A incorporação de novas tecnologias à rotina da saúde faz com que hospitais de ensino precisem preparar estudantes e profissionais para procedimentos complexos, ferramentas digitais e mudanças na prática clínica.
No Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), investimentos em simulação realística, realidade virtual e treinamento em cirurgia robótica integram a estratégia de qualificação do ensino e de aprimoramento da assistência. Nesse contexto, o Centro de Simulação, ampliado a partir de 2023, ganhou espaço na formação de profissionais de diferentes áreas da saúde. Instalado no bloco C, o ambiente permite reproduzir situações clínicas e procedimentos em equipamentos que simulam condições reais de atendimento. A proposta é desenvolver tanto habilidades técnicas quanto competências relacionadas à comunicação, ao trabalho em equipe e à liderança.
“A estrutura possibilita treinar situações de urgência, emergência e trauma que nem sempre são vivenciadas durante a formação prática. Em um ambiente protegido, estudantes e profissionais podem repetir procedimentos, identificar falhas e corrigir condutas antes de atender pacientes”, afirma a diretora de ensino do HCPA, Luciana Cadore Stefani.
O treinamento é feito com base em diversas técnicas como a passagem de cateteres e a realização de acessos vasculares, que envolvem uma sequência de cuidados, desde a preparação dos materiais e a higienização até a abordagem do paciente, o consentimento, a execução da intervenção e o descarte adequado dos materiais.

Para Luciana, a mudança representa uma evolução em relação aos modelos tradicionais de aprendizagem, nos quais parte dos procedimentos era ensinada diretamente durante a assistência. Com os simuladores, a instituição busca fazer com que os primeiros contatos com técnicas potencialmente complexas ocorram, sempre que possível, em condições controladas, antes da aplicação em pacientes. Entre os equipamentos disponíveis estão simuladores de ultrassom com realidade virtual e de videolaparoscopia com realidade aumentada, utilizados no treinamento de residentes e profissionais das áreas cirúrgicas. O hospital também recebeu um simulador de marca-passo e de procedimentos cardiovasculares, voltado a equipes de urgência, emergência, terapia intensiva e especialidades cirúrgicas.
Na área de ginecologia e obstetrícia, um simulador permite reproduzir diferentes tipos de parto, com uma estrutura que inclui ainda equipamentos para o treinamento de profissionais que atuam na pediatria.
“Os investimentos realizados entre 2022 e 2024 ampliaram os recursos disponíveis, e o foco atual está na capacitação de professores, preceptores e demais profissionais para aproveitar os equipamentos nas atividades de ensino”, diz Luciana.
O HCPA é hospital-sede de atividades práticas para estudantes de diferentes cursos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), como Medicina, Enfermagem, Nutrição e Fisioterapia. A instituição também conta com mais de 600 residentes médicos e uma residência multiprofissional apontada pela direção como a maior do País. Quase 500 professores da UFRGS atuam no hospital, que mantém ainda programas de pós-graduação e mestrados profissionais.
Outra tecnologia bem difundida no hospital é a que trabalha com robótica, utilizada desde 2013. O Clínicas dispõe de um simulador específico para a modalidade, utilizado na capacitação de cirurgiões.
“A proposta é ampliar a familiaridade com os equipamentos e preparar as equipes para executar os procedimentos com segurança”, diz a diretora de ensino.
Enquanto simuladores e robôs ampliam as possibilidades de treinamento prático, a IA impõe novos desafios à formação médica. No HCPA, a instituição trabalha na capacitação de professores e preceptores e na elaboração de orientações para o uso dessas ferramentas no ensino. A avaliação é de que a IA pode apoiar o aprendizado, mas não deve substituir o raciocínio clínico nem a análise crítica das informações.
“Estudantes e profissionais precisam compreender como as ferramentas funcionam, verificar a confiabilidade das fontes e confrontar as respostas geradas com evidências científicas”, defende Luciana.
Um dos desafios é evitar que a facilidade de obter respostas imediatas comprometa etapas fundamentais da formação. O objetivo é incorporar esses recursos ao processo de aprendizagem sem abrir mão da autonomia intelectual e da capacidade de avaliar criticamente as informações.
Robótica, pesquisa e inovação entram na formação médica da Atitus
Em Passo Fundo, a Atitus Educação aposta na integração entre ensino, prática hospitalar, pesquisa e empreendedorismo para aproximar os estudantes das mudanças no setor desde os primeiros semestres. O curso de Medicina da instituição foi autorizado pelo Ministério da Educação (MEC) em 2013 e, segundo a diretora da Escola de Saúde da Universidade Atitus, Roberta Almeida, tem como principal campo de formação prática o Hospital de Clínicas de Passo Fundo, instituição filantrópica de alta complexidade.
“Com uma estrutura acadêmica instalada dentro do hospital, a graduação permite que os estudantes acompanhem a rotina assistencial e desenvolvam habilidades em contato com diferentes especialidades e níveis de atendimento”, diz Roberta.
