Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda Beatriz de Habsburgo-Lorena é um nome desconhecido no Brasil. Além de bastante longo. No entanto, o modo como essa mulher ficou conhecida é bastante familiar aos brasileiros. Entre tantos outros locais, a imperatriz Leopoldina dá nome para escolas de samba, colégios, condomínios e bairros, como o Jardim Leopoldina, localizado na zona Norte de Porto Alegre.
Figura importante no período do primeiro reinado brasileiro, a imperatriz, esposa de Dom Pedro I, não recebe o devido crédito de sua participação no processo que resultou na independência brasileira de Portugal. Em uma sociedade profundamente patriarcal como era a brasileira na primeira metade do século 19, não é de se espantar que a mulher que assinou o decreto da independência seja apenas lembrada por ter sido diversas vezes traída por seu marido.
A primeira imperatriz do Novo Mundo nasceu em Viena, na Áustria e era filha de ninguém mais ninguém menos do que o imperador da Áustria Francisco I. A união dela com o então príncipe do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves não envolvia amor. Os dois sequer se conheciam, nunca tendo se visto, se falando apenas por cartas. O casamento de interesse era vantajoso para as duas casas imperiais, que, assim, estreitavam ligações.
Apesar de o marido Dom Pedro I ter sido celebrado pela tradição histórica como o libertador do Brasil de Portugal, Leopoldina teve papel fundamental nos acontecimentos de 1822. Não é à toa que o historiador Paulo Rezzutti a considera a “arquiteta” da independência, alcunha que ele colocou, inclusive, no título de livro que escreveu sobre ela.
Ser princesa não era uma das melhores coisas do mundo na época. As filhas dos monarcas eram uma espécie de moeda de troca política, sendo usadas ao bel prazer dos reis e rainhas que buscavam fortalecer seus impérios por meio de alianças. Foi o que aconteceu com Leopoldina. “Nós, pobres princesas, somos como dados que se jogam e cuja sorte ou azar depende do resultado”, escreveu em uma carta em 1826.
Mulher profundamente culta, interessada nos estudos da mineralogia, amante da natureza e das ciências naturais, Leopoldina era poliglota – diz-se que falava 11 idiomas -, e escritos recentes têm mostrado uma mulher muito menos passiva do que aquela que a historiografia tradicional apontava.
Leopoldina tinha 20 anos quando desembarcou no Rio de Janeiro em 6 de novembro de 1817 após casar-se por procuração com o príncipe cerca de seis meses antes, em 13 de maio, em cerimônia realizada na Igreja de Santo Agostinho, em Viena, na Áustria.
Inicialmente, a princesa se encantou com seu novo lar e com seu marido. Com o tempo, porém, a relação deixou de ser tão afinada. Pedro costumava, por exemplo, trancar as portas dos aposentos da esposa à noite, deixando-a presa. Para alguns, isso se daria por ciúmes, para outros, porém, era para que ele tivesse segurança para fazer suas escapadas noturnas pelos bares e prostíbulos cariocas.
Durante seu período casada com Pedro, Leopoldina cumpriu à risca àquilo a que era destinada: em nove anos, engravidou nove vezes, sofrendo dois abortos e dando à luz sete filhos.
Com o passar dos anos, já desiludida com a vida na corte no Rio de Janeiro, ela passa a se envolver mais nas questões políticas e é aí que sua participação no processo da Independência se torna crucial.
O ponto alto disso foi a assinatura no documento que oficializou a separação brasileira de Portugal. “A declaração de Independência, em setembro, escrita por José Bonifácio, foi assinada por ela e enviada a dom Pedro, que ainda estava em São Paulo. Ou seja, do ponto de vista formal, a Independência foi feita por Leopoldina e Bonifácio, cabendo ao príncipe apenas o papel teatral de proclamá-la na colina do Ipiranga”, aponta o jornalista e escritor Laurentino Gomes, autor do livro “1822”.
Leopoldina também foi atuante no trabalho de reconhecimento internacional da independência, usando de seus contatos na Europa para, por meio de cartas ao seu pai, o imperador da Áustria, e ao seu sogro, rei de Portugal, costurar as tratativas para tal.
Para Rezzutti, a educação mais cosmopolita e menos regionalizada deu à imperatriz uma visão mais aprofundada dos acontecimentos de 1822. Diferentemente de seu marido, que ainda nutria receios em relação à separação, devotando uma fidelidade maior às cortes portuguesas – muito disso em razão do medo de ser deserdado do trono português – Leopoldina percebia que ser rei de Portugal não valia muito se o Brasil fosse perdido, por exemplo, por meio de uma revolução republicana.