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Publicada em 21 de Novembro de 2025 às 19:35

Dopinho pode integrar rede de locais de memória em Porto Alegre

Casa onde funcionou o Dopinho, centro clandestino de tortura da Ditadura Militar, está à venda

Casa onde funcionou o Dopinho, centro clandestino de tortura da Ditadura Militar, está à venda

ANDRESSA PUFAL/JC
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Ana Stobbe
Ana Stobbe Repórter
O relógio se aproximava das 17h quando dois moradores da Ilha das Flores observaram uma cena traumatizante no Lago Guaíba, no dia 24 de agosto de 1966. Boiando entre taquareiras estava o corpo de um homem que possuía as suas mãos amarradas e evidentes marcas de tortura. O caso chocou a população de Porto Alegre, rendendo a abertura de quatro investigações. Nenhuma delas levou ao julgamento e à prisão dos responsáveis pelo crime.
O relógio se aproximava das 17h quando dois moradores da Ilha das Flores observaram uma cena traumatizante no Lago Guaíba, no dia 24 de agosto de 1966. Boiando entre taquareiras estava o corpo de um homem que possuía as suas mãos amarradas e evidentes marcas de tortura. O caso chocou a população de Porto Alegre, rendendo a abertura de quatro investigações. Nenhuma delas levou ao julgamento e à prisão dos responsáveis pelo crime.
O homem encontrado morto era o sargento Manoel Raimundo Soares, que havia sido preso em 11 de março de 1966 à frente do auditório Araújo Vianna. Ele fora acusado de subversão pela entrega de panfletos no local e detido por dois militares à paisana, sendo levado ao quartel do Exército. Depois, foi encaminhado ao Departamento de Ordem Política e Social do Rio Grande do Sul (Dops-RS).
O local, popularmente conhecido como “Dopinho” ou, ainda, “Dopinha”, foi o primeiro centro clandestino de tortura da Ditadura Militar no Brasil. Hoje, abriga uma residência particular e já foi alvo de polêmica ao ser anunciado na plataforma Airbnb como hospedagem. À sua frente, uma placa relembra para o que ele foi destinado no período ditatorial. E foi ali que Manoel Raimundo Soares e outros presos políticos foram torturados e, em muitos casos, mortos.
Placa colocada em frente ao Dopinho rememora a memória do período ditatorial | Maria Em?lia Portella/SMDS PMPA/JC
Placa colocada em frente ao Dopinho rememora a memória do período ditatorial Maria Em?lia Portella/SMDS PMPA/JC
Em 2025, essa história ganhou um novo capítulo: a casa, localizada no número 600 da rua Santo Antônio, no Bairro Bom Fim, foi colocada à venda. E os projetos para transformá-la em um Centro de Memória da Ditadura Militar foram retomados. O processo está sendo articulado pelo Instituto Sig - Psicanálise & Política junto a diversas entidades.
A discussão iniciou em 2011. Foram feitas solicitações de tombamento do imóvel e até a sua desapropriação. Mas nada andou. Agora, com a propriedade à venda, era possível pensar em outras soluções. Por isso, o Sig organizou um manifesto público, assinado por 32 entidades e um abaixo-assinado que conta com mais de 1,3 mil assinaturas até o momento. Uma audiência pública também foi realizada em 6 de outubro na Assembleia Legislativa para debater o tema. E a expectativa do Sig é que o processo possa, finalmente, avançar.
“Quando a gente ressignifica um local e trabalha a memória, fazemos com que a história possa ser fonte de aprendizado. Para isso, precisamos resgatar a questão da violência de Estado, o que não envolve só a Ditadura Militar. Há uma negação dos fatos e houve muito controle dos documentos e informações do que passou. É um processo de resgatar esse local para que ele seja um irradiador de políticas de direitos humanos, que é exatamente o que foi violado no processo ditatorial”, avalia a psicanalista e membro do Sig Maria Luiza Castilhos.

