A escolha do novo Papa, após a morte de Francisco, marcou profundamente o arcebispo de Porto Alegre, Dom Jaime Cardeal Spengler. Participante do conclave que elegeu Leão XIV, ele descreve o processo como uma vivência marcada pelo silêncio, pela oração e pelo respeito às diferenças dentro do colégio cardinalício — uma experiência "eclesial muito bonita", que, segundo ele, ficará para sempre na memória.
Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, o líder do catolicismo no Rio Grande do Sul reflete sobre o momento histórico vivido pela Igreja, sua nova missão no Vaticano como membro do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e o papel da fé diante de crises como a tragédia climática que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024. Além disso, deu sua visão sobre o decréscimo no número de católicos no Brasil nos últimos anos.
Jornal do Comércio - Como foi para o senhor viver aqueles dias do conclave?
Dom Jaime Cardeal Spengler - Foi uma experiência de fé e de comunhão eclesial muito bonita. Vai ficar na memória para o resto da vida. Foi marcado por oração, silêncio e respeito às diferenças que compõem o colégio cardinalício. Ao longo de dois dias, sob inspiração de Deus, escolhemos um sucessor para Pedro. Na quarta votação, o cardeal Prevost alcançou os dois terços necessários. E foi possível observar sua emoção à medida que os votos convergiam para seu nome — ele parecia "murchar", no bom sentido, sentindo o peso da escolha. Quando a votação foi concluída, a sala explodiu em aplausos. Depois, perguntaram se ele aceitava a eleição. Ele disse que sim, e anunciou que escolheria o nome de Leão — "Leone", em italiano.
JC - O resultado rápido indica unidade dentro da Igreja Católica?
Spengler - Acho que sim. A rapidez reflete a maturação feita nas congregações gerais, quando cada cardeal pôde manifestar o que espera da Igreja e compartilhar os desafios de suas realidades. Isso não apontava um nome, mas um perfil. Prevost não era o mais cotado na imprensa, mas seu nome foi crescendo ali dentro. Acredito piamente que quem conduz a Igreja é o Espírito de Deus, e foi Ele quem nos conduziu a essa escolha.
JC - Houve disputas ou articulações?
Spengler - Não presenciei nada disso. Diferente de uma eleição civil, com campanhas e influências externas, o conclave é protegido: sem telefone, internet, rádio, televisão. É um espaço litúrgico. Inclusive, usamos batina vermelha para marcar esse caráter. Foi um processo sereno e respeitoso.
JC - Algum momento marcou especialmente o senhor?
Spengler - Eu cito três. O primeiro foi a entrada na Capela Sistina, cantando a Ladainha de Todos os Santos — 133 homens, diante do Juízo Final pintado por Michelangelo. Arrepiante. O segundo, o abraço após a eleição. Eu brinquei: "Santo Padre, perdemos o nosso pregador, mas ganhamos o Papa", já que ele viria ao Brasil para pregar nosso retiro. Ele riu. O terceiro foi na celebração de início do ministério, quando fui chamado para saudá-lo. Eu não esperava. Foi bonito. E, ainda sobre o Papa Francisco, nas exéquias, ouvir moradores de rua dizerem "ele cuidava de nós" foi muito marcante. Isso mostra a proximidade que ele cultivava.
JC - Há mais continuidade ou rupturas entre Francisco e Leão XIV?
Spengler - A Igreja não vive de rupturas, mas de continuidade. Já vimos isso em temas como o cuidado com a casa comum, que Francisco impulsionou e Leão também priorizou. Ele já presidiu uma celebração com essa temática. Há também continuidade no itinerário do último Sínodo dos Bispos, com ações previstas até 2028, já confirmadas por ele. Claro, há estilos diferentes — Francisco apareceu na sacada de forma mais despojada, Leão, com trajes tradicionais, por exemplo — mas isso não representa ruptura, e sim personalidades diferentes.
JC - Qual é o maior legado do Papa Francisco, na sua visão?
Spengler - Ele assumiu a Igreja num momento de crise, enfrentando os escândalos de abusos e depois teve a pandemia da Covid-19. Mesmo assim, criou orientações firmes e também renovou o vocabulário cotidiano das comunidades: "construir pontes", "cuidar da casa comum", "a santidade da porta ao lado", "todos, todos, todos são chamados". Isso ficará como herança viva, no cotidiano.
JC - Recentemente o senhor foi nomeado para o Dicastério da Vida Consagrada. O que isso representa?
Spengler - Esse dicastério trata da vida religiosa no mundo todo. O conselho se reúne, estuda e aprofunda temas relevantes, emitindo orientações e documentos. Também recebemos consultas, que respondemos com pareceres. Há uma plenária anual, em Roma, com duração de alguns dias.
JC - Isso aumenta a frequência de viagens? Há impactos no seu trabalho aqui em Porto Alegre?
Spengler - Demais! Em junho, por exemplo, fui três vezes a Roma. Além dos dicastérios, integro a presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e o Conselho Episcopal Latino-Americano. Também fui chamado para reuniões sobre a COP 30, que será em Belém. A Igreja tem muito o que dizer sobre mudanças climáticas, aliás.
JC - Aproveitando o gancho, como a Igreja atuou durante a tragédia no RS em 2024?
Spengler - Acredito que nunca vivemos uma onda de solidariedade tão grande. E a Igreja teve papel fundamental nesse sentido, recebendo e distribuímos roupas, móveis, eletrodomésticos e dinheiro. Mas também vimos o pior de alguns: saques, desvios, roubos. Isso mostra como cada geração precisa promover o bem comum. A solidariedade deve ser cultivada e ir sempre à diante.
JC - Como o senhor vê a Igreja Católica no Brasil hoje?
Spengler - A Igreja ainda goza de grande respeitabilidade, estando ao lado das Forças Armadas nesse quesito, segundo pesquisas. Ela teve papel central no processo de evangelização, na consolidação territorial e na redemocratização do País. Atualmente, está presente com força na saúde, assistência social e educação. Só em Porto Alegre são mais de 50 escolas católicas. Se a Igreja abandonasse esses setores, o Estado teria dificuldades para suprir.
JC - E no cenário global?
Spengler - O Brasil tem o maior episcopado do mundo: 494 bispos. Também temos a maior população católica do planeta. A Igreja brasileira é vista com respeito e grande importância.
JC - Mas o número de católicos tem caído: no Estado, o decréscimo foi de 15% desde o início do século. A que o senhor atribui isso?
Spengler - Isso reflete mudanças na sociedade. A Igreja não busca adeptos, mas discípulos. No passado, era comum ser católico por tradição. Hoje, a pluralidade exige linguagem nova e processos de iniciação sólidos. Talvez tenhamos que ser, de novo, o "pequeno rebanho". A fidelidade ao Evangelho é o essencial e o nível da fé importa muito mais do que o número de fiéis.
JC - Lançando um olhar para o futuro: o senhor tem o sonho de ser Papa?
Spengler - Não, isso não se sonha. Meu sonho era ser frade menor. Fui operário por cinco, seis anos, depois segui a vida franciscana. Queria trabalhar numa comunidade pequena. Mas dei meu "sim", e com ele, aceito o que vier. Ainda assim, não me vejo como Papa. Jamais imaginei isso.