Márcio Pinheiro, especial para o JC
Estou saindo de um show no Theatro São Pedro e o poeta Luiz Coronel me aborda e diz: "Quero te dar um abraço e pedir para ser tema de uma das tuas reportagens para o Jornal do Comércio". Refeito do impacto de tão surpreendente (e talvez inescapável) pedido, prometi a ele que pensaria no tema e que dividiria a decisão com meus editores no jornal.
A solicitação de Luiz Coronel carregava em si, num único pedido, duas vaidades. A do poeta, que se acha merecedor de um texto no jornal; e a do jornalista - que encontra não apenas um leitor que admira seu trabalho, como alguém que se oferece para ser tema de uma reportagem.
Pouco mais de um mês depois dessa conversa, a entrevista se confirmou. Nada mais natural, então, que novamente a imodéstia estivesse em pauta, ainda mais pelo fato de o entrevistado ser também publicitário, outra atividade que, segundo ele, em alguns casos se caracteriza pela vaidade.
"Nasci humilde, tornei-me vaidoso e hoje acredito que novamente seja uma pessoa humilde", confessa Coronel, na conversa que tivemos numa quente tarde de inverno do início de julho.
O local da entrevista foi a casa onde ele vive há mais de 40 anos, sendo que há 12 ao lado de Catiana, sua companheira desde então. A casa é uma ampla e confortável moradia, localizada numa tranquila rua do bairro Petrópolis (o ex-senador Paulo Brossard era um dos vizinhos), com muitos quadros pelas paredes de nomes importantes das artes plásticas do Rio Grande do Sul como Danúbio Gonçalves, Nelson Jungbluth, Glauco Rodrigues ("Todos meus amigos", orgulha-se) e marcada por um entra e sai de pessoas, todas ligadas ao estafe do poeta, que movimenta um entourage de assessores.
Prestes a completar 85 anos (no próximo dia 16) - com cerca de 85 livros publicados, uma média de um por ano, aí contando o tempo em que nem alfabetizado era - Coronel tem muitos planos para os próximos tempos, inclusive retomar a atuação como conselheiro de um grupo empresarial que ele prefere ainda não identificar.
Com tanto por fazer, ao falar sobre se pensa na morte, Coronel responde: "Não perco o sono". Embora reconheça que a cada dia ele se sinta mais órfão de parentes e de amigos, Coronel tem uma crença maior. "A morte sempre nos ronda, mas a criação artística é o triunfo do homem sobre ela", analisa. "E a arte sempre sai vitoriosa."
Em busca da imortalidade
Com dezenas de livros publicados e contribuição significativa na música e publicidade, poeta segue cheio de projetos aos 85 anos
/EVANDRO OLIVEIRA/JC
Ser imortal está entre os objetivos que Luiz Coronel persegue para os próximos meses. Como há dois anos, ele agora também se prepara para repetir um desafio: se recandidatar a uma vaga na Academia Brasileira de Letras. "Voltarei", garante, "mas agora com sustentação política", adiantando o que pode ser o seu trunfo para conquistar o lugar. "Quando fui candidato pela primeira vez, fui alertado por um amigo acadêmico num chá na própria sede da Academia: 'Não te preocupa com os livros, com a obra literária. Aqui o que vale são as relações'". Coronel - talvez por ingenuidade, admite - não levou a sério o conselho do amigo, não fez as necessárias visitas aos acadêmicos e acabou sendo derrotado pelo jurista e escritor pernambucano José Paulo Cavalcanti Filho, 73 anos, que foi eleito novo imortal para ocupar a cadeira número 39, que Coronel almejava e que havia sido ocupada pelo ex-vice-presidente da República Marco Maciel.
Como compreendeu que a produção literária pode não ser decisiva - "Ultimamente a ABL elegeu candidatos que nunca tinham escrito livros, como a Fernanda Montenegro e o Gilberto Gil", lembra o poeta - Luiz Coronel entende que para entrar para Academia Brasileira de Letras sua candidatura deve simbolizar uma proposta de qualificar o debate literário. "Mais do que as visitações aos acadêmicos, a Academia deveria pautar a escolha de seus integrantes de outra forma", explica. "Com questionários, apresentações e sabatinas", sugere.
