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reportagem cultural

- Publicada em 15 de Setembro de 2022 às 18:31

Um guia para dançar tango em Porto Alegre

Em uma ponte unindo os gaúchos e o Rio da Prata, estilo musical tem vida intensa em bares, salões e escolas de dança da Capital

Em uma ponte unindo os gaúchos e o Rio da Prata, estilo musical tem vida intensa em bares, salões e escolas de dança da Capital


TÂNIA MEINERZ/JC
Iuri Müller
O título que esta reportagem toma emprestado pertence a um famoso conto do escritor gaúcho Sergio Faraco: no relato, dois desconhecidos se aproximam durante as horas vazias de uma longa viagem de trem pelo Rio Grande do Sul - "uma viagem sem fim, Uruguaiana a Porto Alegre era como a volta ao mundo" - de um período que podemos situar em algum momento dos anos 1970. A madrugada, a solidão compartilhada, "o mau estado dos trens" fazem com que, entre os personagens, se estabeleça uma intimidade improvisada e que, em algum momento, surja o desajeitado convite:
O título que esta reportagem toma emprestado pertence a um famoso conto do escritor gaúcho Sergio Faraco: no relato, dois desconhecidos se aproximam durante as horas vazias de uma longa viagem de trem pelo Rio Grande do Sul - "uma viagem sem fim, Uruguaiana a Porto Alegre era como a volta ao mundo" - de um período que podemos situar em algum momento dos anos 1970. A madrugada, a solidão compartilhada, "o mau estado dos trens" fazem com que, entre os personagens, se estabeleça uma intimidade improvisada e que, em algum momento, surja o desajeitado convite:
"- Conheço uma casa em Porto Alegre onde se dança tango, é um lugar bonito, muito romântico.
- Dançar tango em Porto Alegre, que ideia".
A viagem narrada por Faraco termina pouco antes de se chegar ao destino, com a esperança renovada por parte do protagonista, que sente que "agora ela pensava como eu, que valia a pena tentar ainda uma vez, que valia a pena dançar um tango em Porto Alegre". Seja como for, na literatura gaúcha e nas ruas da Capital, antes e depois dos anos 1970 (e sem dúvidas agora), dançar e ouvir tango em Porto Alegre não foi uma ideia descabida. Mais do que isso, a música de raízes rioplatenses encontrou na cidade um reduto importante para as suas multiplicações e desdobramentos.
Sobre as origens do tango, escreve o músico e pesquisador Arthur de Faria em Porto Alegre: uma biografia musical (Arquipélago, 2022) que "há menções à palavra em Buenos Aires desde os princípios do século XIX, como sinônimo de baile de negros, ao som de tambores. Alguns afirmam que ele teria nascido na Andaluzia, Espanha, um pouco mais tarde, em meados do século XIX. Outros, como o pesquisador argentino Enrique Binda, contestam completamente a ideia, e apontam o Rio da Prata como a sua terra natal". Em território porto-alegrense, há ocorrências relevantes do tango já nas primeiras décadas do século XX, e que se relacionam com uma utopia local: a casa gravadora de nome A Elétrica.
A casa A Elétrica, capitaneada pelo imigrante italiano Saverio Leonetti, ganha esse nome em 1911 e primeiramente funciona como loja de discos. Pouco depois, passaria a atuar como gravadora, inserindo-se na vanguarda do continente e competindo diretamente com a poderosa Casa Edison, do Rio de Janeiro. Com conexões no Rio da Prata, A Elétrica adentraria o mapa do tango quatro anos mais tarde, quando, em acordo com o empresário argentino Alfredo Améndola, recebe o músico uruguaio Francisco Canaro em Porto Alegre para a gravação de dois tangos.
Escreve Arthur de Faria: "em 1915, entrando na sua fase de maior popularidade, Canaro vem a Porto Alegre gravar para o selo Atlanta, de Alfredo Améndola. Há um consenso de que as músicas em questão são os tangos instrumentais El chamuyo e El desalojo, ainda que não se tenha certeza absoluta". Por muito tempo, o feito (indiscutível) d'A Elétrica gerou uma série de confusões, algumas grandiloquentes, como a afirmação de que a fábrica porto-alegrense teria gravado o primeiro tango em solo latino-americano. No entanto, esclarece Arthur de Faria, "o que houve com as gravações de Canaro é que elas resultaram no primeiro tango tocado por argentinos a ser gravado e prensado" no continente.
O episódio que liga Canaro a Leonetti e Buenos Aires a Porto Alegre pode ser lido como um marco de inauguração para as peripécias do tango na cidade. Com o passar do tempo, novas ocorrências ganhariam forma, e Porto Alegre teria bares dedicados ao tango, escolas de dança, festivais especializados e pesquisadores a investigar de perto bailarinos e canções. Um pouco disso, em fragmentos nem de longe exaustivos, se espalha logo a seguir.
 

