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Reportagem Cultural

- Publicada em 04 de Agosto de 2022 às 17:34

Eduardo Vieira da Cunha: arte e criatividade entre cores e sombras

Artista plástico, fotógrafo e professor, Eduardo Vieira da Cunha fala sobre as buscas e desejos que guiam a vida e a criação

Artista plástico, fotógrafo e professor, Eduardo Vieira da Cunha fala sobre as buscas e desejos que guiam a vida e a criação


TÂNIA MEINERZ/JC
Márcio Pinheiro
Os aviões estão lá. Tranquilos e soberanos sobrevoando a tudo. São coloridos, mas nascem da escuridão, das sombras, das ausências. "A vontade de criar nos leva a penetrar no nosso inconsciente e a olhar nas profundezas. Creio que a inspiração vem daí. Quando alguma coisa foi perdida, quando algo falta, buscamos o conhecimento. É dele que vem a luz para iluminar o caminho", explica Eduardo Vieira da Cunha, artista plástico, fotógrafo, professor e autor das imagens que ilustram as páginas desta reportagem.

Os aviões estão lá. Tranquilos e soberanos sobrevoando a tudo. São coloridos, mas nascem da escuridão, das sombras, das ausências. "A vontade de criar nos leva a penetrar no nosso inconsciente e a olhar nas profundezas. Creio que a inspiração vem daí. Quando alguma coisa foi perdida, quando algo falta, buscamos o conhecimento. É dele que vem a luz para iluminar o caminho", explica Eduardo Vieira da Cunha, artista plástico, fotógrafo, professor e autor das imagens que ilustram as páginas desta reportagem.

Eduardo é o filho mais novo de Liberato Salzano Vieira da Cunha, líder político da região de Cachoeira do Sul e que morreu aos 37 anos num trágico acidente aéreo próximo a Bagé. Liberato estava acompanhado da mulher, mãe de Eduardo, que ficou órfão com apenas um ano de idade. "Foi um acontecimento marcante. Por muito tempo, preferi não falar sobre isso. Talvez por defesa, talvez por não querer me sentir diferente dos outros colegas de escola", conta. "Durante meu doutorado, aprendi a trazer para a reflexão no próprio texto da tese, esse dado autobiográfico. Pois vi que esses elementos que constituíram nossa história pessoal são muito importantes, e acabam refletidos na obra. Todo o trabalho é, no final, uma autobiografia e um acerto de contas consigo mesmo", completa.

Mas a arte tem seus desígnios próprios. Vem da lógica e também da incerteza. Mais: não vem apenas do artista, de quem a produz, mas também de quem vê, de quem se interessa, gosta e se identifica. Vem da empatia criada pela obra. "Creio que a inspiração vem de uma necessidade de comunicação, é provocada pela incerteza seguida pela resposta vinda da relação com a recepção da obra, ou seja, com o outro, com o observador", compara Eduardo. "A incerteza na arte é isso: a gente cria, faz algo, mas nunca sabe qual a reação provocará. É uma interrogação. O que me inspira, me move, é esse retorno imponderável, essa resposta do público, que é sempre uma incógnita. Quando acertamos, somos movidos a ir adiante".

E adiante - aqui e nas próximas páginas - Eduardo, 65 anos, vai falar sobre sua arte e suas inspirações. De como seus trabalhos surgem ainda da fotografia e até da música e da literatura. E de tudo aquilo que um artista busca: "O que nos move é a possibilidade de comunicação, que vem de um desejo que pode ser uma ausência, uma falta, onde a resposta do público, se é sempre inesperada, nos surpreende e nos completa. Continuamos sempre desejantes de algo que não sabemos bem o que é". E finaliza: "Desejo é, antes de tudo, ausência. Deseja-se algo pela falta, pela possibilidade de ser completada e nos completar. Se não houvesse ausência, não haveria desejo".

