O Brasil vive uma tragédia como nunca viveu em toda a sua história moderna. As vítimas do novo coronavírus se acumulam e, com um volume cada vez maior, viram meras estatísticas oficiais. No coração daqueles que perderam um pai, uma mãe, um irmão ou uma irmã, um amigo, uma amiga, um avô ou uma avó, a dor é incalculável. Não há número que a represente. É nesse momento que o apoio espiritual cumpre um papel fundamental, o de dar consolo aos que sofrem, respostas aos que têm dúvida, e caminhos aos que se sentem perdidos.
No Brasil inteiro já são oficialmente 325.284 vidas perdidas para a Covid-19. Somente nesta semana, entre segunda (29) e quinta-feira (1), foram reportados 13.078 óbitos no País. No Rio Grande do Sul, as mortes ultrapassaram a marca de 20 mil nesta quinta-feira.
As mortes aumentam em uma quantidade assustadora. Diante desse quadro de tragédia, misturada com medo e desalento, é da natureza humana buscar acolhimento. E, quando os médicos não sabem responder às dúvidas que surgem em momentos como esse, as respostas costumam ser buscadas em outros lugares, com outras pessoas.
As crenças religiosas funcionam como um esteio em momentos de dificuldade. No caso do atual, as perdas são amplificadas, pois as pessoas sequer podem se despedir de seus entes queridos que se foram, visto que os protocolos sanitários impedem a realização de cerimônias como velórios.
Cada crença enxerga a doença, a morte e o luto à sua maneira. Boa parte delas se assemelham em alguns pontos, mas também se diferenciam em outros. Independentemente de como cada religião trata o fim da vida, todas elas estendem a mão e oferecem um apoio. Apoio esse que se dá não só a quem está doente, mas também para seus familiares, amigos e conhecidos.
Baba Diba de Iyemonja é babalorixá da Comunidade Terreira Ile Àsé Yemonjá Omi Olòdó, localizada na vila São José, em Porto Alegre. Conforme ele, é facilmente percebido um aumento na procura por apoio espiritual desde o início da pandemia, no fim de fevereiro do ano passado. No caso da sua crença, a procura não se dá somente em busca de conforto, mas também de proteção e saúde. “O nosso povo de terreiro tem um perfil diferente. Ele tem o costume de, a qualquer sintoma de qualquer tipo de doença, antes de ir no médico, acessar o terreiro. Percebemos sim um aumento na procura. As pessoas buscam tanto o atendimento espiritual quanto o nosso conhecimento das ervas, das folhas, dos chás que costumamos administrar e que ajudam muito na recuperação e na absorção de qualquer outro tipo de medicamento”, afirma o líder religioso.
A percepção de que houve um aumento no número de pessoas que buscam conforto espiritual no atual período é compartilhada por outros líderes religiosos gaúchos.

Famílias vivenciam as perdas de modo mais distante e isolado (Silvio Avila/AFP/JC)
Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre, dom Jaime Spengler aponta o distanciamento entre os familiares e os falecidos – necessário em razão dos riscos de contaminação – como motivador de uma angústia difícil de lidar. “O fato de não poder ver o rosto da pessoa falecida, de não poder tocar o corpo, de não ter tempo de chorar a perda, isso traz uma tensão muito forte. Esse é um aspecto humano. Não ter o tempo suficiente para rezar essa perda, essa morte, essa dor, deixa um vácuo”, aponta o líder da Igreja Católica. “Nós, como Igreja, nem sempre conseguimos acompanhar de forma satisfatória esses momentos de dor e de morte. Entrar em uma unidade de saúde quando o familiar pede uma unção dos enfermos é uma inconveniência que nos desafia”, destaca dom Jaime.
O impacto da pandemia não é percebido apenas nos números divulgados diariamente pelas autoridades públicas. Para quem atua junto às comunidades, como os líderes religiosos, os números são nomes, muitos deles bem próximos. “Ficamos em contato com as famílias e elas nos procuram para que elevemos preces. A cada semana eu escrevo o nome das pessoas doentes para fazer as rezas e lamentavelmente o papel onde escrevo ficou pequeno. Realmente é fato, isso atingiu absolutamente a todos. Não tem ninguém que não conheça um familiar, um amigo que não esteja internado, que não esteja infectado”, lamenta o rabino Gershon Kwasniewski, da Sociedade Israelita Brasileira de Cultura e Beneficência (Sibra).