Local pode se somar a outros pontos de memória

Casa Diógenes, na Cidade Baixa, possui um mural que relembra a trajetória do guerrilheiro Diógenes Oliveira | Guilherme de Oliveira/Divulgação/JC
Casa Diógenes, na Cidade Baixa, possui um mural que relembra a trajetória do guerrilheiro Diógenes Oliveira Guilherme de Oliveira/Divulgação/JC
Caso o processo de transformação do Dopinho em centro de memória seja, de fato, concretizado, ele se somará a outros locais que discutem a memória do período ditatorial em Porto Alegre. É o que avalia o jornalista Guilherme Oliveira, que fundou em 2023 a Casa Diógenes, na Cidade Baixa, com esse objetivo. A residência era pertencente ao seu pai Diógenes de Oliveira, um dos membros-fundadores da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), grupo de resistência armada que atuou entre 1966 e 1971 contra a Ditadura Militar no Brasil, e que faleceu em outubro de 2022.
“A ideia da casa é tirar essas pessoas (que lutaram contra a ditadura) desses lugares comuns de terrorista, vítima ou militarista. E, a partir disso, fazer um debate mais afinado, mostrando que eram mais do que isso, que sobreviveram e fizeram coisas importantes”, explica Oliveira.
O local funciona como um centro de memória e também como uma plataforma de debates políticos. “Não é como se fosse um museu, mas uma forma de manter vivos esses encontros também, debatendo política com mais fraternidade e olho no olho, sem ser aquela formação de alguém no palanque e alguém sentado escutando. A casa não está aberta só para falar sobre luta armada e contra a ditadura, mas para manter viva uma forma diferente de fazer política”, acrescenta Oliveira.
Casa Diógenes também recebe público para eventos políticos e culturais | Matheus Piccini/Casa Diógenes/Divulgação/JC
Casa Diógenes também recebe público para eventos políticos e culturais Matheus Piccini/Casa Diógenes/Divulgação/JC
A isso, se somam ações culturais: “Sempre tem gente nos procurando para fazer reunião ali. O pessoal das fanfarras, que toca música na rua, quando chove, pede para ensaiar lá em casa. E isso também é uma forma de memória. E é o jeito que meu pai fazia política. Ele ficou 20 anos exilado e tinha essa ideia da casa ser um refúgio e um abrigo”, comenta o filho do guerrilheiro. Conforme ele, Diógenes era conhecido pela realização de tertúlias tradicionalistas.
As mais recentes novidades da casa foram a criação de uma associação de amigos que apoiam financeiramente o centro de memória, assim como uma parceria com a Associação Cultural José Martí. O local também recebe semestralmente estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) para a realização de um projeto de extensão voltado à educação patrimonial e de estágios curriculares da licenciatura.

Centros de Memória avançam no Brasil

Um dos pontos que motivou a retomada da iniciativa de transformar o Dopinho em centro de memória — além do fato da casa ter sido colocada à venda — foi um contexto nacional, em que a construção de centros de memória tem avançado. Entre eles, o que mais impactou na decisão do Sig, conforme Maria Luiza, foi a transferência da Casa da Morte para Prefeitura de Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro, em um processo que ela considera semelhante ao da residência em Porto Alegre.
O local foi usado como centro clandestino de torturas e assassinatos durante a Ditadura Militar, assim como o Dopinho, e a decisão foi do ponto de vista judicial. Além disso, foi assinado um convênio com o governo federal para que a Casa da Morte fosse transformada em um memorial, com o repasse de R$ 1,4 milhão ao município. A gestão será compartilhada com a Universidade Federal Fluminense (UFF).
No caso porto-alegrense, o Sig também tem discutido possibilidades com a Ufrgs. A universidade, inclusive, formou a Comissão da Memória e da Verdade Enrique Serra Padrós em dezembro de 2024. A iniciativa busca investigar as ações ditatoriais no contexto universitário, como as perseguições e os expurgos sofridos por professores, trabalhadores e estudantes no período.
Outro processo que avança é em Salvador, na Bahia, onde a casa em que residiu o guerrilheiro Carlos Marighella será transformada em um instituto. O espaço abrigará atividades culturais e iniciativas de formação política. Além disso, a casa será recuperada e um anexo a ser construído abrigará um acervo que ficará aberto a pesquisadores e à visitação do público.

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