 

Na arte se experimenta, se erra e se acerta

Inspiração surge em sonhos ou mesmo em momentos do cotidiano

Inspiração surge em sonhos ou mesmo em momentos do cotidiano


EDUARDO VIEIRA DA CUNHA/REPRODUÇÃO/JC

A arte - como o samba - não se aprende no colégio. Mas foi como aluno do Colégio Anchieta que Eduardo passou a gostar das aulas de Desenho e também de Filosofia. Sua vontade era unir os dois interesses. Outro estímulo foi uma caixa de tintas que ele ganhou de D. Vicente Scherer, amigo de seus pais. Depois, já na universidade, onde ingressou em 1974, aos 18 anos, e teve como professores Alice Soares, Armindo Trevisan, Cristina Balbão, Luis Barth, Costa-Cabral e Carlos Pasquetti, a paixão ficaria mais clara e lógica. "Na escola, na academia, tu podes no máximo aprender algo de história da arte, de filosofia da arte, de estética e teoria da arte. A prática mesmo vem do ateliê", acredita Eduardo, lembrando que cada um tem seu próprio processo e que cada artista deve desenvolver a sua arte em um laboratório próprio. "Experimentando, errando e acertando". O fundamental, acrescenta ainda, é a vontade de fazer algo, uma certa obsessão em produzir uma obra.

No tempo de faculdade, Eduardo colaborava como ilustrador para publicações universitárias, envolvia-se nas discussões políticas, acreditando que a arte poderia desempenhar papel importante de transformação política e social. Mais tarde, Eduardo se deu conta de que o papel de artista não é o de liderar passeata: existem outras formas de ser revolucionário. E tem ainda a ver com a produção de uma tela: "Os detalhes que ela vai ter, as camadas. A construção de uma pintura envolve camadas que se sobrepõem: primeiro vem o fundo da tela, a cobertura com uma ou mais camadas de cor. Em seguida vem o desenho, os detalhes, as áreas menores de cor, as veladuras (ligeira mão de tinta aplicada numa pintura, deixando transparecer a tinta que está por baixo)... Eduardo trabalha quando tem necessidade por prazo, vontade e tempo, dedicando-se normalmente pelo menos duas horas por dia. "Pelas manhãs, dou aulas e, à tarde, geralmente trabalho, ou no ateliê, ou nas tarefas da universidade. E, conforme a necessidade, muitas vezes estendo o trabalho de ateliê até a noite".

Em média, Eduardo demora de uma semana a um mês em uma tela, dependendo sobretudo do tempo disponível para o trabalho. "Se estou com muitas atividades na universidade, tenho pouco tempo para o ateliê. O trabalho rola mais nos finais de semana, e principalmente nas férias. Tenho um atelier na praia de Bombinhas, em Santa Catarina, onde trabalho bastante".

Conhecedor do trabalho de Eduardo há mais de 40 anos, o marchand Renato Rosa atesta: "Estive em Paris para ver sua exposição e nos divertimos muito, vendo boas exposições. Gosto demais dele e de sua obra. É um artista de indiscutível qualidade formal e de estilo próprio. Sua obra constitui-se num dos alicerces da contemporaneidade no Rio Grande do Sul".

Uma das preocupações de Eduardo é com a maneira como o artista transita. "A academia consegue até te dar alguns atalhos sobre a técnica, fazer copiar para aprender. Mas creio que o que é mais importante lá é o convívio, a camaradagem, o incentivo, a troca que existe entre alunos e professores". Para Eduardo, o artista e sua arte precisam chegar ao público, serem vistos e apreciados. "Como tenho estrada, alguns jovens artistas me procuram, em busca de conselhos, de conversas, de indicações. Todos querem saber como é possível a arte circular. Por isso considero importante o trabalho desenvolvido pelos marchands e pelas galerias, principalmente para incentivar artistas novos e desconhecidos".

 

O ponto de vista do espectador

Foi durante temporada em Nova York que Vieira da Cunha mergulhou na pintura

Foi durante temporada em Nova York que Vieira da Cunha mergulhou na pintura


EDUARDO VIEIRA DA CUNHA/REPRODUÇÃO/JC

Depois de formado, em 1985, Eduardo fez concurso para Fotografia, área onde já atuava profissionalmente e começou a dar aulas. Sua primeira experiência profissional veio da fotografia, trabalhando primeiro na Caldas Júnior e, depois, durante nove anos na sucursal gaúcha do jornal O Globo. Na sucursal, Eduardo era responsável pela editoria de esporte amador, cuidando não apenas do Rio Grande do Sul, mas também de pautas em Buenos Aires e Montevidéu. "Certa vez, a pedido do editor, fotografei e entrevistei um jovem paulista que vinha se destacando nas corridas de kart. Como eu cheguei atrasado em Tarumã, ele ainda foi atencioso e simpático, aceitando repetir uma volta para que eu pudesse fotografá-lo recebendo a bandeirada. Sabe quem era? Ayrton Senna".

