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200 anos da Independência do Brasil

- Publicada em 01 de Setembro de 2022 às 13:45

A independência do Brasil em sete lugares de Porto Alegre

Diversos pontos da capital gaúcha remetem aos feitos de dois séculos atrás

Diversos pontos da capital gaúcha remetem aos feitos de dois séculos atrás


Pedro Américo/Reprodução/JC
Juliano Tatsch
O ano era 1822. O local, as margens do riacho Ipiranga, na cidade de São Paulo. O mês era setembro. O dia, 7. Há dois séculos, um príncipe desgostoso com a forma como o país onde nascera tratava a terra em que vivia desde os nove anos de idade desembainhou a espada e, com o braço erguido para os céus, deu o mais famoso grito já proferido no Brasil: "Independência ou morte!".
O ano era 1822. O local, as margens do riacho Ipiranga, na cidade de São Paulo. O mês era setembro. O dia, 7. Há dois séculos, um príncipe desgostoso com a forma como o país onde nascera tratava a terra em que vivia desde os nove anos de idade desembainhou a espada e, com o braço erguido para os céus, deu o mais famoso grito já proferido no Brasil: "Independência ou morte!".
Nos 200 anos da independência brasileira, o Jornal do Comércio irá retratar personagens e fatos daqueles movimentados dias que definiram o fim de uma colônia e o início de um país. Para isso, convida os leitores a darem um passeio por Porto Alegre, visitando sete locais que remetem ao principal momento da história brasileira.

JCNotícias: Vídeo mostra os sete pontos de Porto Alegre ligados à Independência do Brasil 

Capítulo 1: Avenida Independência

Avenida Independência é um dos pontos que celebram os feitos de 1822

Avenida Independência é um dos pontos que celebram os feitos de 1822


LUIZA PRADO/JC
O Dicionário Aurélio define a palavra “independência” da seguinte forma:
- Estado ou condição de quem ou do que é independente, de quem ou do que tem liberdade ou autonomia;
- Caráter de quem rejeita qualquer sujeição;
- Autonomia política;
- Restituição ou aquisição dessa autonomia.
Na placa da avenida que recebe este nome, no Centro Histórico de Porto Alegre, os dizeres que explicam para a população o motivo da via ter aquela denominação informam apenas o seguinte:
Independência
Av. Independência
Alusivo ao dia 07 de setembro de 1822, Independência do Brasil
Os dois estão certos, mas nenhum deles explica bem o que foi que aconteceu naqueles primeiros dias do mês de setembro de 1822 no Brasil. Em defesa do dicionário e da placa de rua, é impossível explicar os fatos que culminaram no famoso grito às margens do rio em tão pequeno espaço e tão poucas palavras.
A Independência do Brasil é complexa demais para ser explicada em um dicionário ou em uma placa de rua. Também é complexa demais para ser explicada em uma matéria de jornal ou site. Em um livro, talvez, seja possível. Talvez. Porque, muito provavelmente, para se embrenhar a fundo na história e nas pequenas histórias por entre a história, seria necessária uma coletânea com vários volumes. Grossos volumes, com muitas páginas.
Para quem acha que exagero de minha parte, aí vai um breve resumo:
Um território colonizado por portugueses que passaram 322 anos explorando a terra e a gente que ali vivia e que não tinham intenção alguma de se desfazer dessa posse. Esse território é governado pelo príncipe filho do rei que dá as cartas no reino colonizador. Esse príncipe é o primeiro da linha sucessória para assumir o posto quando seu pai morrer ou abdicar do trono. Ele chegou às terras colonizadas 14 anos antes fugindo, junto com toda a família real, da invasão de um poderoso (e famoso) imperador ao seu país. Esse príncipe tinha apenas nove anos de idade quando chegou por aqui. Foi nestas terras além-mar, calorentas, que ele cresceu e se tornou um jovem homem. Namorador, boêmio, afeito a noitadas, o rapaz, de nome Pedro, acabou se apegando àquela terra e àquela gente. Foi aqui que ele conheceu o grande amor de sua vida – que veio a se tornar sua amante (uma delas) - a quem ele daria um título de nobreza futuramente. Pois esse homem, nem de longe o arquétipo tradicional de um herói libertador de um povo, aos 23 anos de idade, resolveu, meio que em um impulso típico da juventude, incentivado por seus mais próximos asseclas, desembainhar sua espada e, montado em um burro às margens de um riacho e sofrendo de uma forte diarreia, gritar a independência e, assim, criar um novo país.
Sim, a independência do Brasil foi proclamada por um português filho do rei de Portugal. Alguns anos depois, ele próprio, o príncipe que rompeu com a coroa de seu pai, viria a se tornar rei de Portugal.
Confuso, não é?
Como bem disse Tom Jobim certa vez, o Brasil não é para principiantes. Nunca foi.

Dom João VI, o artífice da separação?

