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Publicada em 20 de Agosto de 2025 às 00:25

Estatais têm sinal verde do governo para apresentar plano que flexibiliza gastos

Das 44 empresas estatais federais, 17 são dependentes do Tesouro

Das 44 empresas estatais federais, 17 são dependentes do Tesouro

Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
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Agências
As empresas estatais dependentes do Tesouro Nacional receberam o sinal verde do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para apresentar um plano individual que pode dar a elas mais flexibilidade para executar despesas financiadas com receitas próprias.
As empresas estatais dependentes do Tesouro Nacional receberam o sinal verde do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para apresentar um plano individual que pode dar a elas mais flexibilidade para executar despesas financiadas com receitas próprias.
Uma portaria interministerial publicada nesta segunda-feira no Diário Oficial da União cumpre o último requisito burocrático necessário para autorizar as companhias a enviar suas propostas de sustentabilidade econômica e financeira. A Telebras informou à reportagem que já trabalha em seu plano, seguindo as diretrizes da portaria.
A implementação dos planos apresentados vai depender da aprovação em instâncias de governança dentro da empresa e do Executivo. Também será necessário fazer ajustes no Orçamento Federal. Quem conseguir o aval migra para um modelo mais flexível, no qual a companhia assina um contrato de gestão e segue recebendo dinheiro do Tesouro para pagar salários e despesas de custeio (característica que faz dela uma estatal dependente), mas pode usar as receitas próprias para ampliar investimentos sem esbarrar em regras fiscais.
A maior autonomia não se aplica à política de salários, que continuarão sujeitos ao teto remuneratório do funcionalismo (equivalente a R$ 46.366,19 mensais).
Hoje, as empresas dependentes têm suas despesas integralmente listadas dentro do Orçamento e ficam sujeitas às mesmas regras fiscais seguidas pelo Executivo - limite de gastos e meta de resultado primário. A visão do governo é que esse formato muitas vezes inibe as companhias de fechar novos negócios, pois mesmo que elas arrecadem mais, não há garantia de que terão espaço para elevar investimentos.
A medida foi recebida com desconfiança no mercado financeiro, diante do temor de que sirva de pretexto para o Executivo excluir despesas do Orçamento e ampliar seu espaço fiscal. O governo nega que haja esse efeito, embora reconheça que uma das consequências deve ser a queda nos repasses às companhias dependentes (hoje na casa dos R$ 24 bilhões).
Nem todas as empresas estarão aptas a ingressar no modelo mais flexível. O governo vai exigir que, na média dos três últimos anos, pelo menos 40% dos gastos operacionais tenham sido financiados por receitas próprias para a companhia se habilitar à mudança.
Além da Telebras, a Imbel (Indústria de Material Bélico do Brasil) também preenche esses critérios e poderá apresentar o plano. O governo ainda calcula se mais empresas poderão pleitear o tratamento. Hoje existem 44 empresas estatais federais, das quais 17 são dependentes do Tesouro.
A portaria é assinada pelos ministérios da Gestão, do Planejamento e Orçamento e da Fazenda e complementa a regulamentação do tema feita em decreto do presidente Lula.
A secretária de Coordenação e Governança das Empresas Estatais do Ministério da Gestão, Elisa Leonel, disse à reportagem que a assinatura dos contratos de gestão só ocorrerá após os ajustes orçamentários -que, por sua vez, dependem do que cada empresa propuser no plano de sustentabilidade econômica e financeira.
No documento, elas terão que indicar o diagnóstico da situação atual, incluindo uma análise setorial e de mercado (com identificação de fraquezas, oportunidades e ameaças ao negócio), a descrição de ações já tomadas ou a implementar para alcançar o equilíbrio, as projeções de fluxo de caixa e de resultados para um período de no mínimo cinco anos, entre outras obrigações. Vendas de ativos, como imóveis, não serão consideradas para medir a sustentabilidade financeira, pois não são recorrentes.
A partir disso, governo e empresa vão pactuar o tamanho dos repasses que o Tesouro continuará fazendo ao longo dos próximos anos.
"Pode ser que o contrato de gestão já preveja uma redução do valor repassado. Você imagina que uma empresa tenha assinado um novo contrato, tenha entrado uma nova receita própria. Então, o teto do que o governo vai aportar e, portanto, o teto do que vai aparecer na rubrica orçamentária do ministério é aquilo que hoje ele já aporta. E a intenção é que vá decrescendo ao longo do tempo", disse Leonel.
Quando a empresa tiver receitas próprias equivalentes a 105% de suas despesas operacionais numa média de três anos, a empresa será declarada independente e sairá do Orçamento Fiscal em definitivo. A ideia é que isso aconteça em até dez anos -o primeiro plano valerá por cinco anos, prorrogáveis por mais cinco. Caso não ocorra, a companhia será mantida como dependente do Tesouro, sujeita às regras dessa categoria.
Segundo a secretária, as empresas podem apresentar o plano a qualquer momento, conforme a conveniência, desde que cumpram os requisitos. "Aí existe o trâmite processual, que pode ou não culminar numa assinatura efetiva esse ano, mas a gente não é capaz de dizer isso a priori", afirmou.
Caso alguma empresa apresente o plano nas próximas semanas, o governo pretende solicitar os ajustes orçamentários necessários durante a tramitação do PLOA (projeto de Lei Orçamentária Anual) de 2026 no Congresso. A avaliação é de que dificilmente haverá tempo hábil para enviar essas informações junto com a proposta, que precisa ser encaminhada até 31 de agosto.
A Telebras é a principal interessada no modelo mais flexível. A companhia passou a depender de recursos da União em 2020, mas conseguiu melhorar seu caixa nos últimos anos. Ainda assim, tem esbarrado em limites orçamentários para honrar despesas e enfrenta dificuldades para pagar fornecedores em dia.
Em 2023, a empresa empurrou R$ 74,4 milhões em gastos para o início de 2024, em operação que entrou na mira de órgãos de controle. A companhia disse que está em processo de elaboração do plano, conforme as diretrizes da portaria.
"O documento ainda está em processo de avaliação e, portanto, não é possível detalhar etapas de aprovação ou projeções específicas de resultados", disse a empresa, em nota.

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