Foi a fotografia que lhe deu as primeiras noções de muitas técnicas que posteriormente seriam usadas na sua produção artística. "Para mim foi um aprendizado: aprendi a ver a luz, os gradientes, a observar melhor os volumes". Além disso, o trabalho diário e dinâmico lhe proporcionou um conhecimento que permite fazer bom uso da agilidade. "A fotografia exige que você seja ágil nas tomadas de decisão, na busca por um ponto de vista. É uma grande escola, é uma luta constante contra o tempo. Isso tudo acaba fazendo com que se tenha muita disciplina para saber se organizar".

Contemplado com uma bolsa para cursar o mestrado no Brooklyn College, da Universidade de Nova York, Eduardo mudou-se para os Estados Unidos. A experiência foi sensacional: bares de jazz no Village, galerias, mostras, museus como o MOMA e o Metropolitan. Lá foi aluno de Phillip Pearlstein, com quem trabalhou como assistente. Foi mais ou menos quando ocorreu a transição definitiva da fotografia para a pintura. "Comecei a pintar em Nova York, embora meu projeto acadêmico fosse em fotografia."

O psicanalista Robson Pereira, amigo de Eduardo há mais de quatro décadas, interpreta: "Depois que enveredou pela pintura é possível notar que, pelas lentes do olhar, o gesto do pintor preenche o quadro de cores, detalhes, objetos que fazem com que um mundo moderno e o das memórias comece a fazer sentido para nós. Eduardo faz com que Cachoeira, Porto Alegre, Paris e Nova York estejam todas representadas, façam parte de nosso patrimônio íntimo".

Da temporada em Nova York, Eduardo, através da jornalista Heloísa Vilela, sua colega de O Globo, foi apresentado a Paulo Francis. "Algumas vezes nos encontrávamos para caminhadas na Park Avenue ou então para idas ao MoMa, que era perto de onde ficavam os escritórios da Globo em Nova York". A proximidade seria retomada no começo dos anos 1990, quando Francis teria uma coluna em Zero Hora e Eduardo seria chamado para ilustrá-la.

Quem já estava na Zero Hora naquele período, atuando como editor de Fotografia, era Ricardo Chaves, o Kadão. "Apesar de ele ter sido fotógrafo da sucursal gaúcha de O Globo, não lembro de termos trabalhado junto em alguma pauta, mas sempre admirei o trabalho dele. Me identifico com as figuras vintage que ele coloca um muitas das suas obras. São aviões, trens e automóveis antigos, da época da minha infância."

Kadão ainda destaca a importância da fotografia no trabalho de Eduardo: "Do fotógrafo, acho que ele guarda um ponto de vista do espectador. Da testemunha que assiste e registra um monte de coisas acontecendo, mas, sem interferir. Muitas vezes ele mantém uma certa distância, mas não grande o suficiente para que as formas se percam. Sobrevoa o assunto como quem faz uma foto aérea e se delicia com o traçado e a colcha de retalhos em que a paisagem se transforma vista do alto".

 

A importância que a falta tem

Para Eduardo Vieira da Cunha, a arte, na prática,  se aprende no ateliê:

Para Eduardo Vieira da Cunha, a arte, na prática, se aprende no ateliê: "Experimentando, errando e acertando"


TÂNIA MEINERZ/JC

Como surge uma ideia? "Surgem em momentos anteriores, seja em aulas, seja revisitando pinturas antigas, seja em momentos mais inesperados, como caminhando, praticando a natação, por exemplo", explica Eduardo. "Os sonhos têm também papel importante nesse processo: às vezes sonho com algum lugar, uma situação. É o mote, o passo para um esboço". Por fim, Eduardo reconhece que vez por outra recorre a coleções diversas: de fotografias, de carros em miniaturas, de aviões. "Quando vejo, estão migrando para a tela."

"Não é um narcisismo, mas uma vontade de sedução", compara Eduardo, explicando como se dá esse complexo jogo de interesses e sentimentos. "Veja o narcisista: ele nunca está satisfeito. Sempre lhe falta algo. O elemento falta é importante, e foi no meu caso: a falta da imagem real, não a transmitida. Tudo o que aconteceu fica armazenado no inconsciente."

