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Publicada em 23 de Novembro de 2025 às 18:57

Ospa celebra 75 anos em concerto com referências culturais e históricas

Espetáculo foi regido pelo maestro Manfredo Schmiedt e buscou valorizar a diversidade cultural

Espetáculo foi regido pelo maestro Manfredo Schmiedt e buscou valorizar a diversidade cultural

EVANDRO OLIVEIRA/JC
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Ana Stobbe
Ana Stobbe Repórter
A Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa) celebrou seus 75 anos com dois concertos comemorativos realizados neste sábado (22) e domingo (23) na Sala Sinfônica do Complexo Cultural Casa da Ospa. O repertório, liderado pelo maestro e diretor artístico Manfredo Schmiedt, fez referências à história e à cultura do Rio Grande do Sul e do Brasil.
A Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (Ospa) celebrou seus 75 anos com dois concertos comemorativos realizados neste sábado (22) e domingo (23) na Sala Sinfônica do Complexo Cultural Casa da Ospa. O repertório, liderado pelo maestro e diretor artístico Manfredo Schmiedt, fez referências à história e à cultura do Rio Grande do Sul e do Brasil.
Conforme explica o maestro, o repertório obedeceu a três requisitos: uma obra de um compositor gaúcho, uma obra escrita por uma mulher e valorizar instrumentos que, por vezes, ficam esquecidos nos concertos. “Muitas vezes a gente tem violinos, violoncelos, piano, como os grandes solistas do concerto. E dessa vez eu pensei, vamos oportunizar o público de escutar uma peça que foi composta para percussão, que não é tão usual”, pontua Schmiedt.
Assim, o espetáculo iniciou com “Raízes – Concerto para Quarteto de Percussão e Orquestra”, uma obra que foi composta por Clarice Assad para um consórcio formado pelas orquestras Filarmônica de Goiás, Filarmônica de Minas Gerais e Sinfônica Brasileira. A interpretação ficou a cargo do grupo de percussão Martelo, que interagiu com a plateia, a fazendo participar do show que contou com clássicos da cultura brasileira, como a cantiga Ciranda Cirandinha e a canção Peixinhos do Mar, de Milton Nascimento. Essa foi a primeira vez que um grupo de percussão foi solista na Ospa.
Na sequência, foi a vez da execução de “A Salamanca do Jarau", um bailado composto por Luiz Cosme em 1935 e que se inspira em um conto gauchesco homônimo publicado em 1913 pelo pelotense João Simões Lopes Neto no livro Lendas do Sul. “Não existe nenhum excelente registro dessa peça em áudio ou vídeo, então fizemos, na semana passada, a gravação desta peça para lançar em janeiro como um presente à comunidade”, acrescenta o maestro.
A apresentação finalizou com mais um bailado: “Maracatu de Chico-Rei”, de Francisco Mignone, composto em 1933 e que aborda uma lenda mineira sobre um rei africano que foi trazido ao Brasil como escravo, mas que conseguiu comprar sua alforria, a de seu filho e de muitos outros escravizados, assim como o maracatu, que é uma manifestação cultural afro-brasileira. Sua escolha se deu pela relação com o mês da Consciência Negra, celebrado em novembro.
Pela primeira vez, um grupo de percussão foi solista na Ospa | EVANDRO OLIVEIRA/JC
Pela primeira vez, um grupo de percussão foi solista na Ospa EVANDRO OLIVEIRA/JC
“Tem toda essa questão da religiosidade do povo negro e a batalha deles em poderem construir um espaço próprio para celebrar as suas festividades religiosas. É um conceito que tem essa brasilidade e, ao mesmo tempo, prega a diversidade e oportuniza as pessoas a terem diversas sensações”, conclui Schmiedt.
Antes da apresentação iniciar, o presidente da Ospa, Gilberto Schwartsmann, participou por um vídeo gravado dentro de um aeroporto desejando um bom espetáculo ao público e celebrando o aniversário da orquestra. Ele não pôde estar presente devido ao cancelamento do seu voo no Rio de Janeiro.

Do passado ao presente: diferentes gerações acompanham a Ospa

Ex-presidente da Ospa, Luiz Osvaldo Leite, de 93 anos, esteve no primeiro conserto da orquestra, em 1950 | EVANDRO OLIVEIRA/JC
Ex-presidente da Ospa, Luiz Osvaldo Leite, de 93 anos, esteve no primeiro conserto da orquestra, em 1950 EVANDRO OLIVEIRA/JC
Em 23 de março de 1950, no Theatro São Pedro, a Ospa realizou sua primeira apresentação. Na ocasião, estava o ex-presidente da orquestra: Luiz Osvaldo Leite. Aos 93 anos, ele acompanhou o concerto alusivo aos 75 anos diretamente do camarote.
“Eu era um jovem e estava praticamente terminando o segundo grau na época. Assisti esse concerto com muita alegria. A Ospa, na época, era menor. Hoje, tem mais de 100 músicos. Mas com essa orquestra ela avançou os anos e tocou o grande repertório clássico do mundo inteiro”, relembra Leite.
De lá para cá, algumas coisas mudaram. Para ele, o principal foi o repertório que, em suas palavras, sempre cresceu. “A Ospa também se tornou um centro para atrair músicos e teve músicos de fora, com um grande contingente de uruguaios e argentinos. Eles se aposentavam lá e vinham trabalhar aqui”, acrescenta.
A renovação de repertório e a atração de jovens talentos é o que faz a orquestra perdurar, segundo Schmiedt. Conforme o maestro, a Ospa sempre busca trazer estilos de músicas diferentes nas suas apresentações semanais e instrumentos inusitados — como a gaita de fole que participou de um concerto recente — além disso, se destaca pela Orquestra Jovem.
Uma das coristas que se apresentou, aliás, foi a estudante de música Cathy Nied, de 24 anos, que estava acompanhada do profissional de educação física Lucas, de 26. “É uma instituição muito grande e é a realização de um sonho estar fazendo parte disso. São 75 anos de história, fazendo música, cultura e arte dentro do nosso Estado”, comemora a cantora. Para ela, o público interessado por música tem se renovado e atraído jovens.
Para Leite, é justamente a plateia que mantém a instituição perene. “O amor do porto-alegrense pela música é o que faz com que uma orquestra como a Ospa permaneça. Foram muitas dificuldades para que se mantivesse. Financeiras, de repertório e outras circunstâncias. Mas a Ospa resistiu e está firme nos 75 anos. E, certamente, chegará aos 100”, considerou.
O público fiel estava presente, como Ruth Maria Bezerra de Vasconcellos, de 80 anos, que afirma ir com frequência aos concertos há pelo menos 50 anos. “Nem sei dizer o que mudou nesse tempo, porque a orquestra está sempre tão boa e tão maravilhosa, que acho que está cada vez melhor”, pontua.
Quanto à relevância da instituição neste período, basta recorrer ao clássico escritor Erico Verissimo, citado por Ruth e Leite. “Ele passou muito tempo nos Estados Unidos, e quando ia falar que era de Porto Alegre, dizia que era uma cidade que tinha orquestra sinfônica, porque isso mostra o nível cultural de Porto Alegre. Não é qualquer cidade que tem uma orquestra”, conta o ex-presidente da Ospa.

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