Goles e lamentos de bandoneón

Espaços como o bar El Farol, na rua Mariante, garantem a dança e a escuta do tango dentro do cenário da noite de Porto Alegre

Espaços como o bar El Farol, na rua Mariante, garantem a dança e a escuta do tango dentro do cenário da noite de Porto Alegre


TÂNIA MEINERZ/JC
Desde a primeira década do século 20, quando a cidade aparecia como uma estação importante no meio do trajeto dos artistas que iam de Buenos Aires e Montevidéu a São Paulo e ao Rio de Janeiro, Porto Alegre teve seus bares dedicados ao tango - de maneira cambiante através das décadas. O músico e pesquisador Washington Gularte, em O tango em Porto Alegre (Editora Caravela, 2015), trata de recolher o nome (e, se possível, o endereço e a época) de tantos quantos possíveis desses estabelecimentos, desde o tempo das orquestras típicas de tango que, em baldeação ou temporada pelo Rio Grande do Sul, se assentavam por algumas noites na Capital.
Gularte menciona que, no que chama de "a primeira época do tango" na cidade, os músicos encontravam espaço não só em bares, mas em confeitarias, cabarés e cassinos, quando liberada a jogatina. Eram os anos de 1920 e 1930, décadas em que o tango se multiplicava irreversivelmente no Rio da Prata e passava a alcançar algumas das capitais brasileiras.
Para o pesquisador, enquanto por lá o tango "teve seu início na classe social menos privilegiada", em Porto Alegre "o tango penetrou através de uma elite social, do ponto de vista intelectual e financeiro". A música rio-platense, com origem nos conventillos de imigrantes e nos bares populares do sul portenho, quando de viagem por Porto Alegre, instalava-se em palcos tradicionais da cidade.
Anos depois, já na segunda metade do século XX, o protagonismo das orquestras típicas e das numerosas formações de músicos dava lugar a outras modalidades da música que se instalava nos palcos e nos bares; começava, também, a história de estabelecimentos especificamente direcionados ao tango - casas noturnas que tiveram menor ou maior sorte, existência duradoura ou breve, e que nasceram para receber o canto e o bandoneón. Porto Alegre teve, de acordo com a pesquisa de Gularte, duas casas dedicadas ao tango que nasceram nos anos 1970 e que marcaram a cena local: La Cumparsita, inaugurada em 1974 sob o comando da cantora Nina Moreno, e Mano a Mano, que abriria as portas no ano seguinte; ambos os bares com homenagens a famosos tangos já estampadas em seus nomes.
Alguns dos bares tangueros se mantiveram até o final do século XX, mas, também hoje, Porto Alegre conta com espaços noturnos que entregam ao ritmo um evidente protagonismo. Situado na rua Mariante, o bar El Farol promove todas as quintas-feiras uma noite dedicada à prática do tango, na escuta e na dança. Casais que praticam o ritmo em diferentes escolas da cidade rumam nas quintas ao Farol para uma milonga festiva; e, se não há parceiro fixo de dança, são uns quantos os que resolvam a ausência à meia-luz do estabelecimento.

Todas as quintas-feiras, El Farol recebe apreciadores do ritmo rioplatense para uma milonga festiva

Todas as quintas-feiras, El Farol recebe apreciadores do ritmo rioplatense para uma milonga festiva


TÂNIA MEINERZ/JC
Alfredo Navarro, o proprietário do El Farol, afirma que "o bar existe há 13 anos, e a noite dedicada ao tango há mais ou menos onze". "Começamos a trazer alunos que praticavam tango no projeto Ocho Adelante para dançar no bar, porque faltava um lugar à noite para dançar na cidade. E então se criou essa noite, a de quinta-feira, agora um espaço tradicional do tango em Porto Alegre, com milonga, tango e valsa", relata Navarro. Nas demais noites, entre copos de fernet-cola, taças de vinho e pratos da gastronomia argentina, o tango se faz presente nas caixas de som e nas conversas que embalam as horas do El Farol.
Para além dos bares e restaurantes que se dedicaram de maneira exclusiva ao tango, temas de Aníbal Troilo, de Osvaldo Pugliese e de Astor Piazzolla serpentearam pela noite de Porto Alegre e encontraram guarida em diversos palcos recentes; cabe citar o acordeão de Rafael Köller no bar Odeon, a ecoar pela rua Andrade Neves; as apresentações de Nina Moreno no restaurante O Porto, da rua André da Rocha; e as noites dedicadas à música argentina no bar Parangolé, da Cidade Baixa. E, ainda, no bar denominado justa e simplesmente Tango, na rua da República, e que, sem combinação prévia ou dia marcado, encontra seu refinado repertório tangueiro na voz de João de Almeida de Neto e de outros cantantes-clientes.

