A maior abertura do mercado brasileiro aos produtos europeus deve ampliar a concorrência enfrentada pelas cooperativas gaúchas, especialmente nos setores de lácteos, queijos, vinhos e espumantes. A avaliação é da professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Kelly Bruch, em entrevista ao Jornal do Comércio.
O tema foi abordado nesta segunda-feira, durante o Conexão de Negócios, promovido pelo Sistema Ocergs na Casa do Cooperativismo, na Expointer. Com aplicação provisória desde maio, o acordo reduz gradualmente as tarifas entre os blocos. Segundo Kelly, a União Europeia enfrenta baixo crescimento e possui excedentes de produção que podem ser direcionados ao Brasil, considerado um mercado mais dinâmico.
“Há uma tendência de os produtos europeus virem em maior quantidade para cá. Isso pode ser um grande desafio, especialmente para as cooperativas”, afirma.
A pesquisadora identifica maior exposição nos setores lácteo e vitivinícola. Além da redução tarifária sobre importados, as cadeias serão afetadas pelas novas regras de proteção às indicações geográficas europeias. Em contrapartida, a abertura facilita o acesso dos produtos brasileiros à União Europeia.
O País tem como vantagens a qualidade dos alimentos e custos geralmente inferiores aos europeus. O ingresso naquele mercado, contudo, exige o atendimento a normas técnicas, sanitárias e fitossanitárias.
“Talvez o nosso grande desafio seja divulgar o quão bons ou melhores são os nossos produtos em relação aos europeus”, observa.
O evento também teve a participação de Marcelo Fogaça, especialista em trade marketing e desenvolvimento comercial, que tratou de estratégias para ampliar as vendas das cooperativas.
Um dos principais efeitos do acordo será a proteção conferida às indicações geográficas. A União Europeia passou a ter 344 denominações reconhecidas no Mercosul, enquanto 37 indicações brasileiras receberão proteção no mercado europeu.
Kelly explica que uma “lista viva” permitirá propor o reconhecimento mútuo de novas indicações. Ao analisar apenas esse capítulo, porém, considera que o resultado não foi equilibrado. “As indicações geográficas foram uma moeda de troca para que outros produtos pudessem acessar o mercado europeu com tarifa menor”, explica.
A pesquisadora ressalva que isso faz parte de uma negociação ampla, na qual cada bloco faz concessões para obter ganhos em outras áreas. O resultado traz consequências para produtores brasileiros que utilizam denominações agora protegidas como europeias.
Entre os exemplos estão Prosecco e Bordô. No primeiro caso, produtores brasileiros terão de substituir gradualmente o nome da variedade por glera. A uva Bordô, utilizada em vinhos de mesa e sucos, também terá período de adaptação devido à proteção da indicação francesa Bordeaux.
No setor de queijos, expressões como Roquefort e Gorgonzola passam a obedecer a regras específicas. Há períodos de transição e casos em que empresas que já empregavam os nomes de boa-fé poderão mantê-los, desde que cumpram as condições previstas e deixem clara a origem do produto.
Para Kelly, a reação das cooperativas não deve se limitar à defesa contra os importados. A estrutura coletiva dessas organizações favorece as indicações geográficas, pois reúne produtores em torno de um território e de formas de produção compartilhadas.
“É a hora de aprender a trabalhar com valor agregado, produtos de nicho e indicações geográficas. Um quilo de soja é um quilo de soja de qualquer lugar do mundo, mas o queijo serrano só tem na região dos Campos de Cima da Serra”, compara.
A pesquisadora avalia que essa estratégia pode fortalecer os produtos regionais no Brasil e nas exportações, sobretudo entre consumidores de médio e alto poder aquisitivo. “Vamos enfrentar uma concorrência grande aqui e precisamos nos preparar. Mas também é uma oportunidade de aprender a trabalhar com valor agregado”, conclui.