Luciane Medeiros, da Ilha de Comandatuba (Bahia)
O mundo corporativo está voltando a atenção para a saúde mental dos trabalhadores. Mesmo assim, o desenvolvimento tecnológico, com cada vez mais ferramentas que exigem a atenção das pessoas, requer um novo olhar sobre as relações de trabalho. A avaliação foi feita pelo médico e escritor Drauzio Varella em conversa com jornalistas na manhã de sábado (22), antes da palestra de encerramento da 20ª Convenção ABF do Franchising na Ilha de Comandatuba, na Bahia, promovida pela Associação Brasileira de Franchising (ABF).
Assista a trechos da entrevista com Drauzio Varella
Drauzio disse que o impacto psicológico da pandemia não foi totalmente avaliado, mas que os dados existentes sobre casos de depressão e ansiedade em todas as faixas etárias são assustadores. Segundo ele, muitas empresas já oferecem suporte psicológico aos seus funcionários para atender ao aumento de casos dessas doenças. As organizações precisam levar em consideração que os funcionários não são máquinas e adoecem, não apenas fisicamente mas mentalmente, e devem ser acolhidos.
“A estrutura de trabalho atual, com a imposição de metas aliada à tecnologia, não veio para ajudar. A tecnologia veio para te tornar mais competitivo e fazer mais coisas”, avaliou o médico, citando a necessidade de estarmos sempre atentos a ferramentas como WhatsApp e email e de olho nas redes sociais. “O cérebro não tem capacidade de organizar todos esses pensamentos”, complementou. Essa necessidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo acarreta outro problema cada vez mais frequente que é a perda de memória, inclusive em pessoas mais novas.
Sobre a imposição de metas, Drauzio disse que elas são muito perigosas e atingem todos os níveis organizacionais, “da moça que serve café ao presidente da empresa”. O que acontece, explicou, é que a meta não depende apenas da pessoa, mas também da situação econômica do País e de fatores como o dólar, entre outros, sobre os quais não temos controle. “Às vezes a meta fica inexequível dentro da situação econômica e todos são responsáveis por cumprir. Não estamos preparados biologicamente para esse tipo de pressão e também para estar com a atenção dividida o tempo inteiro entre celular atendendo ao Whatsapp e email. Continuando assim, isso não vai dar certo”, alertou, dizendo que é hora de pensar como as relações de trabalho vão se conduzir nos próximos anos.
Outra questão levantada durante o bate papo foi a solidão do mundo atual, no qual as pessoas vivem longe de seus familiares em um ritmo de trabalho intenso, sem tempo para o lazer e a prática de esportes. “A cidade grande impõe uma solidão para a qual não fomos preparados. A condição fundamental para a sobrevivência da espécie é formar grupos e por isso gostamos de estar assim. Você não vai para um bar tomar chopp sozinho, você vai com os amigos”, exemplificou.
Perguntado sobre alguns hábitos pessoais de saúde, o médico de 79 anos contou que não come manteiga desde a infância e não consome açúcar. Além disso, Drauzio é um participante de maratonas, tendo concluído neste mês a prova em Londres. O brasileiro foi agraciado com a Six Star Medal, distinção conferida aos atletas que completam as principais provas de distância no mundo: Berlim, Tóquio, Londres, Nova York, Boston e Chicago. E no domingo (23), dia seguinte a sua participação no evento, Drauzio foi visto antes das 7h correndo nas areias da Ilha de Comandatuba, comprovando não só recomenda a prática de exercícios físicos como é um adepto.