O preço dos alimentos se mantém como o principal vilão da inflação no Brasil. Puxado claramente pela tragédia climática no Rio Grande do Sul, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) acelerou de 0,38% em abril para 0,46% em maio.
O segmento de alimentação e bebidas até desacelerou o ritmo de avanço entre abril e maio - foi de 0,70% para 0,62% - em Porto Alegre, ficou em 2,63%. Ainda assim, exerceu o principal impacto no IPCA, de 0,13 ponto percentual.
A situação não é de todo uma novidade. O mercado já esperava alta no preço dos alimentos como consequência das enchentes, que estragaram plantações e travaram o escoamento de produtos no Estado. Não à toa, Porto Alegre registrou a maior inflação das 16 capitais e regiões metropolitanas pesquisadas: 0,87%. Quase o dobro do índice nacional, que ficou em 0,46%.
Enquanto hortaliças e verduras subiram 0,37% no País, em Porto Alegre houve alta de 14,88%. No caso das frutas, que ficaram mais baratas na média nacional (-2,73%), os porto-alegrenses tiveram que pagar 5,52% a mais na comparação com abril.
Na região do Vale do Rio Pardo, por exemplo, as perdas nas plantações superaram 90% para hortaliças diversas e 30% na fruticultura. A qualidade desses produtos deve ser afetada, ainda por algum tempo, já que houve significativas perdas no solo, em nutrientes e matéria orgânica, devido ao excessivo volume de chuva e a áreas que ficaram alagadas.
Outro ponto que precisa ser levado em consideração é o quanto os efeitos climáticos incidirão sobre culturas com ciclo mais longo, como arroz, feijão, soja e milho. É provável que a oferta desses grãos seja prejudicada e que eles passem a encarecer produtos que compõem a cesta básica.
Até agora, a estimativa de inflação para 2024 está dentro do intervalo da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional, que é de 3%, com uma margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.
Porém, deve ser reconhecido que são várias as pressões inflacionárias que estão ocorrendo como consequência dos desequilíbrios climáticos. O comportamento desses preços preocupa o mercado financeiro, uma vez que a política monetária é pouco eficaz quando o problema é de oferta e não de demanda. Diante desse cenário, analistas veem a possibilidade de o Banco Central interromper o ciclo de cortes da taxa básica de juros, a Selic - atualmente em 10,50% ao ano -, na reunião marcada para os dias 18 e 19 de junho.