Cuidar do coração é um compromisso para o ano inteiro, mas, em setembro, esse tema ganha ainda mais espaço. O mês é dedicado à prevenção e à conscientização sobre as doenças cardiovasculares, reforçando a importância de conhecer os fatores de risco e adotar cuidados que ajudam a proteger a saúde. Porém, fazer um check-up não significa necessariamente sair do consultório com uma lista de exames. Antes deles, é preciso entender o risco cardiovascular de cada pessoa.
Idade, pressão arterial, níveis de colesterol, presença de diabetes, tabagismo e histórico familiar estão entre os fatores que ajudam a construir esse perfil. A partir deles, o médico pode avaliar a necessidade de investigação complementar e definir quais exames fazem sentido em cada caso. A lógica evita tanto procedimentos desnecessários quanto a possibilidade de deixar alterações relevantes sem acompanhamento.
“Cada pessoa tem um risco cardiovascular diferente. A avaliação deve ser individualizada de acordo com idade, histórico familiar, sintomas, hábitos de vida e fatores como hipertensão, diabetes, colesterol elevado e tabagismo”, explica Paulo Caramori, chefe do Serviço de Cardiologia do Hospital São Lucas da PUCRS.
Quando começar a avaliar o coração?
Todo adulto pode se beneficiar de uma avaliação periódica do risco cardiovascular, mas isso não significa que todas as pessoas devam seguir o mesmo calendário ou realizar os mesmos exames. De acordo com Caramori, a avaliação do colesterol começa, em geral, na vida adulta, enquanto o cálculo do risco cardiovascular ganha maior importância a partir dos 40 anos.
O acompanhamento pode começar antes quando existem condições que aumentam a probabilidade de desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Histórico familiar de doença cardiovascular precoce ou a presença simultânea de diferentes fatores de risco são exemplos de situações que podem exigir atenção antecipada.
A idade, isoladamente, também não conta toda a história. Mesmo entre os mais jovens, apresentar baixo risco de um evento cardiovascular nos próximos dez anos não significa necessariamente ter baixo risco ao longo de toda a vida. Por isso, a prevenção construída hoje pode repercutir nas décadas seguintes.
Uma pessoa jovem e saudável, por exemplo, não precisa necessariamente passar pela mesma investigação indicada a alguém com hipertensão, diabetes, colesterol elevado, tabagismo ou antecedentes familiares de infarto precoce. “Essas informações ajudam o médico a decidir quais exames realmente são necessários e com que frequência”, destaca Caramori.
Prevenção começa antes do primeiro exame
Parte importante da proteção cardiovascular acontece fora dos serviços de diagnóstico. Não fumar, evitar a exposição ao cigarro, praticar atividade física regularmente e manter uma alimentação equilibrada estão entre as medidas com impacto sobre o risco ao longo da vida.
O controle da pressão arterial, do colesterol e da glicemia também integra esse cuidado. A orientação inclui ainda manter um peso saudável, moderar o consumo de álcool, dormir adequadamente e cuidar do estresse. Na alimentação, a recomendação é priorizar frutas, verduras, legumes e grãos integrais e reduzir o consumo de ultraprocessados, sal e excesso de açúcar.
“Exames ajudam a identificar o risco, mas os hábitos de vida são fundamentais para reduzi-lo”, resume o cardiologista.
Essa distinção é importante porque desloca o conceito de check-up de uma lista padronizada de procedimentos para uma avaliação clínica capaz de responder a uma pergunta anterior: qual é o risco daquela pessoa e o que ela precisa fazer para reduzi-lo?
Avaliação individual orienta o acompanhamento
É a partir dessa perspectiva que o +Cardio, do Hospital São Lucas da PUCRS, integra avaliação, diagnóstico e acompanhamento cardiovascular de acordo com as necessidades de cada paciente.
Em vez de analisar isoladamente o resultado de um exame, a proposta considera idade, histórico familiar, hábitos de vida, sintomas e principais fatores de risco para estabelecer o perfil cardiovascular. A partir dessa leitura conjunta, são definidos os exames necessários e a periodicidade do acompanhamento.
“Isso evita tanto investigações desnecessárias quanto a perda de alterações importantes”, observa Caramori. O resultado, segundo o especialista, é a construção de um plano personalizado de prevenção, tratamento e acompanhamento, que inclui orientações sobre estilo de vida, controle dos fatores de risco e definição do momento adequado para novas avaliações.
O princípio acompanha uma mudança importante na forma de compreender a prevenção cardiovascular: mais exames não significam necessariamente mais cuidado. O que amplia a capacidade de prevenir é reconhecer os riscos de cada pessoa, agir sobre fatores modificáveis e utilizar os exames quando eles efetivamente podem contribuir para orientar decisões.
Na prática, cuidar da saúde cardiovascular começa menos pela quantidade de exames e mais pela compreensão do risco de cada pessoa. É essa avaliação que permite definir o que deve ser acompanhado, quando investigar e quais mudanças podem reduzir a probabilidade de problemas ao longo da vida.