No dia 3 de julho deste ano, a arte musical brasileira perdeu um de seus mais importantes artífices. Marcos Abreu morreu em Porto Alegre, aos 64 anos, em decorrência de complicações de um câncer de pulmão. A notícia provocou comoção entre músicos, produtores, profissionais do áudio e artistas que reconheceram o desaparecimento de uma das maiores referências nacionais em acústica, restauração sonora e masterização.
O público talvez nunca tenha decorado seu nome, mas, ao longo de mais de três décadas de carreira, ouvintes do Rio Grande do Sul, do Brasil e, em muitos casos, de outros países tiveram contato com o resultado de seu trabalho. Abreu construiu uma trajetória marcada pela preservação e pelo aprimoramento de registros sonoros de diferentes épocas e linguagens musicais.
Quando um disco alcançava equilíbrio entre seus elementos, quando uma gravação histórica recuperava sua força original ou quando uma sala de concerto encontrava precisão acústica, havia o resultado de um trabalho técnico dedicado à qualidade e à identidade sonora de cada projeto.
Como explicou em entrevista ao radialista Márcio Gobatto, apresentador do programa Ficha Técnica, irradiado pela Fundação Piratini e FM Cultura: "O som em uma sala pública precisa abraçar o espectador. Projetar acústica é domar o eco."
O compositor Vitor Ramil traduziu a dimensão da perda ao despedir-se do amigo, lembrando sua discrição, generosidade e dedicação à cultura. Em sua homenagem, escreveu: "Marcos Abreu foi discreto, fino e generoso até a hora de partir. Não dividiu com nenhum amigo as dores de toda ordem que certamente sentiu. Sabia da avareza de quem sempre dividiu seu afeto, conhecimento e trabalho com tanta gente, fazendo tanto por tudo e todos, marcando profundamente nossa arte, cultura e educação. E agora, Marcos? Há uma sobra de grave nisso tudo. A saudade é uma sala imensa. Continuaremos contando contigo."
Thedy Corrêa, vocalista da banda Nenhum de Nós, também ressaltou a importância do profissional, definindo-o como "um cara de uma competência inquestionável, um mestre". Em mensagem publicada após o falecimento, afirmou: "Perdemos um grande amigo e uma das maiores referências em masterização do país. Marcos Abreu, descanse em paz."
Ao longo de três décadas de carreira, Marcos Abreu participou da produção de mais de seis mil discos e trabalhou com artistas de diferentes gerações. Também foi uma peça fundamental do Noize Record Club, projeto dedicado à valorização do vinil, no que atuava na aprovação das masters dos lançamentos e, em muitos casos, trabalhava diretamente nos processos de preparação sonora das edições.
Sua trajetória envolveu captação, mixagem, masterização, restauração e preservação sonora, com trabalhos ligados à Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, à música popular brasileira, ao rock rio-grandense e a importantes iniciativas de recuperação do patrimônio fonográfico.
Natural de Porto Lucena e criado em Bom Jesus, na Serra Gaúcha, descobriu cedo a paixão pelos sons. A convivência com os ensaios do grupo regionalista Os Serranos despertou um interesse que se transformaria em profissão. Graduado em Engenharia Eletrônica e Engenharia Eletricista, aprofundou sua formação em acústica aplicada, eletroacústica e processamento digital de sinais, incluindo aperfeiçoamento técnico na Inglaterra.
Mais do que um profissional do áudio, Marcos Abreu foi um guardião da memória musical. Sua trajetória uniu precisão científica, sensibilidade artística e respeito pelas obras que passaram por seu trabalho. Ele via a engenharia de som não apenas como uma técnica, mas como uma arte de revelar a essência.
Como registrou a jornalista Marta Schmitt, da FM Cultura: "O trabalho de remasterização exige um desapego do engenheiro. O segredo é limpar as impurezas do tempo sem roubar a alma da fita original."
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