A integração com o hospital também favorece o contato com procedimentos de maior complexidade e tecnologias que exigem conhecimentos específicos dos profissionais, como a cirurgia robótica. Para Roberta, a aproximação entre a formação acadêmica e a realidade dos serviços de saúde é fundamental para que a inovação seja incorporada de maneira consistente ao ensino dos mais de 152 alunos da faculdade. A proposta é que eles compreendam como funcionam os equipamentos e sistemas e também em quais situações eles podem contribuir para a assistência.
Na cirurgia robótica, por exemplo, a utilização dos equipamentos demanda competências diferentes daquelas desenvolvidas em técnicas como a videolaparoscopia. A familiarização com essas mudanças ainda durante a graduação amplia o repertório dos futuros médicos diante de um cenário em que os recursos tecnológicos passam a integrar cada vez mais as decisões clínicas e cirúrgicas.
A exposição a essas ferramentas faz parte de uma trajetória progressiva de aprendizagem, pois antes de chegar ao atendimento de pacientes, o estudante desenvolve conhecimentos das ciências básicas, como anatomia e fisiologia, e exercita habilidades em simuladores e modelos utilizados no treinamento clínico e cirúrgico.
“A sequência busca assegurar que o contato com situações reais ocorra de acordo com o desenvolvimento das competências necessárias à prática médica”, diz Roberta.
A infraestrutura hospitalar é um dos pilares desse modelo. O Hospital de Clínicas de Passo Fundo atende pacientes de uma ampla área de abrangência no Norte gaúcho e no Oeste catarinense, oferecendo um ambiente de aprendizagem conectado à assistência de alta complexidade. A graduação também mantém atividades vinculadas à rede básica do Sistema Único de Saúde (SUS), em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde de Passo Fundo. A integração com os serviços públicos é especialmente relevante em meio às discussões sobre a expansão dos cursos de Medicina no País. O aumento da oferta de vagas exige estrutura de ensino, professores qualificados e campos de prática compatíveis com o número de estudantes.

“A disponibilidade de leitos e de unidades de saúde precisa acompanhar a formação teórica para garantir experiências práticas adequadas”, diz a diretora.
Além da robótica, a IA está entre as tecnologias que desafiam as escolas médicas. Ferramentas capazes de organizar informações, auxiliar na análise de dados e apoiar processos de decisão abrem possibilidades para a assistência, mas também exigem preparo para avaliar a qualidade das respostas produzidas. Na Atitus, a estratégia envolve aproximar o ensino das transformações que ocorrem nos serviços de saúde e estimular a análise crítica das soluções disponíveis. A questão central, conforme Roberta é identificar quais tecnologias podem efetivamente melhorar os resultados assistenciais e a experiência dos pacientes.
A conexão entre conhecimento acadêmico e aplicação prática ganhou uma nova frente com o lançamento do Atitus Health Hub, em setembro de 2026. A iniciativa foi estruturada para aproximar a universidade de empresas, pesquisadores, investidores e empreendedores que desenvolvem soluções para a área da saúde.
Uma das principais ações é um programa de aceleração de empresas de tecnologia em saúde conduzido pela Eretz.bio, plataforma de inovação do Hospital Israelita Albert Einstein de São Paulo. O programa tem duração prevista de seis meses e contempla negócios das áreas de saúde digital, dispositivos médicos e biotecnologia. A proposta é aproximar a comunidade acadêmica de soluções que já avançaram além da fase inicial de concepção e precisam desenvolver seus produtos, validar aplicações e ampliar sua presença no mercado.
Para os estudantes e professores, a iniciativa cria oportunidades de contato com desafios concretos do setor, além daqueles observados no ambiente assistencial. O hub também integra uma estratégia mais ampla de reposicionamento da Escola de Saúde, que organiza suas atividades em torno de três frentes: ensino, pesquisa e empreendedorismo. “A ideia é ampliar a participação da universidade no desenvolvimento de soluções, conectando o conhecimento produzido em sala de aula e nos laboratórios às necessidades dos serviços de saúde”, diz Roberta.
Hospital Moinhos de Vento aposta em tecnologia e pesquisa para formar novos médicos
Primeira turma de Medicina do Hospital Moinhos de Vento
HMV/Divulgação/JC
A formação de novos médicos exige muito além do que o domínio de conhecimentos clínicos. Com o avanço da cirurgia robótica, da IA e de ferramentas de simulação, hospitais e universidades precisam preparar profissionais capazes de trabalhar com tecnologias complexas, avaliar evidências científicas e tomar decisões em um ambiente de rápida transformação. Em Porto Alegre, o Hospital Moinhos de Vento (HMV) aposta na integração entre assistência, pesquisa e educação para estruturar sua faculdade de Medicina e ampliar a formação de profissionais da saúde.
