A pandemia da Covid-19, além do isolamento social da população e da morte de cerca de 687 mil pessoas no Brasil, trouxe uma outra preocupação: a saúde ocular de crianças e adultos. Um dos efeitos da pandemia é mostrado em uma pesquisa realizada em dois momentos: 2019 e 2021, respectivamente, nos meses de setembro e outubro. O estudo mostra que a cada década há um aumento de 10% na quantidade de crianças que se tornam míopes. O levantamento feito em Porto Alegre selecionou 330 estudantes de escolas municipais designadas pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul. O trabalho foi chamado de Prevalência da Miopia no Sul do Brasil.
O estudo, realizado com alunos entre 5 a 20 anos, constatou que 17,4% das crianças eram míopes. Além disso, 15,2% eram portadores de baixas miopias, entre -0,50 e -5,75 dioptrias, e 2,1% são altos míopes - a partir de -6,00 dp. “Temos percebido que muitas crianças na faixa de 6 a 7 anos estão pré-míopes, ou seja, têm graus de +0,75 a -0,25, e provavelmente serão adolescentes míopes”, destacou a autora da pesquisa e integrante da Sociedade de Oftalmologia do Rio Grande do Sul (Sorigs), Patrícia Ioschpe Gus. "A pandemia pode ter acelerado ainda mais, esta é a impressão dos oftalmologistas em seus consultórios, mas não temos dados científicos a respeito para apresentar. As taxas de miopia parecem vir aumentando em 10% a cada década, o que é um dado impactante para a saúde pública", ressaltou.
A miopia é uma condição que aumenta o risco de perda visual por patologias oculares associadas como catarata, glaucoma, descolamento de retina e maculopatia miópica. Ela não tem cura, mas sua progressão acelerada pode ser retardada com o tratamento adequado. A principal característica da miopia é a visão embaçada para longe. Os sinais iniciais nas crianças e adolescentes podem se apresentar de diversas formas como, por exemplo, dificuldades para copiar no quadro na escola, se aproximar da televisão para enxergar ou apertar os olhos para focar em algo que está longe.
O presidente da Sorigs, Marcos Brunstein, destacou que o avanço da miopia pode ter relação ao excesso do uso de telas pelos jovens. "A nossa recomendação é que haja uma moderação no uso, no que diz respeito às telas para uso recreativo”, acrescentou. Segundo Brunstein, o uso de telas dos aparelhos eletrônicos aumentou bastante o número de crianças com miopia precoce. Nos adultos, segundo o médico oftalmologista, ocorre um cansaço visual, estafa, borramento e olho seco em função do excesso de utilização de telas. "A pandemia agravou o problema. O aparelho eletrônico acabou virando um meio de contato com o meio externo tanto para a educação quanto para o entretenimento. As crianças, infelizmente, tiveram que ficar em casa tolhidas das outras opções de lazer", acrescentou.
De acordo com o presidente da Sorigs, a miopia não é só uma limitação visual que se resolve com o uso de óculos. "Ela poderá resultar em risco de outras doenças oculares como o descolamento de retina, glaucoma e catarata precoce, doenças que têm um potencial de prejuízo visual muito mais definitivo e alguns não são corrigíveis", explicou. Por isso, segundo Brunstein, a importância de um atendimento médico feito por um oftalmologista para a realização do diagnóstico. "Existem alguns tratamentos que podem desacelerar a evolução da miopia", explicou. Durante o auge da pandemia, a Sociedade de Oftalmologia realizou a campanha "15 minutos Off" em que crianças e adolescentes a cada 40 e 50 minutos a frente da tela desligavam o computador e realizavam outra atividade durante 15 minutos.
Segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS), hoje, 2,6 bilhões de pessoas são míopes no mundo. Mais de 50% dos pacientes diagnosticados com o problema e que precisam usar óculos não têm acesso à correção visual. A direção da Sorigs reforça a importância de procurar um médico oftalmologista ao notar na criança ou adolescente os seguintes sintomas: dificuldade no aprendizado escolar, sem conseguir enxergar de longe - a criança não acompanha corretamente as lições ou as aulas e cerrar os olhos, franzir a testa e tentar se concentrar ao máximo são hábitos de quem tem miopia e tenta enxergar direito.
Além disso, os pais devem prestar atenção na dificuldade durante as brincadeiras, como é o caso de esportes coletivos, que podem incluir elementos gráficos e lançamento de bolas, que podem se tornar especialmente difíceis para crianças com miopia.