Milongas, aulas e práticas: ensaiar o tango de salão

Argentino, Valentin Cruz vive de ensinar gaúchos e gaúchas a bailar o tango

Argentino, Valentin Cruz vive de ensinar gaúchos e gaúchas a bailar o tango


TÂNIA MEINERZ/JC
Porto Alegre conta hoje com numerosos lugares para as aulas e as práticas do tango quanto à dança; boa parte deles se localiza no bairro Floresta e nos seus entornos. Na Comendador Coruja, a poucos metros do Shopping Total, está em funcionamento há 15 anos o espaço conhecido como Tanguera, onde se oferecem aulas do ritmo para diferentes níveis e se mobiliza parte importante da cena local. À frente do amplo e charmoso salão da Tanguera está Valentín Cruz, argentino há quase duas décadas residente no Rio Grande do Sul.
"Trabalhei em companhias de Buenos Aires, como no ballet Brandsen e no ballet Folclórico Nacional da Argentina, e participei da Califórnia da Canção Nativa, em Uruguaiana, quando passei a ter mais relação com o Brasil. De início, estava mais ligado ao folclore que ao tango", conta o professor e bailarino. Valentín Cruz, primeiramente, passou a oferecer aulas e práticas na cidade de Pelotas, antes de rumar a Porto Alegre. Por anos, ofereceu atividades em diferentes lugares da Capital e a domicílio. Com o apoio de amigos e colegas, abriu o seu primeiro estúdio dedicado à dança, na avenida Cristóvão Colombo. Desde 2007, move os alunos pelo salão da Tanguera no espaço atual. Desde então, só pôde retornar a Buenos Aires por períodos breves e pontuais: o trabalho com a dança firmou-se em Porto Alegre, lugar que, para Cruz, se estreita "naturalmente" com a cultura do tango.
"Quando fazíamos saídas de tango ao ar livre, muitas pessoas se aproximavam para nos contar histórias relacionadas ao tango, às famílias que ouviam a música, às cidades da fronteira. O tango não é apenas argentino ou uruguaio, é a música também de uma região. É a música de um abraço, e abraçar-se é importante em todos os tempos e lugares. O abraço é curativo, e quando se dança abraçado nos preocupamos com o outro. Por isso há códigos na pista de dança: códigos de comunicação", relata Valentín Cruz. "Há personagens do tango no Uruguai, no Brasil, não apenas na Argentina. [Alfredo] Le Pera, nascido no Brasil, uruguaios como Julio Sosa e Francisco Canaro, entre tantos outros. Não gosto de ver o tango como algo limítrofe", enumera o professor.

Valentin Cruz e Maura Jenisch Laranja, aluna octogenária de tango

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TÂNIA MEINERZ/JC
Hoje, a Tanguera conta também com outros profissionais, e trata de expandir os passos do tango para além do bairro: promove, nas sextas-feiras, práticas abertas no Centro Histórico, junto ao edifício do Força e Luz, hoje Centro Cultural Érico Veríssimo. Por anos, a Tanguera também esteve na coordenação do Festival Internacional do Tango, que trouxe músicos e dançarinos de diferentes países, não apenas do Rio da Prata, a Porto Alegre - projeto que se encontra atualmente interrompido, mas que aguarda por esforços de retomada.
Também nos limites do Floresta, o projeto Ocho Adelante, coordenado pelo professor argentino Daniel Carlos, oferece aulas de tango gratuitas para iniciantes no espaço da Ciranda dos Ritmos, situado na avenida Cristóvão Colombo. Daniel Carlos também promove, para os alunos, excursões temáticas para Buenos Aires: trata-se de uma viagem com a finalidade de percorrer os espaços tradicionais e vigentes (bairros, palcos, bares) do tango na capital argentina.

