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Energia

- Publicada em 23 de Janeiro de 2023 às 18:22

Implantação de gasoduto Uruguaiana-Porto Alegre retorna à pauta

Estrutura é projetada para uma extensão de cerca de 600 quilômetros

Estrutura é projetada para uma extensão de cerca de 600 quilômetros


ARTE JULIANO BRUNI/JC
Jefferson Klein
O encontro em Buenos Aires entre os presidentes brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e argentino, Alberto Fernández, entre outros tópicos, serviu para discutir a possibilidade de levar gás de folhelho (também chamado de gás de xisto) da jazida conhecida como Vaca Muerta para o Brasil. Essas conversas iniciais reacenderam a perspectiva da retomada de um projeto debatido desde o começo desse século no Rio Grande do Sul: a construção de um gasoduto ligando a cidade fronteiriça de Uruguaiana a Porto Alegre.
O encontro em Buenos Aires entre os presidentes brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e argentino, Alberto Fernández, entre outros tópicos, serviu para discutir a possibilidade de levar gás de folhelho (também chamado de gás de xisto) da jazida conhecida como Vaca Muerta para o Brasil. Essas conversas iniciais reacenderam a perspectiva da retomada de um projeto debatido desde o começo desse século no Rio Grande do Sul: a construção de um gasoduto ligando a cidade fronteiriça de Uruguaiana a Porto Alegre.
Fernández confirmou nesta segunda-feira (23) que o tema do gás foi tratado com Lula e sua equipe. O presidente argentino classificou a reunião como "sensacional" e afirmou que tinha certeza que os governos estavam avançando em nível mais profundo do que antes. “Nossa aproximação vai durar décadas", previu. A reserva de Vaca Muerta fica localizada nas províncias de Neuquén e Mendoza e para fazer o escoamento do gás está prevista a implementação do gasoduto Néstor Kirchner.
Essa estrutura, com cerca de 1 mil quilômetros de extensão, possibilitará fazer o transporte do combustível da sua origem até San Jerónimo, na província de Santa Fé. Uma notícia de dezembro do ano passado informou que o Bndes contribuiria com o financiamento de US$ 689 milhões para essa obra, mas o banco brasileiro afirma que não há consulta referente a essa ação. No entanto, na Argentina, Lula citou o Bndes ao falar em formas possíveis de financiar o gasoduto Néstor Kirchner.
"Se há interesse dos empresários, se há interesse do governo e nós temos um banco de desenvolvimento para isso, eu quero dizer que nós vamos criar as condições para fazer o financiamento que a gente puder fazer para ajudar o gasoduto argentino", declarou o presidente brasileiro a jornalistas na Casa Rosada. Ele acrescentou que "de vez em quando nós somos criticados por pura ignorância, pessoas que acham que não pode haver financiamento para outros países. Eu acho não só que pode, como é necessário que o Brasil ajude a todos os seus parceiros”.
A questão interessa particularmente ao Rio Grande do Sul já que, quanto à exportação do gás para o Brasil, uma possibilidade logística é que a sua entrada no País ocorra pelo Estado, por Uruguaiana, onde chega um gasoduto para alimentar a termelétrica instalada no município. Com a construção do gasoduto Néstor Kirchner até a planta compressora de gás situada em San Jerónimo seria possível, através da malha existente, alcançar Uruguaiana, percorrendo uma distância de cerca de 450 quilômetros.
A partir da cidade gaúcha, seria necessária a implantação de um novo gasoduto, fazendo a ligação até a região metropolitana de Porto Alegre, o que possibilitaria a conexão com a malha já existente no Brasil. Os direitos de implantação desse projeto, conhecido como gasoduto Uruguaiana-Porto Alegre, pertencem à empresa Transportadora Sulbrasileira de Gás (TSB).
“Hoje, a Argentina tem gás, a questão é transportar esse gás”, frisa o diretor geral da TSB, Walter Farioli. Ele detalha que, além da opção da ligação pela Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, há outras alternativas para o insumo entrar no Brasil. Uma delas é o gás de Vaca Muerta seguir até o terminal de GNL de Bahía Blanca, onde o combustível seria transformado em líquido e exportado por navios. Outra forma seria investimentos em gasodutos no Norte da Argentina para que o gás entre na Bolívia e venha para o Brasil por esse outro país vizinho.
Para Farioli, é possível conciliar todas essas hipóteses. “A gente chama isso na indústria de flexibilidade”, afirma o diretor da TSB. A capacidade máxima do gasoduto Uruguaiana-Porto Alegre seria de até 15 milhões de metros cúbicos ao dia e o investimento total é estimado atualmente entre US$ 1 bilhão e US$ 1,2 bilhão. O executivo adianta que o volume fornecido de gás iria aumentando com os anos, devendo começar em algo entre 5,5 milhões a 6 milhões de metros cúbicos ao dia. Conforme Farioli, a partir do início das obras levaria em torno de dois anos para concluí-las.
A estrutura em solo gaúcho teria cerca de 600 quilômetros de extensão e importantes cidades gaúchas estariam na área de influência desse gasoduto, tais como Uruguaiana, Alegrete, Santa Maria, Santa Cruz do Sul, Triunfo e a Capital. O diretor da TSB salienta que é muito importante a participação dos governos em empreendimentos de infraestrutura de longo prazo e que demandam vultosos investimentos. Uma prova do interesse da Argentina e do Brasil em avançar nesse assunto foi a declaração do secretário de Américas do Ministério de Relações Exteriores do governo brasileiro, embaixador Michel Arslanian Neto. “O que há é um propósito muito claro de as equipes dos dois países (Brasil e Argentina), com o impulso no mais alto nível, para avançar em temas como integração energética e, claramente, a integração gasífera", destacou Arslanian Neto.
* Com Agência Estado.

