Com a sustentabilidade como norte, muitos empreendimentos podem se conectar com ideais e práticas que possuem objetivos maiores. Dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT) mostram que o Brasil pode chegar a produzir 8,02 bilhões de peças de roupa por ano, das quais grande quantidade é rapidamente descartada.
É com o intuito de melhorar este cenário que alguns negócios ganham vida com o upcycling. A prática consiste em utilizar a criatividade para ressignificar o propósito de algum material ou recurso, gerando algo novo de qualidade igual ou superior.
Em um espaço dentro de um apartamento familiar de frente para a Orla do Guaíba, a Brinco de Azulejo ganha forma. A marca está em operação desde 2022, com produção e venda de acessórios feitos a partir de matéria-prima residual. A ideação do empreendimento veio a partir da educadora ambiental Flávia Luce.“Sou uma apaixonada por esse tema, por mostrar para as pessoas o quanto é importante a gente cuidar de nós mesmos”, explica.
Coletando os cacos
Para Flávia, o negócio começou a tomar forma enquanto lidava com o processo de luto após o falecimento de seu pai. Ela detalha que a psicanálise teve um papel fundamental nesse momento que originou a Brinco de Azulejo. “É o que eu faço no divã da psicanálise. Escutar os meus cacos, os meus resíduos, as minhas dores", compara.
Nesse contexto, ela iniciou na prática de fazer caminhadas pela beira da praia de Ipanema, na Zona Sul de Porto Alegre, e coletar pedrinhas para arremessar na água, atividade que costumava fazer com o pai. Segundo a empreendedora, com o tempo seu olhar evoluiu. “A minha compreensão já era outra e eu não via mais uma pedrinha, eu via um azulejo com uma pétala, com uma flor, um piso cerâmico com uma textura. Eu não jogava, colocava no bolso e ia guardando”, explica.
Nas redes sociais, ela descobriu o beachcombing, a atividade de coletar itens nas praias, que podem ser trazidos, principalmente, pelas marés. Após iniciar na prática, ela optou por explorar a possibilidade de monetizar e produzir itens novos com estes materiais. Para ela, o potencial desses fragmentos de se tornarem acessórios era claro: “uma bióloga que, na infância, gostava de fazer acessórios. Então, eu já sabia mais ou menos o que fazer”. Hoje, a educadora ambiental atua só com a marca, produzindo e vendendo os produtos, participando de eventos, e evoluindo na formação em joalheria contemporânea.
O investimento inicial de Flávia para iniciar as atividades da marca se concentrou em insumos básicos como pinos e cola, adquiridos no centro da cidade. No momento, ela está implementando características da joalheria na Brinco de Azulejo. Por isso, passa a investir em ferramentas que descreve como sendo "muito custosas". "Esses insumos, por enquanto, estou adquirindo. Mas estou aprendendo eu mesma a fazer os pinos, vou fazer as joaninhas dos broches com o fio de aço. Isso é o que a formação em joalheria está me proporcionando”, conta.
Materiais encontrados na Orla do Guaíba são insumos para as peças
Nathan Lemos/JC
Processo de coleta e produção
No momento, a empreendedora explica que a produção da marca segue um estilo lento, já que ela busca aproveitar o processo de confecção de cada produto. Entre os principais itens à venda no catálogo estão brincos, anéis e cordões, produzidos com materiais como cacos, fragmentos de azulejos e cerâmica e vidro. Os resíduos têxteis utilizados incluem produtos orgânicos, principalmente o algodão. "É melhor que um resíduo não-orgânico. Para a Brinco de Azulejo, vejo que traz mais força para a proposta”, detalha.
Os fragmentos e cacos representam a principal matéria prima para a produção. Esse material vem principalmente da prática de beachcombing, parcerias com antiquários e relações com diversas pessoas que, quando coletam materiais, repassam para a microempreendedora.
A marca também oferta o serviço de transformar fragmentos trazidos pelos próprios clientes em joias com valor emocional. Como é o caso de um brinco produzido para uma cliente que buscava acessórios feitos a partir de pedrinhas colhidas pelo seu filho em uma praça. “O filho já cresceu, isso já faz três anos, e ela está com aquele brinco daquela memória na pracinha”. Esses produtos podem ser adquiridos por encomenda.
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Desafios de empreender
Ela enxerga como maiores desafios do seu empreendimento sustentável a valorização dos produtos, considerando, principalmente, os processos existentes para o resultado final. “É o tempo do processo, quanto gasto de tempo lá nas margens, recolhendo esses resíduos, fazendo esses contatos com as pessoas.” A margem de lucro também representa um desafio. Hoje , uma parte considerável dele retorna para as necessidades de formação da empreendedora. “O desafio é essa sustentação de não desistir, é com esse desejo de continuar", expõe.
A oportunidade de ensinar através da marca é um dos pilares centrais da Brinco de Azulejo, permitindo que a fundadora conecte os seus anos de experiência na educação com o seu novo percurso como microempreendedora. A dedicação à marca atraiu a atenção de grandes instituições e associações. Ela é frequentemente convidada para ministrar palestras e oficinas. Para Flávia, o upcycling representa essa conexão entre a educação ambiental e o seu produto, sendo uma forma de mostrar a importância de valorizar aquilo que os seres humanos tiram do meio ambiente. "O upcycling é o que nos dá essa possibilidade de ver a potência que tem esses materiais. Eu valorizo toda a história dele", pontua.
Principais produtos
Atualmente, parte das peças são divididas em coleções baseadas na origem dos materiais, como a coleção Louças de Família produzida com, fragmentos de porcelanas de antiquários e a beachcombing, só com resíduos rolados por rios ou mares. Os valores podem variar considerando métodos de produção e origem da matéria-prima. Os brincos de azulejo, produtos que nomeiam a marca, podem chegar a custar R$ 140,00, anéis de azulejo, R$ 103,00, e colares de tecido R$ 350,00. Os itens afetivos feitos a partir de encomenda variam entre R$ 78,00 e R$ 124,00. O produtos estão disponíveis na Loja Andaime, na Casa de Cultura Mario Quintana, assim como outros pontos físicos permanentes e temporários em Porto Alegre.