Dom João VI teve papel fundamental no processo 
da Independência

Dom João VI teve papel fundamental no processo da Independência


Jean-Baptiste Debret/Reprodução/JC
O professor de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Luís Alberto Grijó entende a independência brasileira como o resultado de um processo amplo, em que diversos fatores tiveram influência decisiva.
O doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) aponta que os fatos ocorridos no dia 7 de setembro de 1822 foram o resultado de uma série de acontecimentos que tiveram início quando do desembarque da coroa portuguesa no Brasil, em 1808. “Para considerar o Brasil como separado de Portugal, a rigor 1808 já marca isso”, afirma.
O historiador argumenta que, quando o rei de Portugal, Dom João VI, e a família real chegam em 1808 fugindo da invasão de Napoleão Bonaparte, o Brasil se tornou o centro do império português. “Como vamos chamar de colônia o espaço que agora está albergando o centro imperial?”, questiona Grijó.
Nos anos seguintes após a chegada da corte lusitana em território tupiniquim, o futuro país foi ganhando autonomia, sendo a própria abertura dos portos (1808) um exemplo disso. Ou seja, a independência brasileira é o resultado de uma série de acontecimentos que, inclusive, não se encerraram com o grito dado ao lado do riacho Ipiranga. Na Bahia, por exemplo, as escaramuças entre tropas brasileiras e portuguesas só tiveram fim em 2 de julho de 1823, quase 10 meses após a declaração de Dom Pedro I.
Grijó traz, inclusive, outro ponto a respeito dos acontecimentos de 200 anos atrás. Para o professor, a volta da família real para Portugal em 1821 e a própria maneira como o reinado de Dom João VI encarou a independência brasileira foram, de certa forma, uma maneira dos Bragança manterem nas mãos as rédeas do Brasil.
“A ideia de deixar o Dom Pedro I aqui e Dom João VI retornar a Portugal está muito associada ao seguinte pensamento: talvez seja difícil manter o Brasil atrelado a Portugal, mas não é impossível manter o Brasil atrelado à casa imperial portuguesa. Que foi exatamente o que aconteceu. O Dom Pedro I, ao proclamar a independência, manteve para a casa imperial portuguesa o controle no Brasil”, aponta Grijó.
A observação do acadêmico se comprova nas próprias palavras de Dom João VI. “Pedro, se o Brasil se separar, antes seja para ti, que me hás de respeitar, do que para algum desses aventureiro”, disse o rei ao filho antes de partir de volta a Portugal.
Em razão disso, há quem diga, inclusive, que o próprio rei português foi o artífice oculto – ou não tão oculto – da independência brasileira, tramando, nos bastidores, para que a inevitável separação não ocasionasse a perda de poder e influência da família real no Brasil.

Afinal de contas, o que foi a Independência brasileira?

A independência brasileira não foi heroica, com a luta de um povo organizado manchando o chão da pátria com seu sangue para obter a liberdade. Tampouco ela foi uma piada, feita por bêbados ignorantes que não tinham ideia do que estavam realmente fazendo.
A própria historiografia não define ao certo o que se tratou aquele momento. O inglês John Armitage, que viveu aqueles agitados dias no País e escreveu a obra A História do Brasil, classificou a independência como uma “revolução liberal”. Já o militar, diplomata e historiador Francisco Adolfo de Varnhagen, que tinha seis anos de idade quando do Grito do Ipiranga, definiu como uma “transição pacífica”. O também diplomata e jornalista Manuel de Oliveira Lima (1867-1928), autor do clássico O Movimento da Independência (1821-1822), se refere ao fato histórico como um “desquite amigável”.
Ou seja, não havia consenso na época dos acontecimentos, nem algumas décadas depois e nem 200 anos depois.
Alguns fatos: A vida das pessoas pouco mudou. A escravidão, maior chaga da história brasileira, continuou. O País seguiu sendo uma nação economicamente rural, com a população mais humilde sendo alijada dos bancos escolares e as elites dando as cartas nas instâncias de poder.
Diferentemente dos outros países da região – e até dos Estados Unidos – a independência brasileira não resultou no surgimento de uma democracia republicana, com eleições presidenciais. O reino português foi substituído por um império comandado por um português.
Essa sensação de continuidade – o que, de fato, do ponto de vista social, ocorreu – no entanto, não significa que o processo de independência brasileiro se deu de modo consensual, acordado entre as partes, sem rompimentos.
O historiador e professor do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP) João Paulo Garrido, considera, por exemplo, que a independência é um “processo formativo”. O pesquisador aponta que a criação de uma nação até então inexistente, junto com o surgimento de uma identidade nacional fundamentam a definição da independência como uma revolução. “Poucas coisas são capazes de impactar tanto a vida das pessoas quanto a criação de uma nação”, destacou o historiador em uma conferência recente.
Ou seja, a independência, ainda que não tenha significado, de fato, uma transformação radical na vida das pessoas, do ponto de vista político, cultural e institucional representou sim uma revolução. Ali nascia uma nação. À beira de um riacho. Em uma tarde de sábado de setembro de 1822.
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