Eduardo também lê muito: literatura em geral, autores como Paul Auster, Hiraki Murakami, Borges, Machado de Assis, Leonardo Padura, além de muito ensaios e, obviamente, livros sobre filosofia da arte e fotografia. Outra fonte de inspiração é viajar. "Sempre gostei de viajar. Vivi três anos nos Estados Unidos, mais de quatro na França. Todos os anos vou à Lisboa, onde mantenho um intercâmbio com a Universidade de Lisboa, na Belas Artes de lá. As viagens e os conhecimentos adquiridos com os livros me ajudam muito. Fui um grande apreciador de histórias em quadrinhos, e acho que elas me influenciaram muito também". Robson Pereira acrescenta: "Sorte minha de poder conviver e trocar figurinhas das mais variadas, do erudito ao almanaque, com uma pessoa como ele. Sempre disposto a conversar, comemorar o simples fato de estarmos juntos. Sua generosidade faz com que a maioria das reuniões de nossa confraria de amigos aconteça na casa dele. Tomara que possamos continuar por muito tempo".

Outro grande amigo, o jornalista Luiz Reni Marques, destaca a personalidade de Eduardo: "É alguém que em outros tempos se denominava 'um intelectual completo', que desfia suas ideias utilizando um texto elegante e objetivo, participa de debates sobre filmes e psicanálise com desenvoltura e discute sobre as mais variadas nuances da arte e da cultura, além de outros temas". E completa: "Claro que suas telas se sobressaem neste caldeirão de conhecimentos e habilidades. Representam momentos da sua experiência de vida, produzidos em cores intensas, a cada ano mais singulares e expressivas, mostrando uma evolução incessante".

Nas artes plásticas, suas principais influências são pintores como o já citado Phillip Pearlstein e também Saul Steinberg, Balthus, Jean Lancri e François Soulages, João Câmara e Trindade Leal. Deste último, Eduardo destaca o alegre convívio que os dois tiveram. "Ia visitá-lo com frequência num pequeno hotel onde ele morava na Cidade Baixa e ficamos muito amigos. Me levava para almoçar num boteco na avenida Borges de Medeiros, onde sempre comíamos o mesmo prato feito. Ali ele me dizia: 'hoje tu és meu convidado'". Afora isso, Eduardo considera o cinema também como algo essencial em sua arte, com as ideias vindo de filmes de Chris Marker, Wayne Wang, Quentin Tarantino e Spike Lee. Outra inspiração, essa menos óbvia e mais surpreendente é o futebol. "Não perco os jogos do Colorado."

 

Sete exposições marcantes

 Painel de Eduardo Vieira da Cunha no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre

Painel de Eduardo Vieira da Cunha no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre


EDUARDO VIEIRA DA CUNHA/REPRODUÇÃO/JC

Eduardo Vieira da Cunha escolhe seus sete melhores momentos artísticos

- Westbeth Gallery, em Nova York, em 1989: "Foi o meu prêmio Bernard Shaw em pintura na Universidade de Nova York"

- Galeria Leonardo, em Paris, em 1999: "Exposição que realizei na época em que eu fazia o doutorado na Sorbonne"

- Margs, em Porto Alegre, em 2003: "Exposição que fiz ocupando duas alas do museu e que teve também o lançamento de um livro"

- Mube, em São Paulo, em 2003: "Uma exposição com mais de 40 obras, no salão principal"

- Galeria Fisher-Hohr, em Basel, na Suíça, em 2007: "Uma exposição em uma ótima galeria da Europa"

- Percurso do Artista na Reitoria da Ufrgs, em Porto Alegre, em 2016: "Uma ótima retrospectiva, também com lançamento de livro"

- Galeria Debret, da embaixada brasileira em Paris: "Desta exposição eu tenho uma história engraçada. Quem trabalhava lá e ficou minha amiga era a Nina Chaves, a ex-colunista social de O Globo - 'Nina Chaves conta...', como aparece na música Café-Soçaite, de Miguel Gustavo. Ela passava as tardes me contando histórias, como quando ela aproximou Lily de Carvalho de Roberto Marinho. Ele, para impressioná-la, convidou a moça para dar uma volta. Ela aceitou. Eles subiram ao terraço do edifício e tinha um helicóptero à espera para sobrevoar o Rio de Janeiro. A vida é bela"

 

* Márcio Pinheiro é porto-alegrense e jornalista. Trabalhou em diversos veículos da Capital, de São Paulo e do Rio de Janeiro.

 

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