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- Publicada em 06 de Setembro de 2022 às 17:48

O mito desfeito com a República

Proclamação da República foi crucial para a desmitificação de Dom Pedro I

Proclamação da República foi crucial para a desmitificação de Dom Pedro I


Benedito Calixto/Reprodução/JC
Juliano Tatsch
Em praticamente todos os países do mundo, a figura responsável diretamente pela libertação do colonizador se torna um mito, um herói permanentemente presente na cultura e no imaginário da população, tendo sua imagem reproduzida em estátuas, bustos, efígies, pinturas e na moeda nacional. Nos Estados Unidos, por exemplo, George Washington, Thomas Jefferson, Benjamin Franklin, entre outros líderes da independência tem seus rostos estampados em notas de dólar. Na Argentina, San Martín está na nota de cinco pesos. Na Venezuela, Bolívar está em todas as notas.
Em praticamente todos os países do mundo, a figura responsável diretamente pela libertação do colonizador se torna um mito, um herói permanentemente presente na cultura e no imaginário da população, tendo sua imagem reproduzida em estátuas, bustos, efígies, pinturas e na moeda nacional. Nos Estados Unidos, por exemplo, George Washington, Thomas Jefferson, Benjamin Franklin, entre outros líderes da independência tem seus rostos estampados em notas de dólar. Na Argentina, San Martín está na nota de cinco pesos. Na Venezuela, Bolívar está em todas as notas.
No Brasil isso não acontece. Dom Pedro I não está em nenhuma nota de real. Estátuas do primeiro imperador também não são comuns nas grandes metrópoles do País. Um libertador senão esquecido, colocado à margem.
Mas, por que isso ocorreu?
O professor de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Luís Alberto Grijó, aponta o que seria uma das razões da desmitificação de Dom Pedro I no Brasil.
Conforme o acadêmico, os processos de heroicização ocorrem no decorrer da construção dos estados nacionais. Tanto no caso norte-americano quanto nos casos da América espanhola, os países se tornaram independentes em forma de república, diferentemente do Brasil, que, por 67 anos foi uma monarquia comandada por descendentes dos reis e rainhas do pais colonizador.
No caso brasileiro, a mudança do regime ocorrida em 1889 – de monarquia para república – foi fundamental para que Dom Pedro I fosse, paulatinamente, perdendo espaço na narrativa histórica. “Quando temos a proclamação da república, o império é representado pela como um atraso, como o velho, como o antigo, e, naquele processo, podiam, inclusive, encontrar novos heróis. Eles acabam rejeitando os imperadores. Não podiam botar o Dom Pedro II como herói, pois destronaram ele. O Dom Pedro I era pai do segundo. Ficou aqui algum tempinho e depois voltou para Portugal para ser rei”, observa Grijó.
Na visão do professor da Ufrgs, portanto, a construção dos heróis da pátria está intrinsecamente associada à forma como os regimes constroem a sua representação histórica e o nascimento do estado nacional.
Ainda sobre o assunto, Grijó cita o trabalho do historiador José Murilo de Carvalho, autor do livro “A Formação das Almas – o imaginário da República no Brasil”. Carvalho aponta que o movimento militar que derrubou Dom Pedro II temia uma reação popular em defesa do monarca e, assim, precisava associar o golpe de estado com uma figura heroica. O nome escolhido foi o de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. A própria forma como o alferes mineiro morto quase um século antes passou a ser retratado aponta para isso: um indivíduo magro, alto de longos cabelos e barba, à semelhança de Jesus.
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Tiradentes foi alçado ao posto de herói nacional com a queda da monarquia (Reprodução/JC)
Um processo de recolocação de Dom Pedro em um pedestal histórico começou a ocorrer a partir da década de 1930, com Getulio Vargas. “O Estado Novo vai reler o Império como um período áureo de estabilização, de relativa calma política. E aí, em parte, retornam algumas dessas figuras imperiais. Mais ainda vamos ter em 1972, no sesquicentenário da Independência, sob a ditadura militar, onde foram feitos festejos gigantescos, com traslado dos restos mortais de Dom Pedro I”, destaca Grijó.
Esse processo ainda continua, com as recorrentes aparições de descendentes da família real brasileira na mídia e, mais recentemente, com a polêmica chegada do coração de Pedro ao Brasil para os festejos dos 200 anos da Independência.
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