Essa capacidade do poeta e publicitário insistir no que acredita é reconhecida pelos que estão próximos dele. "O Luiz Coronel é incansável", avalia José Fogaça, ex-prefeito de Porto Alegre por dois mandatos, parceiro musical e amigo de Coronel há mais de cinco décadas. "São dezenas e dezenas de obras e escritos em prosa, poesia, contos infantis, memória, dicionários", completa. "Coronel está em todas", acrescenta a atriz Fernanda Carvalho Leite. "Ele escreve tanto para o público infantil - as crianças foram contempladas com livros distribuídos amplamente nas escolas públicas - quanto para os adultos: os causos gaúchos são hilários, sem contar a coleção Dicionário".
Fernanda ainda destaca: "A minha convivência com o Coronel sempre foi agradável, com muito afeto e respeito profissional. Vejo ele como um ser humano generoso, gentil, educado, espirituoso, alegre, crítico e com uma memória impressionante. Uma pessoa que gosta de reunir os amigos e desfrutar de uma boa comida, de boa música e de histórias divertidas. Uma pessoa que valoriza e celebra a vida trazendo poesia para o cotidiano nas relações humanas e cria constantemente ideias e projetos para produzir e levar arte para todo mundo".
"Eu costumo brincar com o Coronel dizendo que ele é o conteúdo e eu sou a forma", conta Simone Pontes, da TAB Marketing Editorial, encarregada de dar forma a muitos dos trabalhos do poeta, principalmente os produzidos de 2002, quando ele e ela se tornaram parceiros com o Dicionário Erico Verissimo.
Nascido em Bagé no inverno de 1938, Luiz Coronel ficou órfão de pai ainda cedo e, por esse motivo, acabou sendo criado distante dos irmãos, sendo adotado por tios. A falta de um lar por referência criou nele - na sua própria definição - uma síndrome de ninho que faz com que valorize os momentos caseiros e se sinta perdido depois de mais de uma semana fora de casa: "Viajo já com vontade de voltar".
O gosto pelas artes começou ainda na infância. "Havia na GYG4, emissora de rádio, um programa matinal de auditório. Numa das atrações, eu, com 10 anos, dancei um tango com a capa de um violoncelo. Ganhei um maço de cigarros Hudson e uma foto do Zorro", confessa o artista-mirim. A literatura entraria em sua vida quase em paralelo. "Meu primeiro poema foi escrito quando eu tinha sete anos e dediquei à professora".
Luiz Coronel chegaria a Porto Alegre como estudante, na década de 1950. Veio morar na Casa do Estudante, na rua Riachuelo, e para custear seus estudos vendeu polígrafos na porta dos cursos pré-vestibular. A boa capacidade de se comunicar chamou a atenção do diretor de um destes cursos, que o convidou para dar aulas de História e de Literatura.
O Golpe de 64 o pega em uma fase de envolvimento político, aproximando-se de figuras que, em poucos anos, formariam o MDB. Depois de concluir o curso de Direito, exerceu a magistratura no Rio Grande do Sul, de 1965 a 1970, sendo pretor em Canguçu e em Campo Bom. A poesia continuava sua amiga, mas logo uma nova forma de atuar profissionalmente entraria em sua vida.
Publicidade também pode ser poesia
Poeta mostra o Prêmio Agas, recebido por sua contribuição para a propaganda brasileira (2022)
/DIVULGAÇÃO/JC
A publicidade - responsável por boa parte de seus ganhos e pela divulgação de sua imagem nas últimas cinco décadas - começou a fazer parte do cotidiano de Coronel em 1971, quando ele fundou a Êxitus Publicidade, ao lado dos sócios Plínio Monte e Ricardo Campos. Na empresa, ele atuou como diretor de criação da agência até 1999, quando partiu para uma nova sociedade, agora com os publicitários Alberto Freitas e Roberto Philomena, fundando a Agência Matriz.
Na carreira publicitária, Coronel destacou-se pela crítica bem-humorada que fazia na época do auge da Rádio Continental ("Era uma das poucas maneiras que tínhamos de afrontar o regime", explica) e, posteriormente, como criador de textos marcados, segundo ele, por uma linguagem afetiva e poética, com a qual consolidou a propaganda e a imagem do grupo Zaffari. "Muitos dizem que eu sou o responsável pela 'zaffarização' da publicidade do Rio Grande do Sul", admite Coronel. E o que seria essa zaffarização? Ele responde: "É a capacidade de criar campanhas que passem ao público uma sensação poética e uma intimidade afetiva. É assim que eu vejo a publicidade". E lamenta: "Hoje a publicidade nada mais é do que uma legião de jovens ao redor do computador em busca de uma ideia. Não há emoção".
