A poucos dias do início do plantio da safra de verão, parte dos produtores gaúchos ainda faz contas para definir quanto poderá investir nas lavouras. Uma orçamentação da Farsul para uma propriedade típica de Carazinho, no norte do Estado, indica custo total de R$ 7.611,38 por hectare de soja e R$ 11.071,28 por hectare de milho. Para cobrir esses valores, seriam necessários preços de R$ 124,78 pela saca de soja e R$ 69,20 pela de milho, consideradas produtividades de 61 e 160 sacas por hectare, respectivamente.
Os números são do Projeto Campo Futuro, parceria entre Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) e Farsul. A federação ressalva que ainda não dispõe de um custo fechado para a safra 2026/2027. Trata-se de uma orçamentação feita a partir de uma propriedade de referência e, portanto, não representa o custo médio do Rio Grande do Sul.
A pressão financeira já aparece na forma como agricultores familiares estão preparando a nova temporada. O vice-presidente da União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária no Rio Grande do Sul (Unicafes-RS), Lecian Conrad, relata que produtores que costumavam antecipar e programar a aquisição de insumos passaram a postergar as compras.
“Os produtores têm deixado para comprar mais da ‘mão pra boca’, ou seja, somente na hora que realmente vão utilizar o insumo”, afirma.
O comportamento, acrescenta, cria também um desafio logístico para cooperativas e fornecedores, que precisam garantir a entrega no momento em que o agricultor decidir pela compra.
Ao longo do ano, segundo Conrad, os relatos recebidos pelas cooperativas apontavam intenção de reduzir investimentos. Uma melhora recente dos preços dos grãos, porém, pode levar parte dos produtores a rever essa decisão. Ainda assim, ele confirma que mesmo agricultores dispostos a preservar a área de cultivo avaliam diminuir o desembolso por hectare.
A cautela resulta da combinação de preços dos grãos, insumos ainda relativamente caros, juros elevados e perda de capacidade financeira depois de sucessivos problemas climáticos. “Em 2026 isso se agravou, pois temos a convergência de diversos fatores que impactam a atividade”, afirma Conrad.
A percepção das cooperativas coincide com o cenário identificado pela assistência técnica. O diretor técnico da Emater/RS-Ascar, Matheus Rocha, afirma que produtores já vinham readequando as lavouras diante das dificuldades financeiras, com redução do nível tecnológico, menor aquisição de insumos e, em alguns casos, utilização de sementes próprias.
Para as cooperativas da agricultura familiar, o problema não está necessariamente na quantidade de recursos disponibilizada pelo Plano Safra. Conrad considera o volume satisfatório e diz que o dinheiro chegou no momento adequado. A dificuldade está em conseguir acessá-lo.
Parte dos produtores ainda tenta resolver passivos justamente quando deveria estar contratando o financiamento da nova lavoura. Segundo o dirigente, agricultores com dívidas bancárias precisam concluir a repactuação para recuperar limites de crédito. Sem isso, ficam impedidos de contratar novas operações ou têm acesso a valores menores.
As garantias exigidas pelos bancos aparecem como outro obstáculo. Conrad afirma que, diante do grau de endividamento acumulado, há associados que já não dispõem de garantias reais para oferecer nas renegociações. Ele acrescenta que as regras da medida provisória criada para a repactuação também deixam produtores sem enquadramento.
Cooperativas assumem mais risco
O cenário não é uniforme. Para agricultores que atravessaram as últimas safras sem acumular passivos significativos, Conrad avalia positivamente as condições do Plano Safra, citando redução de juros e, em determinadas situações da agricultura familiar, diminuição da alíquota do Proagro.
A dificuldade dos demais, entretanto, começa a deslocar parte da demanda por financiamento para as próprias cooperativas. Conrad afirma que vem aumentando nos últimos anos a procura de associados por crédito diretamente nessas organizações quando o recurso oficial não está disponível.
Isso exige mais capital de giro das cooperativas, que financiam os insumos e aguardam o pagamento até a colheita. Na prática, passam também a carregar uma parcela maior do risco da safra, especialmente o climático. Segundo Conrad, uma das alternativas buscadas para reduzir essa exposição é a contratação de seguros no mercado privado.
A equação ajuda a explicar por que a decisão sobre a safra 2026/2027 não se resume a plantar ou deixar de plantar. Para parte dos agricultores, a área pode permanecer, mas com menos investimento por hectare. E, para outros, a possibilidade de implantar a lavoura ainda depende de resolver as dívidas da temporada anterior e recuperar acesso ao financiamento.