Várias cidades da França foram tomadas por manifestantes na terça-feira (28), em mais uma demonstração de contrariedade a reforma da Previdência. A presença cada vez maior de estudantes tem chamado a atenção. Embora os protestos e as greves sejam em razão da polêmica reforma aprovada por decreto pelo presidente Emmanuel Macron, os estudantes têm se mobilizado cada vez mais conforme a repressão policial aumenta. No fim da tarde, ocorreram confrontos violentos principalmente nas cidades de Nantes, Lyon, Lille e Paris.
Segundo um relatório do serviço de inteligência da França publicado pelo jornal Le Figaro, incidentes de violência policial contra manifestantes, como os que ocorreram nos últimos protestos em Paris, podem ser extremamente mobilizadores entre os jovens e poderiam provocar a raiva. Com isso, as autoridades se prepararam para um número até três vezes maior de jovens nas ruas.
"Todos nós conhecemos alguém que foi espancado ou esteve sob custódia da polícia", disse Lou Boudet Marin, de 21 anos, que compareceu ao protesto com dois amigos. "Tenho a sensação de que até pessoas que não eram necessariamente contra a mudança na aposentadoria estão começando a participar do movimento", concorda sua amiga Nora Melot, de 20 anos.
ONGs denunciam “uso desproporcional da força” em protestos na França
Organizações internacionais denunciam o uso da força policial contra manifestantes. "Há um uso desproporcional da força que já havíamos denunciado durante os coletes amarelos", disse Jean-Claude Samouiller, da ONG Anistia Internacional, lembrando o protesto social em 2018 e 2019.
Os manifestantes começaram a se dispersar no início da noite. Não havia um número oficial de estudantes presentes, mas imagens e relatos na imprensa francesa indicavam que, de fato, havia muitos jovens na marcha. "A reforma afeta nosso futuro, e nós seremos os adultos de amanhã. Temos de agir agora", disse Alice, uma estudante de 16 anos.
Os jovens estavam desde janeiro como coadjuvantes nas manifestações contra a impopular reforma da Previdência de Macron, mas sua crescente presença nas últimas semanas preocupa as autoridades. Em 2006, sua mobilização junto aos sindicatos conseguiu que o então presidente conservador, Jaques Chirac, recuasse em seu polêmico Contrato do Primeiro Emprego.
Bloqueios em escolas francesas mostram crescente mobilização de estudantes
Na paralisação de quinta-feira (23), cerca de 150 colégios registraram bloqueios e tentativas de bloqueio em toda a França, segundo o Ministério da Educação. Nesta terça, as autoridades registraram 53 incidentes em estabelecimentos escolares. O governo está muito atento à presença dos jovens nas manifestações, disse o porta-voz Olivier Véran.
Nicolas, um estudante de 22 anos, disse que o motivo para ele ter ido às ruas foi a decisão de Macron, no dia em 16, de adotar sua reforma por decreto. A medida levou à radicalização dos protestos, que ficaram cada vez mais violentos.
As manifestações de terça contaram com a participação de 750 mil pessoas em várias cidades da França, segundo as autoridades, e 2 milhões, de acordo com os sindicatos. As ações, juntamente com greves que fecharam ferrovias e escolas, aumentam a pressão sobre Macron para resolver o impasse com os sindicatos sobre seu plano de elevar a idade para aposentadoria.
Sindicato propõe mediação para crise
No centro de Paris, os manifestantes bloquearam estradas e invadiram os trilhos de uma estação de trem. Enquanto os protestos continuavam pacíficos em grande parte da capital, porém, imagens ao vivo da agência Reuters mostravam a polícia atacando os manifestantes em meio a nuvens de gás lacrimogêneo. Nas cidades de Nantes e Rennes, alguns manifestantes atearam fogo a carros, móveis e latas de lixo. Ao menos 35 pessoas foram presas na capital, segundo a polícia.
O líder de um dos principais sindicatos por trás dos protestos propôs um processo de mediação para encontrar uma saída para a crise, pedindo uma pausa nos planos de aumentar a idade de aposentadoria enquanto isso. Mas o governo rejeitou a ideia, com o porta-voz dizendo que a mediação não era necessária.
Um novo dia de mobilização está previsto pelos sindicatos para esta quinta-feira, segundo o Le Figaro, poucos dias antes da decisão final do Conselho Constitucional sobre a reforma.
Um novo dia de mobilização está previsto pelos sindicatos para esta quinta-feira, segundo o Le Figaro, poucos dias antes da decisão final do Conselho Constitucional sobre a reforma.


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