Entre Porto Alegre e Buenos Aires

Decoração do bar El Farol faz alusão à conexão entre Argentina e sul do Brasil, promovida pelo tango

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TÂNIA MEINERZ/JC
A psicóloga Aline Vianna esteve pela primeira vez em Buenos Aires há mais de 10 anos; para além das ruas e lugares que planejava conhecer, soava na viagem, ainda sem a definição do alcance que teria, a persistência de um disco de Astor Piazzolla que havia escutado por volta do ano 2000. Na última noite argentina daquela excursão, esteve com o companheiro, o jornalista Douglas Ceconello, em um bar de tango do bairro de San Telmo.
"Nessa primeira ida tentamos nos entregar à cidade. Digo que tentamos porque ela oferece muito mais do que podíamos imaginar. Na última noite fomos a uma tanguería assistir a um show. Eram dois casais e dois músicos, um ambiente muito intimista numa esquina de San Telmo. A gente ficava no pé da pista onde os artistas estavam", recorda Vianna.
De regresso a Porto Alegre, não foi difícil perceber que o que havia sentido era um arrebatamento. Desde então, o tango se tornou uma prazerosa obsessão para Aline, que, de maneira autônoma, tratou de enveredar por diferentes caminhos: a pesquisa, a escrita e a organização de informações sobre a música e a prática da dança.
"Voltando da primeira viagem, procurei onde poderia aprender mais sobre o tango-dança, porque entendi que é algo muito presente na cultura portenha e fiquei curiosa. Gostava de dançar, mas nunca tinha dançado a dois. Comecei as aulas em 2011, com Giovanni Vergo. Passei a escutar muitos tangos, a aprender um pouco sobre orquestras. Descobri, logo no início, que Porto Alegre tem um bom grupo de pessoas que gostam de tango e especialmente de dançar, que acontecem vários eventos toda semana, e passei a participar", conta a psicóloga, moradora do Centro Histórico.
O caminho entre Porto Alegre e Buenos Aires, a partir da primeira visita, se estreitou para Aline, que passaria a visitar a capital argentina a cada período de férias, cada vez por mais tempo. Em ambas as cidades, tratava de frequentar a cena e buscar os espaços dedicados à dança, seja no formato de aulas práticas ou em milongas, ocasiões festivas em que, à noite, um bar, salão ou clube se abre para a dança. A intimidade com a programação portenha - e a escuta atenta dos álbuns e artistas do tango contemporâneo - fizeram com que ela e Douglas organizassem um site dedicado ao tango, com ênfase nos acontecimentos que teriam lugar na Capital. Por três anos, entre 2015 e 2018, o Tango30 foi atualizado regularmente com conteúdos produzidos por Vianna e Ceconello. O acervo produzido pelo casal continua no ar.

Lety Tango ensina a dança na Tanguera, ao lado de Valentin

Lety Tango ensina a dança na Tanguera, ao lado de Valentin


TÂNIA MEINERZ/JC
"Em relação à dança, Porto Alegre tem uma cena permanente e própria do tango, mantida por profissionais estáveis na cidade há muitos anos. Temos lugares para fazer aulas, para sair a dançar, bares tangueiros, músicos e um grupo bem grande de pessoas que transita entre estes espaços. Esses elementos me parecem semelhantes a Buenos Aires, o centro do tango", avalia, assinalando a diferença de proporção (e de intensidade) entre as duas cenas. Aline, no entanto, afirma que as trocas poderiam ser ainda mais frequentes: "penso que poderíamos ter um intercâmbio maior com a cidade vizinha, que poderíamos ir mais para lá e vir com a energia que brota em cada lugar de tango. Isso é custoso financeiramente, mas incentivar a ida a Buenos Aires e conhecer a cena de lá me parece importante para que mantenhamos a nossa. Com alguma frequência, professores argentinos são convidados por escolas daqui a ministrar cursos em Porto Alegre, o que é ótimo. Mas apreender outra cultura vai além dos ambientes formais de transmissão, também é preciso buscar a vivência".
Ao final, para Aline Vianna (assim como para tantos e tantas), o tango se estruturou como bem mais do que roteiro de viagem ou aprendizado de um ritmo: entranhou-se na forma de estruturar a rotina, na composição dos laços de amizade, na relação com as cidades. "Escuto tango sempre que posso, tanto os tradicionais quanto os mais recentes. O tango está para mim muito ligado às memórias de Buenos Aires, memórias das ruas, dos edifícios, de cada lugar por onde andei. Por meses, ninei minha filha dançando tango com ela. Desde bebê, aqui e lá, ela frequentou lugares de tango onde o horário permitia, assim como varou a cidade", resume.
 
* Iuri Müller é jornalista formado pela UFSM e pesquisador em Literatura, com doutorado pela PUCRS. Colabora regularmente com o Suplemento Pernambuco e com o Jornal do Comércio, entre outros.
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