No sétimo dia da 49ª Expointer, a plateia quase nula diante da Pista Central do parque de exposições Assis Brasil, em Esteio, destoou do tamanho dos problemas abordados na tribuna de honra. Na abertura oficial da mostra agropecuária, nesta sexta-feira (4), o endividamento, a dificuldade de acesso ao crédito e a incerteza sobre a próxima safra ocuparam boa parte de uma cerimônia que acabou traduzindo o ambiente de apreensão percebido ao longo da semana.
A imagem não permite, sozinha, medir o desempenho de uma feira que continua mostrando vigor em genética, pesquisa, tecnologia e agricultura familiar. Mas se soma aos sinais colhidos entre expositores e instituições financeiras. Pelo segundo ano consecutivo, o mercado de máquinas e implementos enfrenta negócios retraídos.
Fabricantes relataram negociações mais lentas e bancos perceberam maior cautela do produtor, redução dos valores financiados e tíquetes menores. O investimento perdeu força justamente quando parte do campo ainda tenta reorganizar dívidas acumuladas depois de sucessivas perdas climáticas.
Questionado pelo Jornal do Comércio sobre quanto o resultado da Expointer poderia ajudar a demonstrar o tamanho da crise, o governador Eduardo Leite pontuou: não é o volume de negócios da feira que sustenta sozinho esse diagnóstico. “A própria demonstração da situação da tomada de crédito junto aos bancos chancela o quanto os produtores estão com o desafio de financiar suas próximas safras.”
É nesse ponto que o passado começa a comprometer o próximo ciclo. O presidente do Sistema Ocergs, Darci Hartmann, alertou que a recomposição dos preços pode oferecer uma oportunidade, mas encontra produtores inseguros sobre a compra de insumos e o plantio. “O produtor precisa resolver o seu passado, para que ele possa se habilitar, para que nós possamos fazer os financiamentos e aproveitar este momento”, afirmou. E resumiu a urgência: “A Mãe Natureza não espera.”
Solenidade aconteceu em ambiente de fraca mobilização do setor
Dani Villar/Especial/JC
O presidente da Fetag-RS, Eugênio Zanetti, mostrou outra face do mesmo problema. Segundo ele, muitos agricultores fizeram um “verdadeiro contorcionismo financeiro” para permanecer adimplentes: renegociaram compromissos, consumiram recursos próprios, buscaram crédito comercial, postergaram investimentos, comprometeram patrimônio e recorreram a limites bancários. “Chegamos a essa Expointer sabendo que o campo vive um momento que exige muito mais que comemorações, exige decisões.”
Foi também o endividamento que deu o tom político à abertura. E, justamente em uma Expointer na qual a busca por uma solução mobilizou entidades, parlamentares e sucessivas reuniões, o governo federal teve uma representação mais restrita. Coube à ministra do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Fernanda Machiaveli, no cargo desde março, representar o Executivo federal na cerimônia.
A ausência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do vice Geraldo Alckmin foi cobrada pelo presidente do Sistema Farsul, Domingos Velho Lopes, que manifestou “inconformidade e insatisfação” e voltou a pedir uma solução para as dívidas. Machiaveli respondeu com uma defesa das políticas federais. Repassou ações adotadas desde 2023, citou os volumes dos Planos Safra, crédito emergencial, rebates após as enchentes e a medida provisória de renegociação.
Também afirmou que o Banco do Brasil já começou a operacionalizar a composição das dívidas. Não houve, porém, anúncio de nova medida para os pontos que as entidades gaúchas ainda consideram sem resposta.
Leite também entrou na divergência. Definiu a situação do produtor como resultado de uma “combinação perversa” entre adversidades climáticas e juros elevados. Defendeu ajustes na renegociação, mas atribuiu o custo do dinheiro ao desequilíbrio das contas federais e criticou a parcela crescente de recursos livres, sujeitos às taxas de mercado, no financiamento rural.
O contraste entre dificuldade financeira e capacidade produtiva talvez seja a imagem mais fiel deixada pela Expointer de 2026. Enquanto o debate econômico permaneceu preso às dívidas e à necessidade de recuperar crédito, pistas e estandes mostraram animais de alto padrão genético, pesquisa e tecnologias voltadas a produzir mais e reduzir riscos.
Leite observou que a feira pode ser medida de maneiras diferentes e “sempre” é um sucesso. “Quando há tempo favorável, quando é tempo de bonança, aqui se fecham contratos, se movimenta a economia (...) Quando os tempos são difíceis, a Expointer também é um sucesso, porque ela ajuda a promover aqui debates, discussões que são fundamentais para o desenvolvimento do agronegócio.”
Nesta edição, prevaleceu a segunda face. A Expointer mostrou um agro que continua capaz de produzir, inovar e olhar adiante, mas que chega ao fim da feira ainda tentando encontrar fôlego financeiro para transformar esse potencial em uma nova safra.