Quem não mostra valentia já na peleia se apaga
Em recital, ao lado de Deborah Finocchiaro e Sérgio Rojas (2018)
/Ivan Mattos/Especial/JC
Em paralelo aos primeiros lançamentos poéticos, com o livro Mundaréu, em 1973, Luiz Coronel já estava envolvido com a poesia de temática campeira, exaltando os cenários e os personagens do interior do Rio Grande do Sul. "A Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana me permitiu compor com Marco Aurélio Vasconcellos e com outros parceiros alguns clássicos do regionalismo, como é o caso de Gaudêncio Sete Luas, produzida em 1971". A música obteve o segundo lugar na Califórnia da Canção Nativa e, com o tempo, virou uma das mais conhecidas entre os músicos e entre o público. "Me envolver com o começo da Califórnia é um dos orgulhos que carrego", diz Coronel, reconhecendo que o evento, em seus primeiros anos, seria fundamental para o surgimento de uma nova geração de artistas, aí incluídos Bebeto Alves, Yamandú Costa e Renato Borghetti.
Pelos próximos anos, o festival continuaria presente na carreira do poeta e compositor, desde sempre admirador da obra de letristas mais urbanos, como Chico Buarque, Noel Rosa e Orestes Barbosa. Em 1973 seria a vez de Canto de Morte de Gaudêncio Sete Luas participar da competição e, em 1976, Cordas de Espinhos, outra composição de Coronel e Vasconcellos. Esta receberia o primeiro lugar na categoria de projeção folclórica, sendo também gravada pela cantora Fafá de Belém.
"A literatura poética de Luiz Coronel vem da sua formação de guri da fronteira, nascido em Bagé, cidade repleta de casos e causos, com aquele linguajar da última fronteira austral do Brasil. A Campanha tem léguas de campo e solidão e, ao mesmo tempo, um humor ardiloso, pitoresco", avalia José Fogaça. "Essa bagagem cultural dos pampas que o Coronel já carregava adquiriu moldes mais definitivos quando ele veio para Porto Alegre e aqui trabalhou como publicitário, professor de História, juiz de Direito e comunicador, o que acabou dando à poesia dele uma condição extremamente original, cheia de gauchidade."
Para este ano, Luiz Coronel ainda prepara novos projetos literários, como o Dicionário Simões Lopes Neto e o também Dicionário dedicado a Jayme Caetano Braun, payador cujo centenário será comemorado no ano que vem. Nos próximos dias, Coronel também lançará O Dia em que o Major Alarico virou Estátua, o quinto volume da Comédia Gaúcha. E, para o fim do ano, está previsto o livro Homo Zapiens, uma coletânea com 85 poemas e mais de 500 aforismos.
"Ler Fernando Pessoa é mergulhar num sublime labirinto"
Luiz Coronel: "Não gosto de livros de escritores para escritores"
/EVANDRO OLIVEIRA/JC
A seguir, Luiz Coronel destaca quem o inspirou e emocionou em sua trajetória literária:
1 - Qual o seu livro inesquecível?
O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo, por retratar, com nitidez e grandeza, a memória e história do Rio Grande.
2 – Qual seu trecho inesquecível?
O poema Amar (Que pode uma criatura senão/Entre criaturas, amar?Amar e esquecer, amar e malamar/Amar, desamar, amar?), de Carlos Drummond de Andrade, por sua densidade e patética sinceridade além de um domínio da arte poética.
3 – Qual o livro que mais o perturbou?
A obra poética de Fernando Pessoa, que li aos 18 anos. Em vez de maravilhar-me com a Constituição ou o Código Visível, pois ingressara na Faculdade de Direito, cai nas minhas mãos a antologia poética de Fernando Pessoa. E mergulhei naquele sublime labirinto.
4 – Qual o livro que você gostaria de ter escrito?
Apontamentos de História Sobrenatural, de Mario Quintana. É o Mario em pleno domínio de sua arte, optando pela profundidade mais do que pela leveza.
5 – Qual o personagem que você gostaria de ter criado?
Severino, de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, pela densa narrativa de uma tragédia humana.
6 – Qual o maior livro da literatura brasileira?
Grande Sertão: Veredas. A pessoalidade do estilo e criatividade do linguajar de Guimarães Rosa são insuperáveis.
7 – Qual o maior escritor da literatura brasileira?
Guimarães Rosa, sob o nexo de valor literário, e não de comunicabilidade.
8 – Qual o livro que você mais relê?
Cem Anos de Solidão, do colombiano Gabriel García Márquez, pela forma que pulsa a memória latino-americana em um texto que corresponde a uma epopeia.
