Um fato inédito envolvendo a discussão em torno da usina Candiota 3 aconteceu na semana passada quando ambientalistas do Instituto Internacional Arayara se reuniram, em Brasília, com integrantes dos sindicatos dos Mineiros de Candiota e dos Eletricitários do Rio Grande do Sul (Senergisul). “Foi a primeira vez na história que conseguimos uma aproximação como essa”, celebra o engenheiro ambiental do Instituto Internacional Arayara, John Fernando de Farias Wurdig.
Entre as convergências dos grupos está a questão da necessidade de ter um cuidado social com as pessoas que vivem na região. Já a principal divergência está no tempo de abandono do uso do carvão. Enquanto mineiros defendem a manutenção de Candiota 3 até 2043 (data que coincide com o fim do contrato da outra térmica que opera no município, a Pampa Sul), o pós-doutor em Energias e diretor do Arayara, Juliano Bueno de Araújo, diz que o objetivo é encerrar a utilização do mineral até 2030.
Para amenizar o impacto dessa medida na cidade, ele sugere investimentos de R$ 3 bilhões, oriundos da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) – um encargo do setor elétrico presente nas contas de luz. “Assim efetivando um pacto federativo para o phase out (interrupção) do carvão em Candiota”, reforça.
Esses recursos seriam empregados em um programa de recuperação ambiental das áreas de mineração do município, aposentadorias antecipadas de profissionais que atuam nessa área, subsídios para a comunidade afetada e investimentos em infraestruturas de projetos sustentáveis.
Por sua vez, o diretor de Comunicação do Sindicato dos Mineiros de Candiota, Hermelindo Ferreira, argumenta que, apesar de muitas vezes ficarem em lados opostos, os mineiros não são contra ambientalistas e vice-versa. Ele afirma que, com uma visão de negociador sindical, quanto mais próximas as pessoas estiverem, menores serão os problemas e conflitos.
No entanto, para ele a solução não é simplesmente aposentar os mineiros. “O que a gente faz com a cidade, que pode submergir dentro de um processo de desaparecimento da economia? Eu nasci nessa região, tenho meu filho para criar aqui, família, conhecidos, não posso colocar um dinheiro no bolso, olhar para as pessoas e dizer tchau”, afirma o dirigente.
Já Wurdig assinala que o desenvolvimento de uma transição energética na região, com a inclusão dos trabalhadores, devia ter sido iniciado há, pelo menos, cinco anos. O integrante do Arayara destaca que Candiota 3 é uma usina problemática. Ele revela que, em dezembro, a termelétrica recebeu uma multa ambiental do Ibama de cerca de R$ 500 mil. Segundo Wurdig, isso demonstra os problemas operacionais desse empreendimento.
Sobre a possibilidade da derrubada dos vetos do PL 576 que beneficiaria a térmica gaúcha, o engenheiro ambiental considera que seja uma hipótese difícil de ser concretizada. Além disso, o integrante do Arayara comenta que, se os vetos caírem, o governo federal deve tratar da questão judicialmente para manter a decisão.
“Porque tem todo o arcabouço legal, principalmente, do Acordo de Paris e a questão do Ministério da Fazenda, contrário devido ao encarecimento da conta de luz”, indica Wurdig. Os representantes do Arayara também estão buscando uma reunião com a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, para solicitar uma manifestação da pasta sobre a situação de Candiota 3.