Com os contatos restritos a conversas por meio de ferramentas digitais de comunicação, a proximidade física deu espaço para as ligações telefônicas e chamadas de vídeo. Pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e presidente do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs no Rio Grande do Sul (Conic-RS), Adélcio Kronbauer afirma que a mudança no modo de atender as pessoas mudou, mas isso não alterou o impacto desses atendimentos. “A conversa está acontecendo muito por celular. As pessoas procuram, elas ligam e a gente acaba ligando muito também. Mudou a forma de atendermos, mas isso não significa que é menos intenso. Em determinados momentos, parece que as pessoas até se soltam mais para falar o que está se passando com elas”, diz o religioso.
As dores e angústias de quem está doente ou perdeu um ente querido
A sombra permanente do vírus rondando todos os movimentos, o medo de se contaminar e de contaminar pessoas próximas e, ainda mais, o medo de morrer. A pandemia trouxe uma pressão emocional sobre a sociedade que se intensificou nos últimos meses, com o recrudescimento da crise sanitária. Diante deste cenário, as angústias se multiplicam e a população que pratica uma fé, seja ela qual for, busca nas suas crenças respostas e conforto.
Baba Diba de Iyemonja aponta quais são os medos que as pessoas apresentam quando buscam o apoio em um terreiro de religião afro-brasileira. “A primeira coisa é o medo de morrer. As pessoas começam a sentir o primeiro sintoma e o primeiro pavor é o de morrer. De fato, não sabemos quem vai e quem não vai agravar. Já tivemos perdas. Na minha comunidade já tivemos três perdas. Uma pessoa com 88 anos, uma com 79 e, há uma semana, uma com 51 anos. As pessoas vêm procurar alívio para as dores, mas muito mais para fazer segurança para não morrer. Elas têm medo, têm pavor de morrer”, observa o babalorixá que também é bacharel em Saúde Coletiva.
Líder da comunidade judaica da Capital, o rabino Guershon salienta outro ponto que traz muita aflição para quem está doente ou tem algum conhecido doente. “A angústia é muito grande quando não se pode entrar em uma UTI para acompanhar um ente querido. Assim, não é só importante fazer a prece pela pessoa que está doente, mas também acompanhar os familiares do doente que estão limitados, angustiados por não poderem ir até o hospital para acompanhar esse amigo. Eu também, como religioso, estou angustiado por não pode entrar nos hospitais e visitá-los”, destaca.

Rabino Guershon salienta a importância de cuidar dos familiares dos doentes (Arquivo pessoal/JC)
O pastor Adélcio atua com o acompanhamento pastoral hospitalar. Sua função é ouvir os doentes e familiares e ajudá-los na compreensão do momento pelo qual passam. Conforme ele, as pessoas que estão internadas costumam apresentar uma mistura de sentimentos. “Em um primeiro momento, elas têm a sensação de que, com elas, isso não vai acontecer. A pessoa acaba tendo uma mistura de sentimentos. Ela tem de reconhecer que muitas coisas que falou antes, pregou antes, não são bem assim. Vem até um sentimento de culpa. Então, primeiro, temos de trabalhar esse sentimento de culpa. E, também, há o medo da morte”, ressalta.
Por outro lado, há aqueles que se agarram em sua fé para atravessar o momento difícil. “A grande maioria tem a confiança da presença de Deus. Eu sempre digo assim: apesar desse sofrimento, entendendo, racionalmente ou não, a presença de Deus, vamos sentir a presença de Deus. É preciso desenvolver uma paciência, uma serenidade”, testemunha o pastor luterano, lembrando que as dúvidas a respeito da própria fé também surgem em momentos de sofrimento. “Diante da finitude da vida, as pessoas acabam se tornando sensíveis. Também existe o sentimento de revolta, que é normal. Onde está Deus? Temos de ouvir com calma, com paciência. O próprio Cristo, diante do sofrimento, disse ‘Pai, por que me abandonaste?’”, pondera o religioso.