9 – Qual o livro mais superestimado que você conhece?
Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Um livro com quatro séculos, mas parece ter sido escrito ontem, e por consagrar o sagrado direito de sonhar.
10 – Qual o livro mais subestimado que você conhece?
Ser ou Não ser Arte, de Danúbio Gonçalves. Era um amigo meu inquieto pela mentira que ronda a arte, principalmente na escultura e na pintura.
11 – Qual livro merece ser adaptado para o cinema?
A Comédia Gaúcha, para devolver o humor que o Brasil perdeu. Sem ser autopromotor, vislumbro um farto material cinematográfico nos cinco volumes da coleção.
12 – Qual livro foi adaptado para o cinema e o resultado foi frustrante?
O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo. O filme chegou ao ponto de haver cinco cuias de chimarrão simultâneas. O Rio Grande não é captável superficialmente.
13 – Qual o livro que você daria de presente?
O Banquete dos Deuses, de Luis Fernando Verissimo, pela erudição e pelo humor.
14 – Qual o livro que você gostaria de ganhar?
A obra de Oscar Wilde, que me foi devolvido danificado.
15 – Qual o livro que você procura e que nunca encontrou?
Reunião de tragédias gregas.
16 – Qual deve ser o maior mérito de um escritor?
Sua capacidade de pôr em conúbio realidade e imaginação, lastreando a narrativa em uma honestidade intelectual.
17 – Cite um grande livro de um grande autor?
O Arco e a Lira, de Octavio Paz.
18 – Cite um grande livro de um autor pouco conhecido?
O Coronel e o Lobisomem, de José Cândido de Carvalho. Pela essencial brasilidade.
19 – Cite um livro que você esperava gostar e que te decepcionou:
Ulisses, de James Joyce. Não gosto de livros de escritores para escritores.
20 – Cite um livro que você não esperava nada e o surpreendeu:
Melhores Poemas, de José Paulo Paes.
Uma bibliografia parcial de Luiz Coronel
• 1973 | Mundaréu - Editora Garatuja
• 1978 | Pensamentos Azuis - Editora Garatuja
• 1981 | Buçal de Prata - Editora Tchê
• 1984 | Os Retirantes do sul - Editora Movimento
• 1987 | Os Cavalos do Tempo - Editora Tchê
• 1987 | Lunarejo - Editora Tchê
• 1988 | Cinco Ensaios Incontidos - Editora Tchê
• 1991 | Baile de Máscaras - Editora Tchê
• 1993 | Pirâmide Noturna - Editora Tchê
• 1994 | Clássicos do Regionalismo Gaúcho - Editora Tchê
• 1997 | Um Girassol na Neblina - Exitus Editora
• 1999 | Álbum de Retratos - WS Editor
• 2000 | Poemas de Natal - textos, ilustrações e CD - Mecenas Editora
• 2000 | O Legado das Missões - Fotografias - WS Editor
• 2001 | Coração Farroupilha - edição luxo com CD - Mecenas Editora
• 2001 | Concerto de Cordas - Antologia Poética de Luiz Coronel - Imago Editora/RJ
• 2001 | Amor Seja Lá como For - L&PM Editores
• 2003 | Sabores de Uma Grande História, com César Guazelli.
• 2004 | Um País no Coração - Mecenas Editora
• 2005 | Um Querubim de Pantufas - Mecenas Editora
• 2006 | Vinte Poemas de Amor e uma Balada Indagativa - Mecenas Editora
• 2007 | Recreio da segunda infância - Mecenas Editora
• 2009 | Palmas para o teatro - Mecenas Editora
• 2009 | Retratos da terra - Mecenas Editora
• 2010 | Quirelas e cintilações - Mecenas Editora
• 2011 | O Mar - Mecenas Editora
• 2012 | A esperança e o desalento, poesia social de Luiz Coronel - Mecenas Editora
• 2012 | Dicionário Amoroso de Luiz Coronel - Mecenas Editora
• 2013 | Luiz Coronel, Um cronista inesperado - Mecenas Editora
• 2014 | Amar o mar - Mecenas Editora no prelo
• 2015 | A Revolução Farroupilha - Mecenas Editora - Ilustração Danúbio Gonçalves
• 2016 | A geração Polegar - Mecenas Editora - "Crônicas envolvendo, sombras e luzes sobre o ano inquietante"
* Márcio Pinheiro é jornalista e escreveu os livros Esse Tal de Borghettinho e Rato de Redação - Sig e a História do Pasquim.


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