Dois trechos do empreendimento já estão operando

O projeto inteiro do gasoduto Uruguaiana-Porto abrange três trechos, sendo que o primeiro e o terceiro já se encontram em operação. O primeiro é um duto que cruza o rio Uruguai, vindo da ligação com a Argentina, faz o entorno de Uruguaiana até o ponto de entrega de gás para a termelétrica no município (esse segmento final, de poucos quilômetros, até a usina é de responsabilidade da distribuidora Sulgás). O terceiro trecho fica localizado nos arredores da refinaria Alberto Pasqualini (Refap), em Canoas, onde o gasoduto da TSB conecta-se com o da Transportadora Brasileira Gasoduto Bolívia-Brasil (TBG), que traz o gás da Bolívia. A TSB pega esse gás e transporta até o polo petroquímico de Triunfo onde a Sulgás faz a distribuição para as empresas desse complexo.
O trecho dois é justamente o que falta ser feito, com quase 600 quilômetros de extensão, para completar a conexão. Os dois trechos atualmente em operação possuem, cada qual, cerca de 25 quilômetros. Uma ponta em Uruguaiana e outra que abrange as cidades de Canoas, Nova Santa Rita e Triunfo (ou seja, apesar do projeto como um todo ser conhecido como gasoduto Uruguaiana-Porto Alegre, ele não passa diretamente pela capital gaúcha).
Se o terceiro trecho do gasoduto for realizado, o diretor da MaxiQuim Assessoria de Mercado, João Luiz Zuñeda, argumenta que o aumento da oferta de gás no Rio Grande do Sul poderia contribuir para o desenvolvimento de diversos outros empreendimentos. Uma dessas possíveis iniciativas, aponta o consultor, seria a ampliação do polo petroquímico de Triunfo.
Zuñeda considera que a participação da iniciativa privada, e não apenas de estatais, na expansão da malha de gasodutos seria fundamental para dar estabilidade aos projetos dentro do Mercosul. “Governos mudam”, adverte o diretor da MaxiQuim. Apesar das perspectivas da entrada do gás importado, Zuñeda adianta que também haverá pressão para que seja aproveitada a produção do pré-sal no Brasil.
Por sua vez, o diretor da consultoria ES-Petro, Edson Silva, complementa que, mesmo com a expectativa de exploração de reservas nacionais, o gás oriundo de Vaca Muerta pode ser competitivo no mercado brasileiro. Ele lembra que o custo de trazer o gás do pré-sal, que fica em alto mar, é elevado. “Há uma mudança do mercado de gás natural ocorrendo na América do Sul”, enfatiza Silva.
Conforme o diretor da ES-Petro, Vaca Muerta representa uma das maiores reservas de gás do mundo e a um custo acessível de exploração. O desafio financeiro é justamente viabilizar o transporte desses recursos. Ele ressalta que o gasoduto Uruguaiana-Porto Alegre está inserido nesse contexto, que envolve ainda a segurança e a transição energética da região.
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