A decisão de proibir os sites de apostas no Brasil, anunciada faltando poucos dias para as eleições, levanta o questionamento sobre o momento escolhido pelo governo. O calendário eleitoral, porém, não apaga um problema que já existia: as bets passaram a disputar espaço no orçamento das famílias com o consumo, o pagamento de dívidas e até despesas básicas.
Um estudo divulgado em abril pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), com dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), estimou que a inadimplência associada às apostas retirou R$ 143 bilhões do varejo entre janeiro de 2023 e março deste ano. Cerca de 270 mil famílias teriam chegado à inadimplência severa, que são os atrasos superiores a 90 dias.
Outro levantamento, da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil, analisou o comportamento dos apostadores. Entre os entrevistados, 25% disseram ter deixado de pagar alguma conta para apostar e 24% relataram ter ficado com o nome negativado em consequência dos jogos on-line.
Quando o dinheiro das apostas começa a faltar para pagar contas ou fazer compras, a questão deixa de ser apenas uma escolha individual. O efeito chega ao comércio, à indústria, aos serviços e ao mercado de crédito.
Diante dos números sobre o mercado de apostas e endividamento, algumas medidas foram implantadas pelo governo. Em 2025, foi permitida apenas a operação de empresas autorizadas, e entraram em vigor restrições como a proibição ao uso de cartão de crédito nas apostas e a oferta de crédito pelas plataformas.
A proibição anunciada na semana passada pode ter consequências que vão além dos impactos para as bets. Há o risco de parte dos jogadores migrar para sites clandestinos, longe da fiscalização. E há setores que precisarão buscar novas fontes de receita, como é o caso do futebol. No ano passado, os patrocínios das bets renderam cerca de R$ 1 bilhão aos clubes da Série A, e 14 dos 20 times têm empresas do setor como patrocinadoras máster. Mas o futebol brasileiro movimentava bilhões antes da expansão desse mercado, e agora o desafio é buscar outras fontes de patrocínio.
Continue sua leitura, escolha seu plano agora!