Questionar a fé é comum quando a vida está em risco, diz o pastor Adélcio (Arquivo pessoal/JC)
Dom Jaime Spengler lidera a religião com maior número de fiéis no Estado. Assim, é natural que a quantidade de pessoas que busquem apoio junto às paróquias seja maior. Para ele, a perda sem despedida é uma dor difícil de lidar. “São tantas as perdas, as mortes, e a forma como se faz a despedida é muito fria, a pessoa, a família, os amigos, com dificuldade podem participar de um momento muito breve de despedida. Isso deixa uma marca e essa marca nós, como sociedade, vamos precisar encontrar um meio para sanar. Vamos precisar celebrar esse luto de uma forma digna”, enfatiza o arcebispo.
Como lidar com o vazio da dor vivida longe das pessoas queridas?
A superação da perda se dá em etapas. Cada uma delas com seu próprio tempo. Nesse processo, o calor da presença de quem a pessoa ama é fundamental. E é justamente isso que a pandemia tem impedido.
A distância dos amigos, dos parentes e até de familiares amplifica o sentimento de vazio. Em momentos como esse, a espiritualidade é sempre um porto seguro para quem tem suas crenças. No entanto, até mesmo fé se dá prejudicada.
“O ser humano é extremante comunitário. Ser humano algum é uma ilha. A partir da visão da fé cristã e católica, é essencial que se viva em comunidade. A fé cristã jamais é individualista. Eu sempre vivo a minha fé na comunidade com a comunidade. Esse tempo que vivemos, de alguma forma, me limita na participação ou no envolvimento com a comunidade. Me é negado algo que, não só a partir da perspectiva da fé, mas também em um nível antropológico, é vital”, aponta o arcebispo metropolitano de Porto Alegre.

Dom Jaime lembra que a fé cristã é vivida em comunidade (Jonathan Heckler/JC)
Para dom Jaime Spengler, o quadro atual é difícil, mas permite que outras perspectivas de atenção sejam percebidas. “É um tempo oportuno para redescobrir a importância da pequena comunidade, da minha família, dos vizinhos, aquele da porta ao lado, com o qual dificilmente tenho um contato. O tempo está exigindo de nós abrir os olhos para quem está muito próximo”, aconselha.
Nas religiões de matriz africana, a morte é vista de um modo diferente de como é enxergada pelas religiões cristãs. Tanto a chegada na vida quanto a saída dela possuem uma relação muito forte com a terra e a natureza. Assim, a distância física causa um prejuízo difícil de se repor. “Nós somos uma religião ancestral que lida com a terra, que lida com o planeta, com o cosmo. Quando alguém nasce, recebemos cantando e, quando alguém morre, nos despedimos cantando. Há um rito que precisa ter muita gente nele, com o corpo presente, com o toque. Embalamos o bebê quando ele nasce e embalamos a pessoa quando morre. Esses ritos agora estão sendo 100% prejudicados. Fica uma lacuna, algo que vamos ter de dar conta de ir resolvendo”, aponta Baba Diba de Iyemonja.

Baba Diba aponta a importância do toque quando da morte nas religiões afro (Marcelo Camargo/ABr/JC)
O rabino Guershon, por sua vez, acredita que a pandemia conectou ainda mais as pessoas ao invés de as isolar. Na opinião dele, a difusão do uso das tecnologias de comunicação aproximou ainda mais as pessoas, possibilitando formas de contato que antes não eram comuns no dia a dia. “Nesse processo de pandemia, estamos ainda mais interligados, mais conectados do que antes. Por exemplo, nosso serviço religioso da Páscoa Judaica teve mais de 1,5 mil visualizações, o que significa um público potencial de 3 ou 4 mil pessoas. Eu nunca teria espaço físico para acomodar aquelas pessoas. A comunidade judaica não está isolada, está muito interligada, muito conectada, muito participativa”, salienta, exemplificando. “Quando uma pessoa falece dentro do judaísmo, é costume juntar um quórum de no mínimo 10 pessoas para fazer uma reza. Isso hoje continua sendo feito via Zoom (ferramenta de reuniões on-line). E acontece algo muito interessante. Se juntam familiares e amigos do falecido não só da cidade, mas de toda parte do Brasil e do mundo. Acabou tendo um efeito ainda maior”, diz.
