O painel RS Criativo: O papel das residências criativas na carreira empreendedora integrou a programação do World Creativity Day 2026 nesta quarta-feira (22). O encontro abordou as dificuldades, os aprendizados e a transformação do mercado da indústria criativa na visão de empreendedores que passaram pelo ciclo de residência do RS Criativo — programa do governo do Estado, alocado na Secretaria de Cultura, que auxilia empreendedores de diversas áreas criativas a transformarem suas ideias em negócios estruturados, além de auxiliá-los a se reconhecerem como parte dessa indústria.
A mediação ficou a cargo de Juliana Sehn, coordenadora do programa, e contou com a presença de Bruno dos Anjos (produtor cultural e audiovisual), Cláudia Carvalho (designer de joias biofílicas — peças artesanais em madeira criadas a partir do reaproveitamento de resíduos), e o casal Giovani Urio (designer e artista gráfico) e Vitor Diel (jornalista, editor e curador).
Abertura do painel
Juliana abriu a conversa com uma questão pertinente para quem já empreende ou está em busca de abrir o próprio negócio: como materializar uma ideia e, principalmente, como monetizá-la?
Cláudia, que antes atuava como funcionária pública, comenta que sempre foi uma pessoa criativa. Insatisfeita com a rotina, criou a De Carvalho Estúdio (@decarvalho_estudio), espaço que produz joias biofílicas em madeira reutilizada. "Onde eu não posso criar, eu não fico", enfatiza.
O programa de residência permitiu que a empreendedora mapeasse suas próprias limitações e forças antes de sequer pensar em formatar um plano de negócios. "Gosto de dizer que entrei no ciclo artesã e saí designer de joias, porque ali eu vi que precisava me entender, me conhecer", relembra.
Para ela, a lição mais valiosa que tira do empreendedorismo criativo é essencialmente humana e parte do planejamento. "Se tu não sabes quem tu és, tu não sabes para onde vais", alega.
Trabalho independente e profissionalização
Não é de hoje que o empreendedor é responsável por alavancar o próprio negócio, na maioria das vezes sozinho. Nessa linha, os empreendedores Vitor e Giovani, donos da Literatura RS (@literaturars), estúdio de produção de conteúdo e divulgação da literatura produzida e editada no Rio Grande do Sul, comentam a rotina intensa.
"Quando a gente é independente, a gente faz tudo sozinho. A gente passa pano no chão, tira o lixo do banheiro, faz o feijão, responde e-mail, faz artes, edita texto e faz tudo sozinho", brinca Vitor.
O empreendedor conta que o projeto surgiu como uma página de Facebook e logo se abriu para novos caminhos visando a rentabilização. Ele explica que a residência foi crucial para que os dois criassem uma esteira de produtos reais e precificassem seus serviços. Eles passaram a oferecer curadoria para eventos, assessoria de imprensa especializada e newsletters, garantindo a sobrevivência da plataforma.
Além da grana, o modo de agir vai além da veia criativa: a seriedade na hora de tratar o projeto é essencial. "Busquem alguma forma de profissionalização. Não basta a gente ter amor pelo nosso trabalho, paixão pelo nosso trabalho. Às vezes, a profissionalização está na maneira como você manda um e-mail", declara Vítor.
Sugestões e melhorias no programa
A coordenadora do RS Criativo deu espaço aos já experientes na residência criativa para sugestões em relação ao que pode melhorar durante a caminhada trilhada no ciclo de residência.
Um dos apontamentos que teve destaque foi de Bruno dos Anjos, produtor cultural e criador do OCorre Lab (@ocorre.lab), laboratório de criação musical que oferece soluções fonográficas, audiovisuais, de produção e design para artistas, marcas, instituições culturais e selos independentes.
Bruno argumentou que o Estado poderia estabelecer subsídios de curto prazo (2 a 3 meses) para ajudar pequenas empresas criativas a contratarem estagiários ou assistentes. Segundo ele, isso aliviaria a carga do empreendedor e inseriria jovens formalmente no mercado cultural, provando que "música e cultura são uma profissão".
"Como produtora cultural, a gente recebe muitos currículos de pessoas interessadas em trabalhar com música, shows e literatura, especialmente jovens que veem esse mercado como algo atrativo. Ao mesmo tempo, enxergamos a possibilidade de experiências temporárias ou de subsídio que ajudem tanto a empresa quanto os profissionais a entenderem, na prática, como funciona o trabalho e se vale a pena seguir nessa área", avalia o empreendedor, argumentando que o peso de ter uma equipe extra, por mais que novata, torna-se um alívio nas demandas e processos da empresa.
Indústria criativa e transversalidade
Juliana ainda tocou no quesito da transversalidade do setor criativo. Ela argumenta que o cenário no RS é ditado por nota técnica do Estado, garantindo que mais de 90 ocupações de trabalho façam parte do ecossistema criativo.
Ela recorda do case de Cláudia, afirmando que empreendedores possuem uma certa dificuldade em enxergar o negócio deles como criativo. O mercado de comunicação encontra-se na mesma linha.
"Apesar de se entenderem enquanto criativos, eles não se veem enquanto parte de uma indústria", reflete.

