Cerca de 20 mil pessoas aguardam por uma consulta oftalmológica pelo SUS em Porto Alegre atualmente, o que representa o triplo da demanda do período pré-pandemia. Para diminuir esse gargalo, a Sociedade de Oftalmologia do Rio Grande do Sul (Sorigs) e a prefeitura da Capital firmaram um termo de cooperação para que médicos voluntários prestem o atendimento à população.
A iniciativa, chamada de Projeto Consulta Solidária, não terá custos para os pacientes. Os agendamentos terão início imediato e serão realizados nos consultórios dos médicos credenciados à entidade. A Secretaria Municipal da Saúde (SMS) está encarregada da regulação e marcação das consultas, usando o critério de geolocalização. O presidente da Sorigs, Marcos Brunstein, explica que a ideia é que as pessoas possam ser atendidas nas clínicas próximas de suas residências, evitando gastos com deslocamentos e custos.
O atendimento oferecido foca principalmente na saúde básica, no rastreio de patologias e na prescrição ótica, proporcionando ao paciente uma consulta completa para o diagnóstico. Os tratamentos de maior complexidade serão encaminhados de volta à SMS, principalmente nos casos de patologias que precisarão de tratamento de longo prazo ou de intervenção cirúrgica.
O objetivo, explica Brunstein, é dar atendimento básico na área de saúde visual e evitar que a população recorra a profissionais que não são médicos em lojas onde são oferecidas “consultas” com a finalidade de vender óculos. “Isso é irregular, é crime. Essas pessoas têm como fim uma venda e não a prevenção da saúde ocular”, afirma o presidente da Sorigs.
Existem mais de três mil doenças que podem afetar a visão. São enfermidades primárias ou associadas a outras patologias, como diabetes, problemas de tireoide, hipertensão, autoimunes e infecciosas. “Saúde ocular é mais do que enxergar bem. A pessoa pode ter uma boa visão e ter uma doença ocular grave como o glaucoma”, exemplifica. Causa número 1 de cegueira no mundo, o glaucoma é uma doença silenciosa.
Brunstein lembra que a pandemia trouxe grandes prejuízos à saúde visual da população. Nos adultos, a redução da circulação das pessoas nas clínicas e hospitais interrompeu tratamentos e acompanhamento médico. Além disso, impediu o diagnóstico de enfermidades como a retinopatia diabética, o glaucoma e a degeneração macular relacionada à idade. Nas crianças, com a mudança para o modal das aulas por teleconferência e o fato delas deixarem de interagir, houve o tempo excessivo de celular, causando o aumento da miopia. “A pandemia terá suas consequências de muito longo prazo em função desse período”, lamenta.
O Projeto Consulta Solidária já conta com 40 médicos cadastrados. A intenção é replicar a iniciativa em cidades do Interior. O programa repercutiu junto a entidades de outros estados, que se interessaram pelo modelo, e também em outras áreas profissionais.