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Publicada em 01 de Setembro de 2026 às 13:10

Safra gaúcha pode crescer 8,6% em meio a crédito restrito e El Niño

Matheus Rocha detalhou as estimativas para as principais culturas de verão do Rio Grande do Sul

Matheus Rocha detalhou as estimativas para as principais culturas de verão do Rio Grande do Sul

FERNANDA DAVOGLIO/ESPECIAL/JC
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Claudio Medaglia
Claudio Medaglia Repórter
A safra de verão gaúcha começa com uma conta aparentemente difícil de fechar. Com produtores enfrentando restrições de crédito, possibilidade de redução do investimento nas lavouras e um El Niño que deve trazer chuva acima da média na primavera, a Emater/RS-Ascar projeta aumento de 8,6% na produção de grãos em 2026/2027.
A safra de verão gaúcha começa com uma conta aparentemente difícil de fechar. Com produtores enfrentando restrições de crédito, possibilidade de redução do investimento nas lavouras e um El Niño que deve trazer chuva acima da média na primavera, a Emater/RS-Ascar projeta aumento de 8,6% na produção de grãos em 2026/2027.
Se a estimativa inicial se confirmar, o Rio Grande do Sul colherá 35,6 milhões de toneladas de arroz, feijão, milho e soja, ante 32,8 milhões de toneladas no ciclo passado. O avanço esperado não virá de mais terra cultivada, mas da recuperação projetada da produtividade, principalmente da soja. 
A aparente contradição está na metodologia da projeção. A produtividade inicial não resulta de uma avaliação sobre quanto o agricultor conseguirá investir nesta safra, mas de uma tendência estatística calculada a partir das produtividades médias municipais dos últimos dez anos. A área, por sua vez, é apurada a partir de levantamentos realizados pelos escritórios municipais da Emater.
Se tudo correr bem, é isso”, resume o diretor-presidente da Emater/RS-Ascar, Claudinei Baldissera. Segundo ele, fatores econômicos como a restrição de crédito não entram diretamente no cálculo inicial. Por isso, a estimativa será ajustada conforme as condições efetivamente encontradas ao longo do ciclo.
Na soja, principal cultura de verão do Estado, a área deve recuar 0,92%, para 6,6 milhões de hectares. A produtividade inicial, porém, é calculada em 3.183 quilos por hectare, 16,37% superior à temporada passada. Com isso, a produção pode saltar para 21,1 milhões de toneladas, alta de 15,32%.
O milho segue direção diferente e deve ampliar a área pelo terceiro ciclo consecutivo. A Emater estima 896,4 mil hectares, avanço de 7,42%. Como a produtividade projetada, de 7.711 quilos por hectare, fica praticamente estável (-0,25%), o aumento de área levaria a produção a 6,91 milhões de toneladas, 7,18% acima da safra anterior.
O diretor técnico da Emater, Matheus Rocha, relaciona o crescimento do cereal à busca por maior segurança diante das adversidades climáticas e às políticas públicas de incentivo à cultura. Ele pondera, entretanto, que a proximidade entre os cerca de 62 mil hectares acrescentados ao milho e os 62 mil hectares retirados da soja não permite concluir que esteja ocorrendo uma simples migração entre as duas culturas.
No arroz, cuja intenção de plantio foi levantada pelo Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), a área deve diminuir 3,4%, para 861,8 mil hectares. A Emater calcula produtividade inicial de 8.741 quilos por hectare, 2,21% inferior à da temporada passada, o que levaria a produção a 7,53 milhões de toneladas, retração de 5,49%.
O feijão da primeira safra também perde espaço. A área deve cair 6,36%, para 24,6 mil hectares. A produtividade projetada, entretanto, cresce 8,1%, para 1.759 quilos por hectare, permitindo uma produção de 43,2 mil toneladas, 1,2% superior.
Se a recuperação da produtividade sustenta a projeção de uma safra maior, o clima será uma das principais variáveis para determinar até onde esse potencial poderá ser alcançado. O meteorologista Flávio Varone, da Secretaria da Agricultura, apresentou durante o evento uma perspectiva de El Niño forte ou muito forte, com precipitação acima da média durante a primavera.
Varone ressalva que a intensidade do aquecimento das águas do Pacífico não pode ser traduzida automaticamente em eventos meteorológicos de igual intensidade no Rio Grande do Sul. Os impactos dependem da interação do fenômeno com outros sistemas atmosféricos e precisam ser acompanhados pelas previsões de menor prazo.

Clima e crédito desafiam projeção

Para as lavouras, porém, há riscos já identificados. O cenário apresentado pelo Sistema de Monitoramento e Alertas Agroclimáticos do Rio Grande do Sul (Simagro-RS) aponta possibilidade de atraso na semeadura das culturas de verão. Temperaturas e umidade elevadas podem favorecer doenças, enquanto o excesso de chuva pode aumentar a pressão sanitária, reduzir a luminosidade e dificultar as operações no campo.
A maior disponibilidade de água não é necessariamente negativa. Rocha observa que, se as chuvas forem bem distribuídas ao longo do ciclo, podem favorecer a recuperação dos rendimentos, especialmente depois de uma temporada em que estiagens atingiram algumas regiões do Estado. O problema está no momento e na intensidade das precipitações.
A questão financeira acrescenta outra incerteza. Segundo Rocha, a dificuldade de acesso ao crédito já vinha provocando uma readequação entre produtores na safra anterior e pode levar à redução do pacote tecnológico empregado nas lavouras. “O produtor gaúcho acaba ajustando e baixando a tecnologia da lavoura, mas fazendo a sua produção”, afirma.
Segundo ele, a dificuldade para financiar a atividade pode resultar em menor aquisição de insumos e até na utilização de sementes próprias. A alternativa permite reduzir desembolsos, mas está distante das condições consideradas ideais pela assistência técnica.
Por isso, apesar do potencial estatístico de recuperação da produção, a própria Emater trata os números divulgados na Expointer como o ponto de partida de uma safra sujeita a ajustes. “Não temos espaço para erros este ano. Temos muitas dificuldades nas questões de acesso a financiamentos, e isso faz com que o produtor rural esteja com suas margens bastante apertadas”, resume Rocha.

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