Quando o fim do ano de 2020 se aproximava, uma das principais questões que se fazia era sobre se a pandemia do novo coronavírus teria uma segunda onda e como ela seria, se mais forte ou mais fraca do que a primeira. A maioria dos cientistas estudiosos da área apontava como provável a chegada de uma nova onda, mas não se sabia como iria agir. As projeções eram muito vagas. Pois, em 2021, ela não apenas veio, como também veio com muita força. A ciência, porém, já tinha suas armas para combater o vírus: a vacina.
Confira abaixo os acontecimentos que mais marcaram a pandemia no ano que se encaminha para o final:
A chegada da vacina
Enfermeira Mônica Calazans foi a primeira pessoa vacinada no Brasil
/NELSON ALMEIDA /AFP/JC
Enquanto pessoas morriam por uma doença que já tinha vacina disponível a mais de mês no mundo todo, no Brasil, um embate entre o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde que não queriam vacinar a população e apostavam em remédios sem eficácia contra a Covid-19 e governador de SP, João Dória, que investiu seu capital político na produção e aplicação dos imunizantes marcou o começo de 2021. Agindo contrariamente às orientações da cúpula do governo, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária liberou, em 17 de janeiro, o uso emergencial do imunizante Coronavac, da chinesa Sinovac, que passou a ser produzido no Brasil pelo Instituto Butantan, e da vacina da AstraZeneca, produzida pela Fiocruz. No mesmo dia, a primeira pessoa a ser vacinada no País contra o coronavírus recebeu o imunizante: a enfermeira paulista Mônica Calazans. No dia seguinte, as primeiras doses chegaram ao RS.
A fase mais mortal da crise sanitária
Hospitais, como o de Clínicas, viram suas UTIs lotarem de pacientes
/SILVIO AVILA/HCPA/DIVULGAÇÃO/JC
Se a vacina tivesse chegado um mês, 20 dias ou até 15 dias antes, vidas teriam sido poupadas no momento em que a pandemia se fortaleceu, o vírus se espalhou e se tornou mais mortal. A partir do início de fevereiro, o RS viu a curva de contaminações e óbitos subir e a pandemia chegar em seu momento mais crítico. No início de março, o Estado teve uma sequência de dias com cerca de 10 mil novos casos a cada 24h - em 1º de março, foram 14.952 novas infecções. A explosão de casos veio acompanhada, na sequência, do pico de mortes. No dia 16 de março, o RS registrou oficialmente 502 mortes por Covid-19. Os hospitais lotados e a pandemia em descontrole, porém, não foram suficientes para fazer o governador e os prefeitos decretarem o fechamento total (lockdown). Em abril, a situação começou a melhor, com os indicadores caindo, reduzindo a pressão sobre as UTIs e apontando para uma direção menos sombria: a vacina começava a mostrar seus efeitos.
O descrédito no distanciamento controlado e a volta obrigatória das aulas
O mês de abril também marcou o fim da menina dos olhos do governador Eduardo Leite. O sistema de distanciamento controlado era o orgulho do governo gaúcho. Apresentado como um modelo baseado em indicadores e que conseguia equilibrar bem as necessidades sanitárias com os desejos econômicos, o sistema chegou a ser apresentado como modelo para o resto do país. No entanto, com o passar do tempo e sem a pandemia dar sinais de que estava se encaminhando par ao final, o modelo foi se enfraquecendo, principalmente em razão das pressões de setores da economia. A pá de cal veio quando o governador fincou o pé na obrigatoriedade do retorno presencial das aulas no Rio Grande do Sul. O desejo do governador havia sido barrado pela Justiça, visto que o Estado vivia sob a bandeira preta no distanciamento controlado. Para driblar a proibição, o governo mudou critérios, estabeleceu a bandeira vermelha após nove semanas seguidas de bandeira preta e deu fim ao sistema, possibilitando o retorno presencial das aulas nas escolas que assim desejassem. No dia 10 de maio, um novo modelo, muito mais brando e maleável, entrou em vigor.
Vacinação para todos os públicos e volta das torcidas aos estádios
Retorno do público aos estádios foi teste para a gestão da pandemia
/Inter/RICARDO DUARTE/INTER/DIVULGAÇÃO/JC
No fim de maio, o Ministério da Saúde autorizou o início da vacinação para a população em geral em ordem decrescente de idade. A dificuldade principal era a falta de doses suficientes, que iam chegando a conta gotas, prolongando o processo. Os resultados da imunização dos idosos, profissionais de saúde e pessoas com comorbidades, porém, já eram muito positivos, com um vislumbre de controle da pandemia sendo visto, e números de internações e óbitos dos grupos já vacinados em queda. No dia 4 de junho, Porto Alegre começou a vacinar mulheres com 59 anos e sem doenças prévias, dando início a imunização do público fora dos grupos prioritários. A vacinação prosseguiu atingindo pessoas com idade cada vez menores, às vezes avançando com mais celeridade, às vezes, andando mais lentamente, dependendo da quantidade de doses enviadas pelo governo federal. Com a ampliação do público imunizado, as pressões para o retorno a um estado mais próximo da normalidade cresciam. Assim, em 3 de setembro, o RS autorizou o retorno das torcidas aos estádios de futebol. Gente próxima, a maioria sem manter a máscara no rosto, se abraçando, gritando. Este seria um forte teste para os gestores sobre os impactos de suas ações em meio à crise.
O esvaziamento dos hospitais
O último trimestre de 2021 trouxe uma ótima notícia: a significativa redução no número de pacientes internados em hospitais em razão do coronavírus. O Rio Grande do Sul, que chegou a ter 2.626 pessoas hospitalizadas em UTIs por causa da doença em 18 de março, tinha 389 sete meses depois, em 18 de novembro. Passado mais um mês, em 18 de dezembro, o número havia caído para 215 internados. Ontem, eram 154 pessoas internadas em UTIs nos hospitais gaúchos com diagnóstico confirmado para a Covid-19. Em 12 de março, eram 5.435 pessoas no Estado hospitalizadas em enfermarias com a doença necessitando de atendimento. Em 12 de novembro, eram 379 internados, número que caiu para 197 em 12 de dezembro e para 156 nesta quarta-feira.
Variante Ômicron e vacina em crianças
Ainda que os indicadores apontem para um fim cada vez mais próximo da pandemia, o fim do ano veio com um uma nova preocupação: a variante Ômicron. Com uma capacidade de transmissão muito mais rápida do que a Delta, a nova mutanção, conforme as primeiras análises, produz uma infecção mais branda. No entanto, como pouco se sabe sobre a eficácia das vacinas em relação à ela, medidas foram mantidas. Uma delas é a suspensão das festas de Réveillon em algumas cidades. Em Porto Alegre, por exemplo, a comemoração seria realizada na orla do Guaíba. No entanto, foi cancelada, visto que a Ômicron já tem transmissão comunitária na Capital.
Junto com a nova preocupação, uma nova discussão atrasa o início da imunização de crianças no Brasil. No dia 16 de dezembro, a Anvisa autorizou a aplicação da vacina da Pfizer em crianças de 5 a 11 anos. A vacina a ser aplicada é de uma dose menor e possui características diferentes daquela que os adultos recebem, tendo sido desenvolvida especificamente para os pequenos. Enquanto outros países já realizam a imunização, o Brasil segue parado, com o governo federal criando obstáculos para a aplicação, dizendo que seria necessária uma prescrição médica para que a criança pudesse ser imunizada. No Rio Grande do Sul, a Secretaria Estadual da Saúde (SES) já informou que não exigirá receita medida para a vacinação de crianças.


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