Os territórios negros surgidos em Porto Alegre no período posterior à abolição da escravatura fazem parte do novo livro da fotógrafa Irene Santos. Colonos & Quilombolas – Memória Fotográfica das Colônias Africanas de Porto Alegre reúne depoimentos, imagens e documentos sobre a presença do negro na Capital gaúcha no início do século XX. Após 1888, ex-escravos e suas famílias passaram a habitar uma área que se iniciava na Cidade Baixa, passava pelos bairros Bom Fim, Mont’Serrat, Rio Branco (Colônia Africana) e chegava até o bairro Três Figueiras, onde ainda hoje vivem famílias do Quilombo Silva.
A região conhecida como Colônia Africana, mesmo tendo suas ruas figurando nos mapas da cidade do século XIX, nunca foi oficialmente reconhecida pela prefeitura de Porto Alegre como um bairro. A imprensa escrita da época, porém, mencionava o local como um território de “excluídos sociais, em geral negros e pobres”. Essa impressão desfavorável aos territórios ocupados por ex-escravos passou a fazer parte do imaginário da cidade, transformando-se em preconceito contra uma expressiva parcela de sua população. Para Irene, o livro tem o propósito de remover o estigma dessas regiões da cidade como locais de intensa pobreza, crimes e prostituição.
A professora de História Dorvalina Elvira Pinto Fialho salienta que a obra trata de dois segmentos da cidade que não são muito conhecidos e que são “invisíveis” na comunidade: os imigrantes pobres que vieram da Europa (colonos) e os negros (quilombolas) que estavam saindo do processo de escravidão no início do século XX.
Segundo ela, os negros estavam espalhados pelo Rio Grande do Sul, mas grande parte veio de Rio Pardo e Pelotas – a região foi o maior reduto de escravos. “Muitos deles começavam a ser mandados para Porto Alegre porque não tinham mais serventia”, destaca. Sobre Pelotas, Dorvalina salienta o depoimento de um estrangeiro que visitava o Estado durante a época da escravidão: “Presenciei a escravidão praticada em Pelotas e considero a mais dolorosa e cruel”. Irene observa que o livro possui depoimentos de pessoas com mais de 70 anos e com conhecimento sobre os costumes dos negros em Porto Alegre no começo do século XX. De acordo com Dorvalina, as colônias africanas eram regiões de pessoas trabalhadoras, solidárias, que se divertiam e que deram contribuições importantes para Porto Alegre, principalmente na arte, na música e no esporte.
O novo livro de Irene Santos tem a parceria da jornalista Vera Daisy Barcellos, da artista plástica Zoravia Bettiol, da professora de História Dorvalina Elvira Pinto Fialho e da escritora mineira Cidinha da Silva. O lançamento acontece amanhã, às 19h, no museu Joaquim Felizardo, na rua João Alfredo, 582, na Cidade Baixa.
Depoimentos relembram a música e o esporte da época
O Areal da Baronesa é o primeiro bairro mostrado no livro. O local já não existe mais, mas ficava entre o Menino Deus e a Cidade Baixa. A região era caracterizada pela predominância dos negros entre seus habitantes. A história de Dona Amélia, bisavó de uma entrevistada, resume as trajetórias de muitos negros que chegaram à Capital provenientes do Interior em busca de uma vida melhor depois da abolição. “Sem serventia nas estâncias, fazendas e charqueadas, a maioria das crianças e das idosas ia sendo mandada embora. Porto Alegre era o destino, e logo passou a ser o abrigo. Sem vínculos de parentesco, apoiados pela solidariedade das mulheres mais velhas, meninas e meninos negros foram crescendo e construindo uma história de sobrevivência e resistência”.
O depoimento de Jaime Moreira da Silva, hoje com 95 anos, fala sobre a paixão do brasileiro: o futebol. A Liga da Canela Preta foi criada porque os negros não podiam jogar na liga oficial. Atualmente, os dois principais clubes da Capital negam a informação, dizendo que nunca houve discriminação racial. Silva também conta histórias da sua juventude e lembra do Salão Modelo, que durante muito tempo foi o ponto de encontro de jovens. Quando artistas famosos se apresentavam, os moradores traziam cadeiras e se reuniam na frente do prédio esperando a “canja”. Dalva de Oliveira foi uma das tantas cantoras que soltaram a voz na sacada do prédio.