Dois desafios têm demandado as necessidades do setor da construção civil: a recorrente falta de mão de obra, principalmente a especializada, e a pressão por entregas rápidas. Nesse cenário, industrializar os processos, do projeto à execução da obra, pode ser uma solução de acordo com especialistas que participaram do 4º Seminário da Industrialização na Construção Civil, realizado nesta quarta-feira (16) pela Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (Asbea) e pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil do Rio Grande do Sul (Sinduscon-RS).
Entre as soluções apresentadas, estão sistemas construtivos industrializados, uso de madeira engenheirada e processos que transferem parte da produção do canteiro de obras para ambientes fabris. Para o vice-presidente do Sinduscon-RS, Roberto Sukster, iniciativas como essas, que unem a construção civil à indústria, têm sido vistas não mais como uma alternativa tecnológica, mas como uma necessidade.
"Devido à falta de mão de obra, a industrialização deixou de ser uma opção e se tornou praticamente obrigatória. Só precisamos trabalhar muito bem e entender profundamente os sistemas que existem no mercado. E é preciso alinhar profissionais de arquitetura, incorporadores e construtoras para realmente colocar a industrialização em prática", avalia o dirigente da entidade.
Em uma perspectiva semelhante, a presidente da Asbea, Raquel Hagen, pontua que a adaptação para a industrialização deve partir do projeto. "É um caminho que faz cada vez mais sentido. Por isso, é importante que a discussão aconteça do projeto à execução. Porque não adianta chegar na execução da obra e não ter tido projeto adequado a isso", explica.
Mas essa dificuldade de encontrar trabalhadores não é exclusiva do Rio Grande do Sul – e nem mesmo do País. O diretor de operações do Enkel Group, Juan Pablo Delatorre, afirma que no Uruguai, onde a empresa atua na entrega de construções a partir de madeira engenheirada, o cenário é semelhante.
"O ladrilho, que é algo tradicional desta região, entre Uruguai e Rio Grande do Sul, está deixando de ser usado e já não há gente que saiba trabalhar com isso. O mesmo acontece com outras técnicas. A mão de obra no Uruguai é muito cara e não para de subir. Com isso, o mercado precisa de sistemas que usem da menor quantidade de mão de obra possível para alcançar os melhores resultados", avalia Delatorre.
Sistemas tecnológicos exigem maior especialização
Embora reduzam a necessidade de trabalhadores atuando no canteiro de obras e levem parte dos processos ao ambiente fabril, os sistemas de industrialização na construção civil utilizam novas tecnologias. E, com isso, surge outra necessidade: a de uma mão de obra especializada e qualificada para atender às necessidades desse modelo. Passa a ser uma nova exigência de perfil profissional.
Sukster cita o drywall como exemplo de uma atividade que pode ser atrativa para profissionais que queiram uma atividade de menos esforço físico e com rotinas diferentes das tradicionalmente associadas aos canteiros de obra. "Esse profissional também vai trabalhar na construção, mas ele vai usar ferramentas eletrônicas e se sujar muito menos. É um serviço mais qualificado e de mais conhecimento técnico. E, apesar de termos poucos profissionais que trabalham nesse sistema industrializado, acho que é um treinamento muito mais rápido que o tradicional", exemplifica.
A presidente da Asbea trabalha na mesma linha, considerando que a qualificação pode ser uma forma de tornar o setor mais atrativo aos trabalhadores. Raquel acredita que nesse contexto é possível abrir espaço para cursos e novas funções profissionais.
"Cada vez mais as pessoas querem buscar trabalhos qualificados ou mais bem remunerados. Para isso, é necessário qualificar as pessoas. Trazer essas discussões sobre especialização ajuda a movimentar cursos no setor para que as pessoas possam aumentar sua empregabilidade. Assim, podemos ter um maior giro de pessoas e empregos no setor", considera Raquel.
Agilidade trazida pelos sistemas é diferencial
A industrialização tem como um dos seus diferenciais a maior agilidade no andamento das obras. Com isso, em poucos meses é possível que uma nova construção seja entregue.
No Rio Grande do Sul, esse cenário ganhou força a partir dos esforços de reconstrução do Estado após as enchentes de 2023 e 2024, que arrasaram diversas cidades do território gaúcho. "É algo que ajuda muito na recuperação. É absurdamente diferente dos modelos tradicionais, porque é uma alternativa mais direta e de recuperação mais rápida das estruturas. E vimos como foi difícil encontrar soluções", comenta Raquel.
Sukster acrescenta que, após a calamidade climática o Sinduscon-RS buscou alguns sistemas industrializados para auxiliar na recuperação do Estado. "Vimos, naquele momento, uma tendência de industrialização. Mas, como todo processo que envolve sistemas novos, inovadores, é uma implementação lenta. Porque precisamos usar sistemas que tenham um bom desempenho e não apenas mudar o modelo tradicional que já funciona muito bem sem ter o conhecimento técnico necessário da novidade", comenta o vice-presidente da entidade.
Adesão ainda é incipiente
Por ser uma novidade, tanto no Rio Grande do Sul quanto no Uruguai é observável que os sistemas industrializados para a construção civil ainda não predominam. A adesão ainda é incipiente, mas vem crescendo nos últimos anos.
"Nos últimos anos é algo que vem crescendo bastante, mas deve ampliar ainda mais à medida em que construtoras e profissionais ampliem o conhecimento sobre as alternativas disponíveis e encontrem aplicações economicamente viáveis", projeta Sukster.
No caso de Porto Alegre, a adesão esbarra em limitações do modelo de imóveis construídos. Conforme o vice-presidente do Sinduscon-RS, há poucos empreendimentos grandes na Capital e, comumente, de alturas mais baixas o que, na sua avaliação, torna a industrialização mais complicada.
Já no Uruguai Latorre relata que a industrialização chegou há poucos anos, mas que já há projetos de grande magnitude avançando. O uso de tecnologias como a madeira engenheirada, nesse caso, tem se consolidado a partir dessas obras que avançam.
"Temos diversas empresas no nosso grupo e uma integração vertical da florestação ao produto final terminado, com a casa sendo entregue 100%. Isso não é comum no mundo. E estamos manejando internamente todo esse alcance", conta o uruguaio sobre a sua experiência no setor.