“Tenho a impressão de que não faço quase nada”, diz
Samanta Flôor, ao ser questionada sobre como consegue lidar com tantos projetos ao mesmo tempo. Não é falsa modéstia: ela realmente acredita que poderia produzir mais. Mas basta uma rápida pesquisada no site
www.samantafloor.com.br para perceber que baixa produtividade nunca foi um problema para essa porto-alegrense de 46 anos.
Quadrinista, cartunista, ilustradora de livros infantojuvenis, tatuadora, retratista ao “estilo cartum”... Samanta já foi tudo isso e mais um pouco. Deixou de lado as duas últimas atividades — pelo menos, por ora —, mas não sem se envolver em novas empreitadas. Entre elas, a
newsletter Da minha mesa de desenho e a Bekopaper, uma papelaria artesanal em parceria com seu pai. Independentemente do formato, o importante para a artista é fazer o que mais ama: contar histórias através das imagens. “Sempre trabalhei com desenho, o que considero um baita privilégio”, observa.
Quando nasceu essa paixão? Ela não lembra exatamente, mas diz que foi graças ao pai, Carlos “Beco”, e à mãe, Maria Luiza. “Como éramos três crianças em um apartamento, eles precisavam descobrir um jeito de nos entreter”, ri. “
Fomos muito estimulados a explorar nosso lado artístico. Apenas eu segui esse caminho profissional, mas meus irmãos (Carlos e Diego) desenham até hoje.”
Além de desenhar, Samanta lia bastante. No começo,
Turma da Mônica e O Menino Maluquinho eram as principais referências. Ao fuçar o acervo de quadrinhos do pai, descobriu O edifício, de Will Eisner — provavelmente a primeira HQ adulta que prendeu sua atenção. Mas o que mais a marcou, na época, foi a obra de Neil Gaiman.
“Lá pelo início dos anos 1990, viajávamos de Pelotas para Porto Alegre e um dos passeios de que mais gostávamos era até a (extinta loja) Planeta Proibido. Na verdade, eu ia pelos jogos de RPG, mas, ao ler Sandman, foi tipo “uaaau!”. Daí comecei a colecionar”, explica.
Aqui cabe um parêntese para situar os leitores e leitoras: embora tenha nascido na Capital, desde cedo a artista
criou um forte vínculo com Pelotas, por conta das raízes familiares. Seus pais foram para Porto Alegre quando Beco passou em um concurso do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE). Logo que surgiu a oportunidade, ele pediu transferência para a cidade natal.
Na Capital Nacional do Doce, Samanta fez uma escolha muito comum entre os aspirantes a desenhista:
resolveu cursar Arquitetura. Também pesou a favor da decisão o fato de que a FAUrb (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFPel) ficava perto de sua casa. Como os desenhos que queria criar não eram exatamente plantas de edifícios, na metade do curso ela já havia entendido que não exerceria a profissão: “Volta e meia eu pensava: ‘acho que tô no lugar errado’. Nem sei como passei nas matérias relacionadas à Física!”.
Depois que concluiu a graduação, ficou um pouco perdida.
“Tinha medo de morrer de fome vivendo só de desenho”, admite. Mesmo assim, tentou se arriscar na área de ilustração comercial. Trabalhou por algum tempo em um estúdio e saiu com contatos para fazer freelancers. Seu primeiro cliente na área? Uma fábrica de achocolatados.
“Eles mandaram umas fotos e eu fiz um desenho em cima, em que voava chocolate para todos os lados, sabe? Ficou muito ruim! Fora que eu não tinha noção de nada, não sabia nem quanto cobrar…”, recorda, aos risos.
O bom humor, aliás, parece ser a tônica de seu trabalho. Isso se traduz em uma identidade visual marcante — por vezes “fofinha”, por vezes sarcástica, a depender da obra a ser desenhada. “Samanta é uma das artistas mais engraçadas que conheço, com um senso de humor muito particular, um traço só dela e um talento daqueles que fazem parecer fácil o que não é”, elogia o roteirista Eric Peleias, da série de livros infantis Como Fazer Amigos (CFA).
Já
a ilustradora e cartunista Maurenn Veras vê na colega uma inspiração. Ela conheceu Samanta há cerca de 20 anos, quando ambas ainda estavam começando na profissão. “A Samantinha sempre foi referência pra mim, tanto por se destacar em uma área dominada por homens quanto pelo estilo de desenho, que eu amo. E, para além do aspecto profissional, é uma amiga muito querida”, afirma a criadora das Tiras da Mãe.
Para o escritor, roteirista e editor Lielson Zeni, o traço da quadrinista transborda personalidade — algo que todo mundo que trabalha com desenho deseja ter. “Você bate o olho na arte e sabe que é da Samanta. Os quadrinhos são divertidos, ela sabe rir de si mesma e falar de temas que são absolutamente contemporâneos.”