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Publicada em 29 de Abril de 2026 às 13:43

Conjunto Flamboyant, a mais jazzista das bandas de baile gaúchas dos anos 1960

Conjunto porto-alegrense Flamboyant se destacou na década de 1960 pelo acento jazzístico e projeção de músicos no cenário internacional

Conjunto porto-alegrense Flamboyant se destacou na década de 1960 pelo acento jazzístico e projeção de músicos no cenário internacional

ACERVO MARCELLO CAMPOS/REPRODUÇÃO/JC
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Marcello Campos
O plano de montar uma banda é algo mais velho que o rock’n’roll. Reunir a rapaziada, ensaiar repertório, obter espaço, sucesso, grana, diversão e reconhecimento. Antes que o gênero musical norte-americano desembarcasse de vez em Porto Alegre, doses cavalares de energia juvenil eram investidas em um movimento que, embora não exclusivo da cidade, dela se tornou um dos emblemas culturais dos anos 1950: os conjuntos melódicos. Piano, acordeon, guitarra, contrabaixo, bateria, ritmo e voz, em uma versão ‘de bolso’ das orquestras que haviam dominado o cenário nas décadas anteriores. Sua combinação de repertório eclético e sonoridade suave serviu boa parte da trilha sonora de um tempo no qual dançar tinha status semelhante ao dos atuais aplicativos de relacionamento.

Dá para estimar em ao menos 80 o número de formações com esse perfil na capital gaúcha até a década seguinte. Em meio a uma maioria de duração fugaz, a projeção, longevidade e discos gravados destacariam os grupos de Norberto Baldauf (recordista, com quase 60 anos de atuação), Peixoto Primo, Renato Maciel de Sá, os conjuntos Flamingo e Flamboyant. Sobre este último há um status diferenciado na memória de quem viveu o período ou se dedicou a destrinchá-lo, devido a uma singularidade associada ao flerte com o jazz (de forma mais explícita que pelos concorrentes) e ao protagonismo como berço de talentos nacionais e internacionais. “Dessa cena toda, foi o maior exportador de integrantes, inclusive para fora do País”, confirma o músico e pesquisador Arthur de Faria.

Nada de extraordinário teve o início dessa história, deflagrada em 1959 por três instrumentistas de eventos, boates e rádios locais. De olho nas oportunidades de trabalho em um mercado então praticamente inesgotável, Norberto ‘Alemão’ Rockstroh (acordeon), Arnoldo ‘Ciganinho’ Barbosa (guitarra) e Sadi Silva (contrabaixo) se apresentavam como trio e depois acrescidos de André Sebenello (piano), Vladimir ‘Bigode’ Lattuada (sax, flauta), Nilton Baraldo (bateria) e Nei Junqueira (ritmo). Estavam convictos de tudo – menos do nome do hepteto, e aí está o primeiro fato pitoresco envolvendo o projeto. Em depoimento a pesquisadores em 2005, o colunista de jornal e disc-jockey Paulo Deniz (1939-2007) confirmaria a paternidade da ideia:

“Eles discutiam o assunto em um dos bancos da Praça da Alfândega quando me aproximei, à tardinha, já conhecendo quase todos ali. Inicialmente não quis me meter, mas, ao perceber o chão repleto de folhas perto da Rua da Praia, durante o outono, sugeri na mesma hora que batizassem o grupo de ‘Flamboyant’, por causa da árvore, bela e frondosa... Eles adoraram a ideia, que acabou vingando. Mas algum tempo depois, alertado por um conhecido que entendia de botânica e tal, fiquei sabendo que, na verdade, eu tinha visto um jacarandá ou algo do tipo. Mas já era tarde para voltar atrás, porque o sucesso dos guris foi meio rápido e o nome já estava circulando por toda parte”.

Passados três meses, entraram em ação novos padrinhos. Convidado pelo antenadíssimo Glênio Reis (1928-2014) a participar de seu programa Falando de Discos, na Rádio Farroupilha, o septeto caiu nas graças de um diretor artístico da emissora. “O contrato foi imediato e pouco depois já se apresentavam em todas as festas de auditório da PRH-2. Da curiosidade até o aplauso foi um passo”, frisou reportagem especial de página dupla na Revista do Globo em abril de 1961. Àquela altura, o Flamboyant – com algumas mudanças em seus componentes – já acrescentara a seu percurso artístico algumas mudanças de componentes, a atuação no elenco inaugural da TV Piratini e um dos melhores LPs de artistas gaúchos na época.

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