. A tecnologia pode estar na consulta, mas não substitui a responsabilidade profissional.”