Porto Alegre,

Publicada em 24 de Fevereiro de 2026 às 18:15

Talentos do interior do RS criam tecnologias contra o câncer

O farmacêutico Otávio Castro criou a ferramenta Relaty, que auxilia pacientes oncológicos no consumo de medicamentos

O farmacêutico Otávio Castro criou a ferramenta Relaty, que auxilia pacientes oncológicos no consumo de medicamentos

Natieli Batistela/Comunicação HCPF/Divulgação/Cidades
Compartilhe:
Lívia Araújo
Lívia Araújo Repórter
Jovens pesquisadores do interior do Rio Grande do Sul estão desenvolvendo tecnologias voltadas ao diagnóstico e ao acompanhamento de pacientes com câncer, unindo formação acadêmica e aplicação prática na rede de saúde. Em Bagé e Passo Fundo, projetos conduzidos por estudantes e residentes utilizam inteligência artificial e automação para apoiar decisões médicas e ampliar o acesso a informações.
Jovens pesquisadores do interior do Rio Grande do Sul estão desenvolvendo tecnologias voltadas ao diagnóstico e ao acompanhamento de pacientes com câncer, unindo formação acadêmica e aplicação prática na rede de saúde. Em Bagé e Passo Fundo, projetos conduzidos por estudantes e residentes utilizam inteligência artificial e automação para apoiar decisões médicas e ampliar o acesso a informações.
No campus de Bagé da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), a estudante de Engenharia de Computação Eduarda Menezes da Silveira, 26 anos, desenvolveu como Trabalho de Conclusão de Curso um modelo de inteligência artificial capaz de analisar imagens dermatoscópicas e apoiar o diagnóstico de câncer de pele. O projeto foi orientado pelo professor Sandro Camargo e teve os resultados publicados na Revista Brasileira de Cancerologia, periódico científico vinculado ao Instituto Nacional de Câncer (Inca).
O sistema utiliza redes neurais profundas treinadas com milhares de imagens previamente classificadas e confirmadas por biópsia. A base de dados pública, de origem internacional, reúne imagens de diferentes tipos de lesões cutâneas, como melanoma, carcinoma basocelular e espinocelular. A partir do treinamento, o modelo aprende a reconhecer padrões relacionados a cor, forma e estrutura das lesões.
Segundo Eduarda, o modelo alcançou uma precisão de 80,44%, identificando corretamente oito em cada dez imagens analisadas. A validação foi feita em duas etapas: uma interna, com divisão das imagens entre treino e teste, e outra externa, com 58 imagens inéditas obtidas em ambiente clínico real. “A ideia é que a ferramenta atue como apoio à triagem, especialmente em locais com menos acesso a dermatologistas”, afirma.
Precisão da ferramenta para diagnóstico foi superior a 80% | Unipampa/Divulgação/Cidades
Precisão da ferramenta para diagnóstico foi superior a 80% Unipampa/Divulgação/Cidades
Uma das limitações identificadas é a baixa diversidade étnica da base de dados, composta majoritariamente por imagens de pessoas de pele branca. Como próximo passo, a pesquisadora pretende ampliar o banco de dados para incluir diferentes tons de pele e integrar informações clínicas do paciente ao sistema. O grupo estuda a inscrição do projeto no edital federal Laboratório Inova SUS Digital, com o objetivo de aprimorar a atuação da ferramenta e viabilizar a aplicação prática na rede pública de saúde.
Em Passo Fundo, no Hospital de Clínicas, outra iniciativa surgiu da rotina assistencial. O farmacêutico Otávio Castro, 31 anos, residente em Oncologia na instituição, desenvolveu uma plataforma de automação para acompanhar pacientes em tratamento quimioterápico. A ferramenta, chamada Relaty, funciona como um assistente virtual acessado por QR Code impresso na embalagem do medicamento.
A plataforma oferece orientações sobre o uso correto dos medicamentos, armazenamento, possíveis reações adversas e interações medicamentosas. Também permite que o paciente registre sintomas como náuseas, vômitos ou dor de cabeça, enviando as informações diretamente à equipe farmacêutica. “Antes, entregávamos orientações em papel, que muitas vezes se perdiam. Agora temos um canal direto com o paciente”, explica.
Atualmente, cerca de 600 pacientes oncológicos são atendidos mensalmente pelo hospital, e a plataforma já contabiliza mais de 700 acessos. O sistema começou como automação com fluxos pré-programados, mas deve evoluir para incorporar inteligência artificial capaz de responder de forma personalizada às dúvidas dos usuários. A previsão é que a nova versão entre em operação nos próximos meses, com investimento inicial estimado em R$ 20 mil, por meio de investidores e incubação vinculada à Universidade de Passo Fundo (UPF). A decisão de transformar a Relaty em uma startup, conta Otávio, veio do fato de que a divulgação espontânea da ferramenta provocou uma avalanche de pedidos de informação de hospitais e instituições de diversas partes do Brasil.
Segundo o residente, o acompanhamento remoto pode contribuir para reduzir reinternações evitáveis e melhorar a adesão ao tratamento, ao permitir a identificação precoce de reações adversas. Os dados coletados também subsidiam estudos acadêmicos e ajustes nas orientações fornecidas.
As duas iniciativas ilustram como universidades e hospitais do interior gaúcho vêm incorporando tecnologia ao enfrentamento do câncer. Em comum, os projetos mantêm a lógica de apoio à decisão clínica, sem substituir a avaliação médica. A expectativa dos desenvolvedores é ampliar parcerias institucionais e transformar as pesquisas em ferramentas disponíveis para a rede pública de saúde.

Notícias relacionadas