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- Publicada em 05 de Setembro de 2022 às 13:53

Matriarca da Independência

Juliano Tatsch
A participação de Leopoldina nos assuntos políticos brasileiros se tornou mais presente a partir de 1821, com a volta da família real portuguesa para Lisboa. Diferentemente de seu pai, Dom Pedro I dividia os temas relativos à administração brasileira com a esposa. “Quando a corte partiu, as cartas da princesa para a Europa demonstram que ela era um personagem que participava do dia a dia político do marido. Leopoldina sabia o que acontecia, tinha opinião, que às vezes era bem-vinda, outras vezes não, mas o marido sempre a escutava”, aponta Rezzutti, autor do livro “D. Leopoldina: a história não contada – a mulher que arquitetou a independência do Brasil”.
A participação de Leopoldina nos assuntos políticos brasileiros se tornou mais presente a partir de 1821, com a volta da família real portuguesa para Lisboa. Diferentemente de seu pai, Dom Pedro I dividia os temas relativos à administração brasileira com a esposa. “Quando a corte partiu, as cartas da princesa para a Europa demonstram que ela era um personagem que participava do dia a dia político do marido. Leopoldina sabia o que acontecia, tinha opinião, que às vezes era bem-vinda, outras vezes não, mas o marido sempre a escutava”, aponta Rezzutti, autor do livro “D. Leopoldina: a história não contada – a mulher que arquitetou a independência do Brasil”.
Quando da chegada de Dom João VI em Lisboa, as cortes não gostaram de saber que o príncipe Pedro e sua esposa ficaram no Brasil, com o filho do rei tendo sido nomeado regente. Reunida em assembleia desde janeiro de 1821, as Cortes Gerais – uma espécie de assembleia na qual o rei tratava e acertava com a nobreza assuntos importantes – determinaram mudanças na gestão brasileira, revogando os avanços ocorridos durante a presença do rei por aqui. Uma das medidas foi dividir o Brasil em governos regionais autônomos que prestavam contas diretamente à Lisboa, com as províncias não reconhecendo a autoridade de Dom Pedro como regente. Dessa forma, o príncipe, na prática, mandaria apenas no Rio de Janeiro. A intenção era clara: tornar o Brasil novamente uma colônia.
Além disso, o príncipe deveria retornar à Europa, devendo realizar uma viagem pelo Velho Continente para fortalecer sua educação. Os decretos chegaram ao Brasil em 9 de dezembro de 1821 e, a princípio, D. Pedro os acatou.
Em cartas ao pai, o príncipe falava sobre o clima de tensão política que vivia o Brasil, na medida em que as elites locais não aceitaram as ordens de Lisboa, que lhe tiravam conquistas e privilégios. Entretanto, Pedro dizia-se fiel ao pai e ao reino português e se mostrava decidido a cumprir as ordens de retorno à Portugal.
Leopoldina teve papel decisivo na permanência do marido no Brasil. Grávida de sete meses de sua filha Januária, a então princesa negou-se a passar o resto da gestação a bordo de um navio. Assim, convenceu o marido a permanecer em terra até o parto, inviabilizando a partida que estava marcada para o dia 11 de dezembro de 1821.
“A princesa tinha mais consciência que d. Pedro de que nada mais poderia esperar de Portugal. As ordens vindas de lá, se forçosamente cumpridas, acabariam por despedaçar o Brasil em dezenas de repúblicas, como ocorrera com as províncias espanholas na América do Sul”, destaca Rezzutti.
A posição de Leopoldina pode ser vista em uma carta (leia abaixo) que endereçou para seu secretário entre o final de 1821 e o início de 1822 e que Rezzutti publica em seu livro. Nela, conforme o historiador, vê-se uma princesa muito mais decidida pelo Brasil do que o marido, bem informada sobre o que se passava nas províncias e firme na posição de que o príncipe deveria permanecer no Brasil a todo custo. “Ou seja, o Fico dela foi anterior ao do marido”, escreve o autor.
“Fiquei admiradíssima quando vi, de repente, aparecer meu esposo, ontem à noite.
Ele estava mais bem disposto para os brasileiros do que eu esperava – mas é necessário que algumas pessoas o influam mais, pois não está tão positivamente decidido quanto eu desejaria.
Dizem aqui que tropas portuguesas o obrigarão a partir. – Tudo então estaria perdido e torna-se absolutamente necessário impedi-lo.
Pernambuco deseja voltar à obediência, mas não quer nada saber das Cortes – não deverá, porém, manifestá-lo sob pena de ele não aquiescer.
Responda-me depressa por escrito, pois não convém visitar-me, a fim de que não desconfiem.”
Aconselhado pela esposa, contando com o apoio das províncias do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Minas Gerais, e sabedor do que o Brasil se tornaria com a sua saída – e também tendo conhecimento de que as cortes portuguesas não queriam que ele viesse a assumir o trono de Portugal e sim o seu irmão Miguel – Pedro formalizou sua permanência em território brasileiro no famoso Dia do Fico – 9 de janeiro de 1822.
As tensões aumentaram com o passar dos meses, com as cortes portuguesas pressionando o príncipe e a princesa estava bem ciente do que ocorria e do que, inevitavelmente, haveria de ocorrer, como mostra em outra carta, desta vez endereçada para sua irmã Maria Luisa:
“O Brasil é grande demais, poderoso e, conhecendo sua força política, incapaz de ser colônia de uma corte pequena, por isso custará muitas lutas duras e sangrentas.”
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