Para o pastor luterano Adélcio Kronbauer, a distância física dificulta a superação da dor da perda. O religioso acredita que, sozinho, o tempo necessário para se passar pelos processos do luto é maior, na medida em que, em comunidade, a cura se dá de forma mais equilibrada.
Por outro lado, porém, ele aponta que o distanciamento social também pode ser visto e vivido como algo pelo qual se precisa passar. “Jesus também tinha momentos que se retirava, em que fazia seus retiros individuais. Vida espiritual é um pouco dessa mistura, ela é pessoal e comunitária. Jesus tinha um grupo menor de pessoas, às vezes ele estava com uma multidão e, às vezes, estava sozinho. Acho que a vida espiritual acontece nesses três níveis. O bom é quando isso acontece de uma forma equilibrada e, agora, perdemos um pouco esse equilíbrio”, reflete o pastor.
Uma mensagem de conforto para quem está vivendo um momento de perda ou de luto
Baba Diba de Iyemonja
Acreditar na vida. Nós somos seres coletivos, não viemos no mundo para ficarmos sozinhos e nem para ficarmos longe do abraço. Mas, para que possamos ter novamente o abraço, precisamos acreditar na vida. E acreditar na vida é cuidar da gente e do outro. Para isso é preciso ficar em casa, usar máscara e muito álcool gel. Isso vai passar.
Dom Jaime Spengler
Gostaria de recordar o que o Papa disse no dia 27 de março de 2020, na Praça de São Pedro vazia. Ele dizia que nós estamos em uma tempestade, estamos todos no mesmo barco e precisamos remar juntos. Esse dizer é muito importante. Ninguém se salva sozinho. Não podemos perder a esperança. Não podemos permitir que nos roubem a esperança, A esperança tem duas irmãs, a fé e a caridade. Nenhum sofrimento, nenhuma dor, nenhuma morte é em vão diante de deus. Toda a morte, todo sofrimento é redentor. Por mais doloroso ou difícil que seja, nós participamos da redenção do mundo. Unimos nosso sofrimento ao de Jesus na cruz. Na cruz se expressa o que é amar sem limites.
Pastor Adélcio Kronbauer
Todos gostaríamos que as coisas fossem diferentes. Que Deus não permitisse o sofrimento e tudo desse certo em nossas vidas. Deus nos prometeu estar conosco todos os dias. Deus escolheu um jeito de ser solidário conosco. Ele não ficou só nos assistindo de longe, como um artista que fica admirando sua obra. Ele se tornou gente. E ele sofreu, ele viveu, se alegrou, passou tudo aquilo que uma pessoa passa. Morreu, foi sepultado, desceu ao mundo dos mortos e ressuscitou para a vida eterna. Essas são as palavras que devemos dizer uns para os outros para o consolo. Crer que, apesar do sofrimento, apesar de a gente não conseguir entender essa lógica em seus detalhes, a certeza que temos pela fé é de que Deus sofre com a gente, Deus abraça a gente, Deus é solidário, Ele conhece o que estamos passando e vai estar em todas as situações junto conosco e com os que já não vivem mais entre nós. Deus está ali também, porque Deus conhece a morte. Então, até ali não estamos sozinhos. Nem na morte estamos sozinhos. Deus está conosco.
Rabino Guershon Kwasniewski
Tenham força, procurem no seu interior as respostas para esse momento. Que tenham a coragem suficiente para perceber que a cada dia que acordamos temos que encontrar um sentido nas nossas vidas. Um familiar foi embora, mas existem muitos outros familiares que também necessitam de nós e estão esperando por nós. Existe sempre alguém que vai querer receber o nosso apoio, a nossa força. Não podemos desistir. Temos de aceitar que existem limitações. Estamos em uma guerra e temos de aceitar que, como em toda a guerra, existem perdas, mas uma guerra não dura para sempre. Isso vai terminar A humanidade está sendo mexida, sendo testada, sendo provada. E é na hora que estamos sendo provados que temos de demonstrar que somos mais fortes. É muito importante viver o luto. Não pode fazer de conta que nada aconteceu. O luto deve ser vivido e respeitado. Mas também temos de encontrar as forças para tocar as nossas vidas, porque temos de encontrar um sentido para o nosso ser.


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