Dezenas de milhares de pessoas marcharam em cidades de toda a França nesta terça-feira (6) em apoio a protestos de estudantes do ensino médio que exigem mais recursos para a educação, ampliando a pressão sobre o governo do presidente Emmanuel Macron, em fim de mandato.
Com alunos voltando a bloquear liceus, grandes multidões com bandeiras e cartazes se reuniram em Marselha, Estrasburgo e outras cidades. As manifestações mostram como protestos iniciados em uma escola na região de Paris, em meados de setembro, ganharam escala e se converteram em um movimento nacional, o mais recente de uma série que marcou os quase dez anos de Macron no poder.
"A única resposta que receberam até agora foi repressão", afirmou Sigrid Gerardin, professora de um liceu em Paris. O Ministério do Interior estimou que 86 mil pessoas participaram de atos fora da capital na manhã desta terça-feira, enquanto mais manifestantes se concentravam em Paris para um protesto previsto para a tarde.
Mais de duas semanas de boicote às aulas e bloqueios de escolas, somadas a uma resposta policial que resultou em mais de 6.100 detenções - a maioria de menores -, viraram um foco de tensão no início da campanha presidencial. Felix Barney, estudante universitário, classificou a atuação policial como desproporcional. "Não faz sentido bater em menores", disse.
Os protestos de adolescentes ganharam força em meio a um descontentamento mais amplo no país. As queixas vão de dificuldades imediatas, como os preços dos combustíveis, que dispararam com a guerra no Irã, a preocupações estruturais sobre limites ao gasto público, aumento da pobreza e desigualdade de renda e riqueza sob Macron, que não pode disputar um terceiro mandato consecutivo. Nesse contexto, a avaliação de que a falta de recursos na educação ameaça o futuro dos jovens tem encontrado receptividade. Em uma escola de Paris, um cartaz manuscrito preso a uma grade dizia: "Vocês dizem 'os jovens são o futuro', então ouçam-nos".
No liceu Hélène Boucher, no 20º distrito de Paris, manifestantes usaram latas de lixo e bicicletas para erguer uma barricada improvisada. Como em centenas de casos pelo país, a escola foi fechada. As autoridades começaram a suspender atividades em colégios na semana passada, numa tentativa de arrefecer as manifestações após episódios de depredação e o aumento de feridos entre funcionários, estudantes e policiais. Segundo o Ministério da Educação, as aulas foram total ou parcialmente suspensas nesta terça-feira em 891 escolas.
Diante de acusações de que estaria ignorando os manifestantes, o ministério lançou um portal online para que estudantes relatem, de forma anônima, as dificuldades enfrentadas nas escolas e as mudanças que gostariam de ver.
O ministro do Interior, Laurent Nunez, defendeu os métodos policiais usados contra estudantes, apesar do número crescente de ferimentos graves atribuídos a armas de controle de distúrbios. O caso mais recente citado foi o de um adolescente de 15 anos que perdeu uma mão na segunda-feira em um incidente envolvendo uma granada de efeito moral. Nunez afirmou que a resposta foi proporcional em "quase todos os casos". Ele disse ainda que, em alguns momentos, os protestos se transformaram em tumultos, exigindo intervenção, e que 715 policiais ficaram feridos.
Em Paris, pais e outros adultos se posicionaram entre manifestantes e policiais. "Eles são nossos filhos. Professores, pais, federações, todos compartilhamos o mesmo objetivo: proteger os direitos das crianças, e é um direito legítimo protestar e fazer reivindicações", disse Emilia Sichili Suriam, integrante de uma associação de pais.
Os manifestantes citam uma série de problemas, com destaque para a falta de recursos e oportunidades em escolas de áreas mais pobres, apesar do lema nacional francês, "Liberdade, Igualdade, Fraternidade". Estudantes têm chamado atenção para salas deterioradas, sem itens básicos como carteiras e cadeiras, que ficam sufocantes no verão por falta de ar-condicionado e, em alguns casos, com infestação de ratos. Outras reclamações frequentes incluem falta de pessoal e uma carga de trabalho considerada exaustiva, já que o número de horas obrigatórias em sala de aula no ensino médio francês está entre os mais altos da Europa.