Com a taxa Selic em 15% ao ano, o investidor brasileiro segue privilegiando a renda fixa em detrimento da renda variável. O cenário é refletido no ranking de captações divulgado pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima): no primeiro semestre de 2025, o volume de originação de produtos de renda fixa e híbridos chegou a R$ 262,1 bilhões, enquanto a renda variável somou apenas R$ 2,15 bi. Nos últimos 12 meses, a diferença é ainda mais expressiva: R$ 520,4 bilhões contra R$ 2,81 bi.
Na prática, o montante movimentado pela renda fixa foi mais de 100 vezes superior ao da renda variável, sinalizando a prioridade dos investidores por segurança em meio a juros elevados. A própria poupança, embora ainda seja a aplicação mais popular, perdeu espaço: encolheu 1,5% no primeiro semestre e fechou junho com R$ 956,9 bilhões aplicados, mesmo em um contexto em que o volume total de investimentos cresceu 6,8%, para R$ 7,9 trilhões.
Segundo Gustavo Inácio de Moraes, economista e professor da Escola de Negócios da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs), a manutenção da Selic em patamares tão altos "funciona como um convite para investir em renda fixa". Ele lembra que títulos públicos, como o Tesouro Selic e o Tesouro IPCA+, oferecem retornos significativamente superiores à poupança, com risco baixo.
"O problema da poupança está na sua própria regra de remuneração, que é historicamente ruim. Tecnicamente, não há justificativa para manter recursos nela em qualquer cenário de juros", afirma. Em regra, a poupança rende 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial (TR) quando a Selic está acima de 8,5% ao ano; se a Selic fica igual ou abaixo desse patamar, o rendimento passa a ser de 70% dela, também acrescido da TR.
Poupança lidera mas está em baixa
Segundo o último Raio X do Investidor Brasileiro, também da Anbima, 37% da população com mais de 16 anos tinha algum tipo de investimento financeiro em 2024 — cerca de 59 milhões de pessoas. A poupança segue como o produto mais comum, mas caiu de 25% para 23% da população em um ano.
Ainda assim, 32 milhões de brasileiros investem apenas na caderneta, mesmo em desvantagem frente a alternativas básicas da renda fixa. A digitalização também acelera essa transição: quase metade (49%) dos investidores já utiliza aplicativos de bancos e corretoras para aplicar, tendência mais forte entre os jovens.
O Rio Grande do Sul aparece como o quinto estado em número de investidores pessoa física, atrás apenas de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná. Para Moraes, o perfil regional reforça uma tendência de cautela. “O investidor gaúcho tende a ser mais conservador, com menor participação em Bolsa, fundos imobiliários e ETFs. Há uma preferência clara por produtos de menor risco e volatilidade”, observa.
Para o economista, mesmo que haja expectativa de uma queda gradual dos juros a partir de 2026, dificilmente o Brasil conviverá com uma Selic abaixo de dois dígitos por longos períodos. Isso significa que a renda fixa - especialmente os títulos atrelados à inflação - deve permanecer como pilar das carteiras.
“A renda variável pode voltar a ganhar espaço em momentos específicos, mas estruturalmente o Brasil é um país de juros altos. O investidor que souber explorar bem esse cenário terá ganhos consistentes”, conclui Moraes.
Quanto rende R$ 1.000 em 12 meses (Selic a 15% a.a.)
O Jornal do Comércio simulou quanto renderia uma aplicação de R$ 1 mil em diferentes modalidades de investimento ao longo de 12 meses, considerando a Selic a 15% ao ano. O resultado evidencia a distância entre a poupança e outras alternativas básicas de renda fixa.
Enquanto a caderneta chegaria a apenas R$ 1.061,70 no período, Tesouro Selic e CDBs atrelados ao CDI ultrapassariam R$ 1.127, mesmo após o desconto do Imposto de Renda. Já as LCIs e LCAs, que oferecem isenção tributária, renderiam cerca de R$ 1.115 no mesmo horizonte.
A comparação mostra que, com os juros elevados, deixar o dinheiro na poupança significa perder boa parte do ganho que poderia ser obtido em alternativas igualmente seguras. Títulos como o Tesouro Selic e os CDBs oferecem rentabilidade maior e permitem resgatar o valor rapidamente - no caso do Tesouro, já no dia útil seguinte.
| Aplicação |
Rendimento bruto (12m) |
IR? |
FGC? |
Liquidez |
Valor líquido aprox. |
| Poupança |
6,17% a.a. |
Não |
Não |
imediato |
R$ 1.061,70 |
| Tesouro Selic |
15% a.a. |
Sim (20%) |
Não |
D+1 |
R$ 1.127,50 |
| CDB 100% CDI |
15% a.a. |
Sim (20%) |
Sim |
varia |
R$ 1.127,50 |
| LCI/LCA 90% CDI |
~13,5% a.a. |
Não |
Sim |
varia (carência) |
R$ 1.115,00 |