Localizada na Região Central do Estado, Santa Maria é uma cidade universitária com cerca de 300 mil habitantes. Conhecida por atrair jovens em busca de ensino superior, o município vem se destacando também por sua vocação para a inovação. Há quase 30 anos, Santa Maria vem operando um ecossistema colaborativo voltado ao desenvolvimento tecnológico e empreendedor. Em 2024, esse esforço conjunto foi reconhecido nacionalmente em um concurso realizado em Petrolina (PE), o município foi eleito o ecossistema de inovação mais maduro do Brasil.
"Nosso ecossistema foi identificado pelo Sebrae nacional como o mais robusto, mais estruturado. Este é o resultado de um trabalho em conjunto de muitos atores, CPFs, CNPJs e instituições que trabalham juntos", afirma Ronie Gabbi, secretário de desenvolvimento econômico e inovação de Santa Maria.
A cidade conta atualmente com três parques tecnológicos, sendo dois vinculados às universidades locais, Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e Universidade Franciscana, e um terceiro fruto de uma associação entre a prefeitura, instituições de ensino e entidades privadas. "Esses parques já construíram mais de 120 CNPJs de vários eixos dentro da indústria tecnológica", destaca Ronie.
No centro dessa rede está o Inova Centro, estrutura que fortalece a articulação entre governo, academia, empresas e sociedade civil organizada. Cerca de 81 startups estão integradas ao ecossistema, atuando em setores como alimentação, saúde, educação, agronegócio, energia, games e fintechs. "É um suporte que vai da maturação desses negócios até deixá-los preparados para o mercado", explica o secretário. "Nesse ecossistema, quatro hélices funcionam, são elas universidades, governo, capital privado e sociedade."
Além da estrutura técnica, Santa Maria investe em cultura empreendedora por meio de eventos e formações. Um exemplo disso é o Santa Summit, evento anual que promove a conexão entre os municípios da região central do Estado. A próxima edição ocorrerá nos dias 25 e 26 de setembro. Em sua última realização, o Santa Summit contou com mais de 100 palestrantes e organizou o Fórum da Reconstrução, em resposta às enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul.
Outro pilar do ecossistema é a economia criativa. Santa Maria desenvolveu um trabalho identitário que mapeou elementos da cidade como bioma, gastronomia, religiosidade e cultura, resultando em uma iconografia local. "Esse trabalho entregou uma paleta de cores e opções para a indústria criativa. Uma marca criou semijoias inspiradas nos vitrais da catedral, outra desenvolveu uma coleção têxtil baseada na arquitetura da Vila Belga", exemplifica Ronie.
Entre os espaços que fomentam a educação empreendedora está o Centro Municipal de Inovação e Empreendedorismo Criativo EduTech, localizado no Mercado da Vila Belga. O espaço promove oficinas, eventos e formações voltadas a professores e alunos da rede pública, aliando tecnologia, inovação e pedagogia. No mesmo local, funciona o LabCriativo, com cursos gratuitos sobre empreendedorismo, criatividade, marketing e gestão, em parceria com o Sebrae.
O secretário aponta que Santa Maria vive o desafio de lidar com uma população flutuante, composta por cerca de 45 mil pessoas ao ano, formada por estudantes e militares. "Santa Maria preparava gente, mas esse povo ia embora. Então começamos a estudar formas de reter essas pessoas, entender a classe criativa, que é inquieta, criativa e provocada pelo ambiente de ensino que vive ali."
A cidade, segundo Ronie, precisa entender que não tem estrutura para atrair grandes indústrias, mas tem potencial para formar milhares de pequenos negócios. "É muito mais fácil impactar a economia com muitos CNPJs do que com uma grande empresa. E, para isso, precisamos adaptar nossa cultura empresarial à lógica da criatividade."
O secretário explica que esse movimento envolve quebrar paradigmas. De acordo com ele, a classe criativa não se prende a altos salários se o ambiente de trabalho for hostil. "Ela precisa se sentir bem. Se não se sentir, vai embora, mesmo ganhando bem", afirma ele, enfatizando que empresas locais precisam repensar seus métodos e horários de trabalho, olhando para a valorização da qualidade de vida, clima organizacional e liberdade criativa.
Para ajudar nesse processo de transição cultural, o município implementou o programa Cidade Empreendedora, com diversos eixos de atuação, como valorização das empresas locais e qualificação empresarial. A iniciativa busca sensibilizar os empreendedores sobre a importância de adaptar suas práticas a uma nova geração de profissionais criativos.
Com uma população economicamente ativa de cerca de 150 mil pessoas e uma massa flutuante que representa quase 40% desse total, Santa Maria trabalha para oferecer um ambiente acolhedor e atrativo para quem deseja empreender e viver na cidade. "Temos que cuidar de tudo isso para que esse povo realmente queira ficar aqui. Porque ele só vai ficar se gostar. Se não, ele vai embora."

