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Publicada em 19 de Novembro de 2025 às 18:38

Cultura, identidade e estratégia: Tá na mesa discuste resiliência em tempos de crise

Glaucia Nasser, Shirley Balbino e José Luiz Tejon destacaram que cultura não pode ser acessório na gestão

Glaucia Nasser, Shirley Balbino e José Luiz Tejon destacaram que cultura não pode ser acessório na gestão

TÂNIA MEINERZ/JC
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Gabriel Margonar
Gabriel Margonar
O Tá na Mesa desta quarta-feira (19) levou ao Palácio do Comércio, em Porto Alegre, um debate que fugiu do tradicional repertório de números, projeções e diagnósticos setoriais. Proposto pela Federasul sob o tema “Cultura e resiliência empresarial: estratégias para atravessar crises”, o encontro fez do tradicional almoço uma conversa mais profunda sobre identidade, pertencimento e a capacidade de empresas e lideranças se reconstruírem num período em que mudanças - sejam elas econômicas, sociais ou climáticas - chegam cada vez mais rápidas.
O Tá na Mesa desta quarta-feira (19) levou ao Palácio do Comércio, em Porto Alegre, um debate que fugiu do tradicional repertório de números, projeções e diagnósticos setoriais. Proposto pela Federasul sob o tema “Cultura e resiliência empresarial: estratégias para atravessar crises”, o encontro fez do tradicional almoço uma conversa mais profunda sobre identidade, pertencimento e a capacidade de empresas e lideranças se reconstruírem num período em que mudanças - sejam elas econômicas, sociais ou climáticas - chegam cada vez mais rápidas.
Três convidados com trajetórias distintas destacaram que cultura não é acessório na gestão: é fundamento. Glaucia Nasser, empresária e artista; Shirley Balbino, fundadora do Complexo Cultural Villa Santo Inácio; e José Luiz Tejon, referência nacional em agronegócio e estratégia, conduziram reflexões que cruzaram arte, memória, educação e competitividade.
Primeira a falar, Glaucia trouxe ao palco uma espécie de manifesto sobre pertencimento. Em tom de narrativa, costurou a trajetória pessoal ao que considera o maior desafio contemporâneo das empresas: recuperar sentido.
“Desejo sem pertencimento é vazio”, afirmou. Para ela, a cultura - pessoal e organizacional - é o que sustenta decisões, acelera transformações e permite que empresas atravessem períodos de instabilidade. “O sertão não é geografia. O sertão está dentro de nós”, disse, ao defender que valores e identidade precisam estar na base de qualquer estratégia.
A empresária resgatou ainda a história de Chiquinha Gonzaga, destacando a coragem da maestrina ao romper padrões e transformar a própria vida, uma metáfora sobre liberdade e criatividade em tempos de crises. “A arte nos reumaniza”, resumiu.
Glaucia compartilhou o processo de reconstrução cultural em sua empresa, iniciado quando diagnósticos internos revelaram falhas profundas de valores e práticas. Cerca de 100 funcionários decidiram não seguir o novo propósito. “Perdemos gente, fechamos o ano no prejuízo, mas com o fundamento certo. No seguinte, tivemos os melhores resultados da nossa história.”

Raízes, beleza e reinvenção

Se a fala de Glaucia abordou pertencimento como caminho coletivo, a de Shirley Balbino trouxe a cultura a partir da própria sobrevivência. Crescida em um bairro marcado por violência e abandono, ela contou como teatro, música e imaginação lhe ofereceram a primeira rota de fuga. “A beleza me salvou. E acredito que a beleza salvará o mundo.”
Em seu relato, ela reconstituiu a virada que a levou de uma infância sem estrutura a bolsas de estudo, intercâmbios e à criação de sua primeira loja de moda. Mais tarde, uma crise financeira a obrigou a voltar às origens - literalmente - para perceber que suas “sementes” amazônicas carregavam valor cultural e econômico. Elas se tornaram o produto que conseguiria exportar para a Europa.
“Quando nos desconectamos da nossa origem, perdemos identidade. E no mundo empresarial, identidade é força.”
Hoje, Shirley lidera a revitalização do patrimônio histórico jesuíta que deu origem à Villa Santo Ignácio, em Salvador do Sul, projeto ancorado em turismo, cultura e educação. “Eu precisei resgatar a menina que carregava baldes d’água na cabeça. A crise despertou essa menina”, afirmou, citando Viktor Frankl: “Quem tem um porquê enfrenta quase qualquer como.”

O agro que vai muito além do agro

José Luiz Tejon, por sua vez, abordou o único tema diretamente econômico da tarde - mas com a mesma lente cultural. Ele insistiu que a agropecuária brasileira só se sustenta por ser uma cadeia integrada, que envolve indústria, ciência, serviços, cooperativismo e logística.
“70% do agro não é agro”, disse, reforçando a ideia de que a economia funciona em redes e que a falta de coordenação entre setores aprofunda crises. A partir de experiências pessoais marcantes, Tejon explicou que cultura, no sentido mais amplo, é o que molda caráter, empresa e o País como um todo.
Aproveitou ainda para discutir a atual crise do arroz como exemplo de setor que precisa de reposicionamento. “Culturalmente, o arroz envelheceu. Não foi reinventado. Para crescer de novo, precisa ser apresentado de outro jeito às novas gerações, tornar-se atrativo”.

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