Júlia Fernandes

Júlia Fernandes Repórter


Inspiração

‘O Vale do Silício das Favelas’: como um hub de uma comunidade de SP impacta o País

O G10 Favelas foi criado em Paraisópolis, favela na Zona Sul de São Paulo, e atualmente está presente em 16 estados do Brasil. Em Porto Alegre, o hub está presente através de uma iniciativa no Morro da Cruz
Atuando em 400 comunidades espalhadas por 16 estados do Brasil, o G10 Favelas, hub de inovação e impacto social criado em 2019, já impactou cerca de 17 milhões de pessoas através de projetos de diferentes frentes. A iniciativa, que nasceu na pandemia de Covid-19, desde o princípio teve como propósito fomentar o empreendedorismo em territórios periféricos. “São ideias que surgiram principalmente durante o processo da pandemia para ajudar a favela a empreender”, afirma o fundador e CEO do G10 Favelas, Gilson Rodrigues, enfatizando a necessidade de criar iniciativas de transformação para os moradores da favela de Paraisópolis que, assim como outras comunidades vulneráveis, foram impactadas de forma mais violenta pelo período pandêmico.
Atuando em 400 comunidades espalhadas por 16 estados do Brasil, o G10 Favelas, hub de inovação e impacto social criado em 2019, já impactou cerca de 17 milhões de pessoas através de projetos de diferentes frentes. A iniciativa, que nasceu na pandemia de Covid-19, desde o princípio teve como propósito fomentar o empreendedorismo em territórios periféricos. “São ideias que surgiram principalmente durante o processo da pandemia para ajudar a favela a empreender”, afirma o fundador e CEO do G10 Favelas, Gilson Rodrigues, enfatizando a necessidade de criar iniciativas de transformação para os moradores da favela de Paraisópolis que, assim como outras comunidades vulneráveis, foram impactadas de forma mais violenta pelo período pandêmico.
Sempre acreditei que os moradores da favela poderiam ser agentes da sua própria transformação. Acreditamos que para acabar com a fome, com a violência contra mulher, com a pobreza é necessário dinheiro no bolso. Então, nós fomos criando iniciativas de impacto econômico, onde essa favela pode empreender, gerar trabalho e renda, e, a partir disso, mudar sua vida”, destaca o CEO.
De acordo com a pesquisa Um País Chamado Favela, realizada em 2025 pelo Instituto Data Favela em parceria com a Central Única das Favelas (CUFA), as periferias brasileiras movimentam mais de R$ 300 bilhões por ano em renda própria. Esse potencial é observado por Gilson há alguns anos. Criado na maior favela de São Paulo, o empreendedor decidiu fazer da sua comunidade o Vale do Silício das Favelas, escalando negócios criados dentro da periferia a partir de ações, formações e investimentos. O que começou e se consolidou em Paraisópolis começou a ser disseminado para as cinco regiões do País.
Em Porto Alegre, nós temos um núcleo que é liderado pelo Michel Couto, do Morro da Cruz, onde ele faz uma série de ações e iniciativas voltadas ao empreendedorismo e à inovação, através do Hub Formô”, exemplifica Gilson, destacando que essas iniciativas têm grande potencial para desenvolver outros negócios locais à medida que são apoiadas e, principalmente, à medida que o poder público reconhece a capacidade desses projetos.
Entre as principais iniciativas do G10 Favelas está o banco digital G10 Bank, considerado por Gilson o BNDES das Favelas. Segundo o CEO, a partir do banco digital, foi possível viabilizar centenas de negócios, que impactam em diversas frentes dentro e fora das comunidades. “Nós geramos 300 empréstimos para empresas de favelas que geraram outros tantos empregos e formações. Então, nós acreditamos que cada iniciativa se reproduz e impacta muita gente”, afirma Gilson, comentando que, nos últimos cinco anos, o G10 impactou mais de cinco milhões de famílias.

Falta de crédito impede o avanço dos empreendedores

O acesso ao crédito é apontado por Gilson como um dos principais inibidores do crescimento e desenvolvimento dos empreendedores das favelas. Segundo ele, 43% da população não tem acesso adequado à formação e, principalmente, ao crédito. Quando consegue financiamento, o empreendedor periférico frequentemente encontra juros mais altos e valores insuficientes para fazer o negócio crescer.
“Se você é uma pessoa negra, principalmente mulheres negras de favela, tem um crédito praticamente inalcançável. Então é preciso democratizar e dar visibilidade a esse empreendedor que muitas vezes é olhado e automaticamente marginalizado”, afirma Gilson. Para ele, reconhecer esses negócios é também reconhecer a capacidade de geração de emprego e renda dentro das comunidades.
Um dos exemplos citados pelo empresário é o Favela Xpress, empresa de logística criada por Giva Pereira. O negócio desenvolve minicentros logísticos dentro das favelas para permitir que moradores recebam compras de e-commerce em suas residências, localizadas em regiões onde o CEP é bloqueado.
A iniciativa precisou de R$ 20 mil para sair do papel e hoje, segundo Gilson, gera 250 empregos. “Na época, ele foi pedir crédito para o banco e o banco não deu, porque ele era um menino jovem, de 21 anos, com uma ideia e um sonho. Então, nós olhamos para essas ideias e para esses potenciais de transformação”, conta o CEO.
Para Gilson, ampliar o acesso a serviços financeiros e outros direitos passa também por romper com o que chama de muros invisíveis. “É garantir que as pessoas possam ter acesso como todo mundo e não ficar divididos por esses muros invisíveis que nos separam e nos colocam em embargos econômicos e que, no fundamental, nos tratam como marginais e violentos, quando, na verdade, a gente é marginalizado e violentado por serviços que não chegam aqui.

Metodologia das comunidades precisa ser reconhecida

Outro ponto defendido pelo fundador do G10 é a necessidade de reconhecer os conhecimentos desenvolvidos dentro das próprias favelas. Para ele, o empreendedorismo periférico frequentemente nasce da necessidade e não necessariamente é identificado pelo próprio morador como uma atividade empreendedora. “O empreender da favela é muito por necessidade e, muitas vezes, a pessoa nem sabe que é empreendedor" afirma.
Segundo Gilson, modelos tradicionais de formação nem sempre consideram as particularidades desses empreendedores. Ele cita como exemplo comerciantes que, apesar de não terem sido alfabetizados ou passado por formações empresariais convencionais, conseguem administrar negócios bem-sucedidos. “Quando coloca-os dentro de uma sala de aula para estudar uma outra metodologia, eles têm prejuízo, porque têm um jeito deles fazer, de dar certo, que precisa também ser estudado”, explica Gilson.
A proposta é inverter a lógica tradicional, em que soluções e metodologias são desenvolvidas fora das comunidades e posteriormente levadas para dentro delas. “Eu defendo que as tecnologias que são construídas na favela precisam ser olhadas e também contribuir com o Brasil, para as cidades além dos nossos territórios. No geral, as metodologias, as parcerias vêm de fora para dentro e a gente quer que a transformação seja feita de dentro para fora."

Para o empreendedor, a mudança de perspectiva passa também por assumir a identidade e a potência econômica das comunidades. “Não tenho que mudar para poder me encaixar numa caixinha. Eu já sou assim e sou forte assim. Afinal, se as favelas fossem uma empresa, nós seríamos a Petrobras, seríamos a Vale. Então, por que não ativar essa economia para que essas favelas avancem?", provoca Gilson.