A independência brasileira não foi heroica, com a luta de um povo organizado manchando o chão da pátria com seu sangue para obter a liberdade. Tampouco ela foi uma piada, feita por bêbados ignorantes que não tinham ideia do que estavam realmente fazendo.
A própria historiografia não define ao certo o que se tratou aquele momento. O inglês John Armitage, que viveu aqueles agitados dias no País e escreveu a obra A História do Brasil, classificou a independência como uma “revolução liberal”. Já o militar, diplomata e historiador Francisco Adolfo de Varnhagen, que tinha seis anos de idade quando do Grito do Ipiranga, definiu como uma “transição pacífica”. O também diplomata e jornalista Manuel de Oliveira Lima (1867-1928), autor do clássico O Movimento da Independência (1821-1822), se refere ao fato histórico como um “desquite amigável”.
Ou seja, não havia consenso na época dos acontecimentos, nem algumas décadas depois e nem 200 anos depois.
Alguns fatos: A vida das pessoas pouco mudou. A escravidão, maior chaga da história brasileira, continuou. O País seguiu sendo uma nação economicamente rural, com a população mais humilde sendo alijada dos bancos escolares e as elites dando as cartas nas instâncias de poder.
Diferentemente dos outros países da região – e até dos Estados Unidos – a independência brasileira não resultou no surgimento de uma democracia republicana, com eleições presidenciais. O reino português foi substituído por um império comandado por um português.
Essa sensação de continuidade – o que, de fato, do ponto de vista social, ocorreu – no entanto, não significa que o processo de independência brasileiro se deu de modo consensual, acordado entre as partes, sem rompimentos.
O historiador e professor do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP) João Paulo Garrido, considera, por exemplo, que a independência é um “processo formativo”. O pesquisador aponta que a criação de uma nação até então inexistente, junto com o surgimento de uma identidade nacional fundamentam a definição da independência como uma revolução. “Poucas coisas são capazes de impactar tanto a vida das pessoas quanto a criação de uma nação”, destacou o historiador em uma conferência recente.
Ou seja, a independência, ainda que não tenha significado, de fato, uma transformação radical na vida das pessoas, do ponto de vista político, cultural e institucional representou sim uma revolução. Ali nascia uma nação. À beira de um riacho. Em uma tarde de sábado de setembro de 1822.
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