A expansão do ensino médico ocorre em paralelo a um ciclo de investimentos do hospital estimado em cerca de R$ 1 bilhão nos últimos anos, segundo informações atribuídas ao CEO Mohamed Parrini. Desse total, R$ 960 milhões foram destinados a ampliações, com R$ 260 milhões desembolsados em 2024. A educação está entre os focos dessa estratégia, que prevê a expansão da faculdade e o fortalecimento da pesquisa até 2029.
O projeto dá continuidade a uma trajetória que começou com a residência médica e avançou para programas de especialização e intercâmbios internacionais. Atualmente, o hospital mantém mais de 20 programas de residência, alguns com mais de uma década de funcionamento, segundo o superintendente médico do HMV, Luiz Antonio Nasi. A estrutura acadêmica também inclui programas de fellowship, nos quais médicos que se destacam em determinadas áreas recebem apoio da instituição para aperfeiçoamento no exterior e retornam para atuar no hospital.
A faculdade está em fase de consolidação da primeira turma. O planejamento prevê o ingresso de mais 100 estudantes no próximo ano, com crescimento gradual até alcançar entre 500 e 600 alunos. A expansão deverá ser acompanhada por investimentos em estrutura física, recursos tecnológicos e qualificação de professores e preceptores. Para Nasi, o aumento da oferta de cursos de Medicina no Brasil precisa ser acompanhado por critérios rigorosos de qualidade.
“O desafio é garantir que os profissionais cheguem ao mercado preparados para as exigências da assistência contemporânea e para outras possibilidades de carreira, como pesquisa, docência e inovação”, diz.
A proposta é ampliar as possibilidades de atuação profissional, respeitando as vocações individuais e oferecendo condições para que os estudantes conheçam diferentes áreas ao longo da graduação.
A integração entre ensino e assistência é um dos eixos do modelo adotado pelo Moinhos de Vento, pois desde as primeiras etapas da graduação, os alunos são aproximados da realidade hospitalar e da atenção primária, em atividades que buscam relacionar o conhecimento teórico aos problemas encontrados no atendimento.
Um dos espaços de discussão é o Grand Round, que reúne alunos, residentes, médicos e preceptores para analisar casos clínicos. A abordagem segue princípios da aprendizagem baseada em problemas, conhecida pela sigla PBL, na qual o raciocínio parte de uma situação concreta. Em vez de estudar uma doença isoladamente, o estudante precisa compreender o contexto do paciente, identificar fatores de risco e discutir possibilidades de tratamento. A metodologia também se relaciona às parcerias internacionais do hospital. Com a Universidade McMaster, no Canadá, a instituição desenvolve iniciativas em áreas como radiologia e pediatria. A experiência canadense também contribuiu para a adoção do PBL, enquanto a colaboração com a Johns Hopkins, nos Estados Unidos, trouxe referências para o acompanhamento dos alunos ao longo da formação.
Mais recentemente, uma estudante foi encaminhada para uma experiência de observação em inovação em Harvard. A ampliação dos campos de prática, contudo, depende da capacidade de preparar quem ensina. Segundo Nasi, os médicos que assumem funções acadêmicas passam por capacitação para atuar como tutores e preceptores. A instituição estabelece requisitos de formação acadêmica para os docentes e busca assegurar que nenhum estudante realize atividades práticas sem supervisão adequada.
Na área de inovação, o hospital desenvolve projetos que envolvem IA e análise de dados. São 30 projetos de IA em andamento, alguns desenvolvidos internamente e outros em parceria com empresas. A tecnologia é utilizada como apoio à decisão clínica e à estratificação de riscos, mas sua incorporação exige mecanismos de avaliação e controle.
“A inteligência artificial é uma ferramenta de suporte, não substitui o cuidado”, afirma o médico.
Para ele, o futuro profissional precisa saber examinar criticamente os resultados produzidos pelos sistemas, considerando a precisão das informações, os riscos de erro, a proteção de dados e a consistência das evidências. A disciplina dedicada à IA, conduzida por três professores, aproxima os estudantes desse debate.
O HMV conta ainda com um setor de cirurgia robótica, que até janeiro de 2025 havia realizado mais de 3 mil procedimentos. A tecnologia avançou da urologia para especialidades como cirurgia geral, torácica, ginecologia e coloproctologia, entre outras. O treinamento para operar essas plataformas exige capacitação específica e procedimentos supervisionados.
Outra frente envolve os óculos de realidade virtual utilizados para reduzir a necessidade de sedação de crianças em determinados exames. A iniciativa desenvolvida em parceria com a McMaster ilustra como a inovação pode alcançar não apenas a eficiência dos procedimentos, mas também o conforto e a segurança dos pacientes. A perspectiva do Moinhos de Vento é consolidar, gradualmente, um modelo de hospital universitário no qual a produção de conhecimento esteja incorporada à rotina assistencial. A instituição também pretende acompanhar os egressos por pelo menos dez anos, observando trajetórias em residências, especializações e carreiras acadêmicas.