O uso de ferramentas baseadas em inteligência artificial (IA) tem avançado em hospitais de municípios do Rio Grande do Sul, com aplicações que vão da farmácia clínica ao monitoramento de pacientes internados. Em Passo Fundo, duas instituições utilizam sistemas integrados aos prontuários eletrônicos para apoiar decisões assistenciais e reduzir riscos.
No Hospital São Vicente de Paulo (HSVP), a ferramenta No Harm é empregada desde agosto de 2021 na avaliação de prescrições médicas. Desenvolvida por farmacêuticos, a tecnologia acessa o banco de dados do hospital e interpreta as informações inseridas no sistema de prescrição. A partir disso, classifica situações consideradas atípicas e atribui pontuações (scores) que indicam maior ou menor criticidade.
Segundo a farmacêutica gestora da Farmácia Clínica, Tatiana Staudt, o sistema não substitui a análise profissional. “Quem avalia somos nós”, afirma. A equipe é composta por nove farmacêuticos e analisa, em média, 1,2 mil prescrições por dia. Atualmente, cerca de 80% das prescrições são revisadas, com prioridade para pacientes de UTI - o hospital tem mais de 100 leitos de terapia intensiva dentro de um total superior a 700 leitos.
O No Harm sinaliza, por exemplo, possíveis erros de dosagem, via de administração inadequada, duplicidade terapêutica ou interações medicamentosas. Antes da adoção da ferramenta, a conferência era manual, com cruzamento de dados em diferentes bases. “Ela trouxe agilidade e segurança, porque incorpora informações que antes precisavam ser buscadas separadamente”, relata Tatiana.
De acordo com a gerente dos Serviços Farmacêuticos e Laboratoriais, Thais Gradaschi Vilasboas Letti, a ferramenta também é customizável à realidade institucional, a partir de sugestões da própria equipe. A aceitabilidade das intervenções junto ao corpo clínico é apontada como elevada: cerca de 95% das recomendações feitas pelos farmacêuticos são acatadas.
Além do impacto assistencial, o hospital estima economia aproximada de R$ 500 mil em 2025 a partir das intervenções realizadas pela equipe com apoio da IA, valor calculado com base em custos evitados ou ajustados em prescrições.
Já no Hospital de Clínicas de Passo Fundo, a ferramenta Munai é utilizada desde 2021 nos setores de internação. Integrado ao prontuário eletrônico, o sistema combina dados inseridos manualmente pelos profissionais, como sinais vitais, exames laboratoriais, tempo de internação e diagnóstico, para identificar precocemente pacientes com risco de sepse.
A enfermeira do Controle de Infecção, Bruna Tedesco, explica que o sistema analisa as últimas cinco coletas de sinais vitais, incluindo frequência cardíaca, respiratória, pressão arterial, saturação e temperatura, e emite alertas visuais em um monitor. Alertas amarelos indicam necessidade de reavaliação em até três horas; alertas vermelhos exigem acionamento da equipe médica em até uma hora.
Em 2025, o hospital registrou 4.692 alertas amarelos. Destes, 587 evoluíram para vermelho, enquanto cerca de 4,1 mil casos foram reavaliados e manejados antes de agravamento. O hospital possui mais de 300 leitos de internação, todos monitorados pelo sistema, exceto UTI e emergência, onde o acompanhamento é contínuo pela própria equipe presencial.
Antes da implantação, a identificação de sepse seguia protocolo manual, com análise caso a caso. “Agora a plataforma faz essa combinação de dados e agiliza nossa tomada de decisão”, afirma Bruna. Segundo ela, a ferramenta contribui para intervenções mais rápidas, especialmente em pacientes idosos e com comorbidades, que concentram maior risco.
As experiências em Passo Fundo refletem um movimento mais amplo de incorporação de tecnologias digitais na saúde. Nos hospitais, os sistemas operam como apoio à decisão clínica, mantendo a responsabilidade final com os profissionais. A tendência é de expansão das aplicações, com uso voltado à segurança do paciente, gestão de recursos e monitoramento de desfechos assistenciais.
Alto custo para acesso às tecnologias trava avanço das ferramentas
A incorporação de tecnologias como inteligência artificial e robótica à prática médica é um processo irreversível, mas ainda enfrenta barreiras relacionadas ao custo, principalmente no caso da cirurgia robótica. A avaliação é do médico Vinícius Lain, conselheiro do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers).
Segundo ele, a cirurgia robótica já é realidade em diversos centros do Estado, inclusive no interior, seguindo trajetória semelhante à da videolaparoscopia. Em alguns protocolos, como no tratamento de câncer de próstata, estudos já apontam superioridade técnica da abordagem robótica em relação à cirurgia tradicional, reforça o médico
Lain observa, no entanto, que se trata de tecnologia de alto custo, ainda não incorporada de forma ampla ao Sistema Único de Saúde (SUS) e nem disponível em todos os planos privados. "É uma tecnologia cara, que muitos convênios não cobrem, e o paciente acaba tendo que arcar com parte do valor", afirma.
O conselheiro destaca que os robôs oferecem maior precisão de movimentos e não sofrem fadiga, mas seguem dependentes da decisão humana. Ele menciona que centros internacionais já testam sistemas capazes de interpretar tecidos durante procedimentos, ampliando a autonomia das máquinas.
Para Lain, o próximo passo é a democratização do acesso. "A tecnologia vem por camadas e tende a ganhar espaço à medida que se torna mais disponível", diz. Na avaliação do médico, a evolução tecnológica na medicina é permanente, mas precisa ser acompanhada de políticas que garantam viabilidade financeira e equidade no acesso.